segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Como nascem os sonhos?

  Porque um dia, chega assim bem devagar uma ideia inédita, inicialmente longínqua, uma nova perspectiva aproxima-se, agora de maneira mais efetiva, e um desejo novinho apossa-se da sua mente, coração e alma, sinalizando certa eternidade. Aparece sem avisos, hora marcada, sem preferência de clima, lugar ou humor, só chega calmo, sereno, leve. Até que passa a fazer parte do seus dias, toma lugar nos seus pensamentos e chega a parecer vida, imitar vida ou, mesmo, ser um pedaço da sua vida.

  Quando ainda eles só se mantêm dentro, parecem sem utilidade prática, como uma música boa, um cheiro prazeroso, uma imagem espetacular, um vento salvador, só confortam os sentimentos. Não trazem dinheiro, não pagam contas, não entram nos currículos, não conquistam fama, nem sequer simpatia. Porque são secretos, etéreos, intocados. São individuais, nascem para servir com exclusividade a quem os gerou.

  Dizem os racionais que vida de verdade é aquela que temos com os pés fincados ao chão. São as conquistas que possuem alguma comprovação:certificados, títulos, testemunhas, fotografias que sejam. Dizem muitos por aí, que idealizar uma situação é o caminho certo para a frustração, de fato, até é bem verdade. Mas como viver somente no mundo frio, infértil e limitado dos "acontecimentos vividos"?

  Lembra do garotinho alegre, descalço no campo de várzea, chutando a bola velha, mas ouvido uma multidão no Maracanã gritando seu nome, enquanto ele driblava um, outro, depois mais outro e outros tantos e finalizando em um gol memorável? E a menina tímida do interior que sambava em frente a TV e por algumas horas era a própria madrinha de bateria no Carnaval do Rio de Janeiro? Eles não viviam enquanto sonhavam? 
  O menino cresceu e enquanto crescia descobriu necessidades mais urgentes: ajudar a mãe a cuidar dos irmãos, dividir as despesas de um lar precário, depois cuidar dos próprios filhos, que jurou jamais abandonar como seu pai abandonara-os um dia. O menino descobriu outros prazeres, novas habilidades e o futebol foi apenas um sonho bom, como para os outros garotos daquela e de outras tantas várzeas.
  A menina também virou mulher e crescida entendeu que só sambava mesmo tão bem quanto achava, sem público, sozinha, no seu quartinho pequeno. A mulher não faz minimamente o estilo "deusa do samba", nem biotipo, nem personalidade, mas ainda hoje se emociona quando ouve a bateria de uma escola de samba.

  Os sonhos  nos afastam da tristeza, da monotonia, do "mais do mesmo". Nossos sonhos nos fazem entrar em contato com o que de mais íntimo carregamos e, tantas vezes distraídos, juramos não perceber,  são eles que nos seguram e nos levantam, quando tudo no mundo nos empurra ao solo, são eles que nos lembram todos os dias quem verdadeiramente somos. Eu não revelo meus sonhos a ninguém. Não, para mim não há superstição, sonho é caixa mágica particular de estima incalculável que só abro quando estou trancada, no escuro, sozinha; é preciso proteção com o que carregamos de mais sagrado. Nós, definitivamente não somos o que os outros veem. Somos o que só nós somos capazes de alcançar. Nós somos muito mais o que sonhamos do que aquilo que fazemos. O homem não é um trabalhador comum, pai de família sobrecarregado, o homem é um craque, um artista, um goleador e só ele sabe. A mulher não é a acadêmica frustrada, secretária do escritório de advocacia, ela é rainha, ela samba em cima dos saltos altíssimos, em um biquíni de paêtes dourados e ninguém suspeita. Agora são lembranças, aquilo que um dia foram sonhos, porque deram seu lugar para novos outros. Mas partiram sem dor, sem lamentos, adormeceram diante da realidade, da dureza da vida ou simplesmente porque tornaram-se incompatíveis com as novas descobertas dos seus "pais".

  Ontem à tarde, num domingo de chuva tranquilo, nasceu-me um sonho, bastou viver em mim dois minutos para eu amá-lo e abraçada a ele deixei escorrer algumas lágrimas. Talvez ele se realize, talvez só morra silencioso, mas ainda assim serei sua mãe para sempre. Um filho perdido não é o mesmo que um filho que nunca existiu, não se é ex-mãe; não deixa-se de ser mãe quando um filho morre, torna-se, no máximo, uma mãe órfã de filho. Meu sonho nasceu ontem e desejo a ele tudo aquilo que desejamos aos recém-nascidos: saúde, felicidade e uma vida mais que longa, uma existência plena, enquanto aqui ele viver.

  Meu Quintana querido sabia bem disto, o poeta, menino de alma, foi quem disse: "Uma vida não basta ser vivida. Ela precisa ser sonhada". Não sabe-se onde, quando ou porquê. Mas a cada sonho que nasce traz consigo uma esperança, um sorriso, uma vida de felicidade e mata, ainda que temporariamente, uma realidade infeliz.




4 comentários:

Ana disse...

eu também sou uma sonhadora, dizem que é característica do signo peixes, viver no mundo dos sonhos. acho que fazem falta, a realidade só nua e crua não é fácil de suportar sem um bocadinho de sonho.
beijo

Carla Machado disse...

Minha curiosidade é enorme... que sonho seria esse!!!!!!!!
Beijo, te amo!

Amanda M. disse...

Haha... se realizar certamente você saberá, se morrer,atrás de tantos outros você não chorará por ele...Melhor assim, não? Amiga, também te amo!

Amanda M. disse...

Acho que é típico de peixes sim. Embora eu seja taurina, convivi com um pisciano sonhador dos grandes! Beijo