quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Só a moldura é a mesma, o quadro não

  Mais uma vez na sala de espera do dentista, lugar que realmente adoro. Mais a sala de espera do que a do dentista, é claro. São dezenas de anos frequentando o lugar e suspeito que depois de tanto tempo poucas modificações se fizeram por lá. A sala é pequena e quase sempre minha espera é solitária, pontualíssimo o dentista não faz seus pacientes esperarem demais. Tamanha sua rigidez com os horários, que faço loucuras para não  atrasar-me. Geralmente a minha chegada é desesperada, ofegante, chego suada, descomposta, mas quase sempre sou pontual. Quando não chego cinco minutos mais cedo da hora marcada, para garantir uma passagem, ainda que curta, na sala de espera. Quase sempre anuncio minha chegada tocando a campainha, sento e pego uma revista, faço um ar casual, despreocupado, como se viesse caminhando em nuvens, pego uma revista, a mesma que já peguei há cinco ou seis meses atrás e conto:cinco, quatro, três, dois, um, a assistente do dentista abre a porta cumprimenta-me e pede para eu aguardar "um minutinho", mal sabe ela o que eu fiz por esse "minutinho".

  Agora já sinto-me verdadeiramente tranquila, na salinha branca, sentada no banco de madeira  também pintado de branco, há uns 3 anos ele ainda tinha a cor da madeira natural mesmo; fico perto das revistas antigas de celebridades, de frente para o quadro que resiste na mesma parede há séculos. Não há saída, qualquer um que visitar a saleta será confrontado com o quadro. Pendurado estrategicamente em frente ao único assento da sala, sem TV, sem jornais ou revistas atuais, o único entretenimento que a sala oferece é mesmo o quadro. A saleta é tão pequena que vê-se perfeitamente as pinceladas, como nas obras impressionistas. O vermelho e o amarelo do pôr do sol, fundindo-se em uma estreita linhazinha, depois de algum tempo, percebi inclusive alguns pelos do pincel, cravados na obra e os possíveis defeitos na execução do quadro. A imagem que o artista imprimiu na tela é simples, um clichê das artes: uma canoa rústica de bambus e panos brancos, perto da margem de um mar azul, não há um sol pintando, mas seus reflexos estão lá e são cheios de uma energia muito viva, brilhante. Enquanto o mar acalma, o sol inquienta. Quem teria pintado o quadro? O próprio dentista? Algum amigo ou familiar? Aperto os olhos na enésima tentativa de identificar a assinatura, mas não reconheço. Quanto tempo o quadro está ali? Quanto mais ele permanecerá na sala?

  Dezenas de pessoas viram o mesmo quadro que eu, milhares de horas se passaram e o quadro é o mesmo, ali inerte. Terá tocado alguém? Talvez tenha sido a única testemunha da ángustia de uma pessoa, da fobia de dentista de um outro alguém, da declaração amorosa da moça ao celular, da resolução de um problema, do nascimento de uma ideia. Alguém sentou em frente ao quadro e decidiu-se mudar para o nordeste, abandonar a profissão, ir mais vezes ao dentista, cuidar mais da própria saúde, terminar uma relação. E só o quadro viu.

  A assistente chama, entro descontraída, faceira, sou um clichê, semelhante a canoa da pintura. Em segundos a precisão, a rigidez e a seriedade do dentista, desabam a canoa e a mim. Desoladas, seguimos rumo ao não sei o quê, não sei para onde, nem o porquê. A imagem do quadro não pode consolar-me. Pensava que só o quadro permanecesse ali sempre o mesmo, mas talvez eu também permaneça, na minha fragilidade, dor profunda por algo que nem é tão profundo. Logo eu, tão mudada, tão experiente e amadurecida pelas dores anteriores? Perco a imagem da canoa, esqueço o meu mantra. - Eu não sou forte! As primeiras lágrimas escorrem, o dentista pergunta se sinto dor, digo que não: - É só a sensibilidade à luz. Corria o risco de uma anestesia desnecessária, a medicação jamais cessaria dor ou lágrimas. Logo eu, tão mudada continuo derramando lágrimas inúteis. Tento não chorar mais, lembro da canoa, do quadro, da saleta branca já tão familiar e das dezenas de pacientes do dentista (de cada história que trazem consigo). Todos nós, invariavelmente mudamos sim, as lágrimas de hoje não são as mesmas que prometi não derramar mais. Já chorei por medo, hoje talvez seja cansaço e um pouco de vergonha. O medo há muito não me visita. Mesmo o quadro, nunca é o mesmo. Quando revejo-o, a cada visita uma descoberta, um detalhe novo, uma curiosidade, uma análise. Na obra, talvez só a moldura permaneça. A saleta sofre pequenas mudanças com o passar dos anos, eu, o dentista, sua assistente e os pacientes também se modificam.

  Levanto da cadeira faceira, como quando sentei, retomo o meu ar alegre. Volto ao  meu papel; sou a canoa de bambus tão clichê, aguardando um comando, uma visita, uma ação, algumas vezes em meio ao mar tranquilo, outras no revolto. Com alguma vergonha, algum cansaço da jornada, mas sem medo. Algum dia, talvez, lanço-me sozinha ao mar, a canoa do quadro não terá a mesma sorte, suas transformações são mais sutis, para a arte não há urgência. Só a vida aqui fora é que necessita de pressa.


4 comentários:

Carla Machado disse...

Adoro a palavra faceira, aliás, prefiro inclusive o conjunto: lépida e faceira. Tão bucólica...

Amanda M. disse...

Rs. Não é mais anônima!!!Também adoro a palavra e, principalmente, sentir-me faceira. Os conjunto é mesmo muito bom:lépida e faceira. Beijo

Ana disse...

é essa a beleza da arte, a maneira como nos toca e nos vai tocando de acordo com o nosso estado de espirito e as nossas vivências... eu gostava de ver esse quadro

Amanda M. disse...

Acho que o quadro nem é dos mais belos, Ana. Mas sua beleza escondida encheu-me com tantos pensamentos...acho que por isso vale uma visita. Tentarei uma foto, ainda que não seja a mesma sensação, então eu te mando...