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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Quando não for mais maio


   Quando não for mais medo. Quando não for mais noite. Quando não for mais frio, nem longe, nem impossível. Quando o orgulho não for mais meu, quando você não for mais ocupado. Quando não forem mais os voos atrasados ou a chuva que nos pega de surpresa e deixa o caminho pela metade, atrás de abrigo. Quando não for mais a doença dos pais, o cansaço do trabalho. Quando não for mais: depois que terminar o curso, que conseguir o aumento, mais trabalhos ou quando for promovido.

  Quando não tiver mais horário de verão no Uruguai, quando não for mais tão longe ir ao Japão. Quando não for mais o inglês a língua oficial. Quando o golpe falir, quando me pedir desculpas, porque mesmo já perdoado, espero o pedido. Quando o chuveiro esquentar, quando o bombeiro consertar o vazamento da pia. Quando não formos mais touro com ascendente em câncer e leão com ascendente em áries. Quando os olhos do meu gato não lembrarem mais os seus, quando o cheiro da sua casa não for mais o do meu xampu. Quando não for mais ruim levantar cedo, quando não for mais impossível fazer parar a saudade. Quando a minha linha de metrô for a mesma que a sua, quando as nossas correspondências descansarem juntas na mesma caixa de correio.

   Quando eu não errar mais no doce do café, quando o amargo do chocolate agradar a nós dois. Quando eu não ficar com olhos parados como os da minha avó e você perguntar se estou triste e eu responder que preciso descansar das muitas visões. Quando não tocar mais a música que você disse que queria ter escrito e antes de você dizer, eu sussurrar: - Essa é a música que você queria ter feito. Quando os ladrões não roubarem mais do que a atenção, o afeto, o beijo. Quando não falar a verdade parecer mais elegante e delicado do que ser sincero com cuidado.

  Quando o meu time não for mais para a segunda divisão, quando você não for mais centroavante do time das quartas-feiras; quando eu não souber mais onde você está às quartas-feiras. Quando eu não sair mais atrasada, quando Nova York ficar depois da Avenida Rio Branco; quando Virginia se levantar do Rio Ouse e dizer que foi um engano, quando Leonard segurar de novo a sua mão. Quando os peixes que matamos sem querer se esquecerem da morte, quando não for mais tão caro viver.

  Quando não for mais pressa, terapia uma vez por semana sem faltar e o homem que monta os móveis aos sábados e você não pode sair. Quando, finalmente, aprender o lugar das xícaras, não misturar garfos, colheres e facas em um mesmo lado da gaveta, quando a gente tiver um nome para o filho. Quando não for mais táxi de madrugada, depois da briga. Quando não for mais longe a minha casa ou a sua.

  Quando não for mais preciso anestesia no dente, quando o corte no pé, pelo copo quebrado, não sangrar mais. Quando os orgânicos não forem mais caros, quando dezembro não for mais melancólico, quando as promessas não precisarem mais de assinaturas ou palavras. Quando não for mais preciso o cartório, o papel. Quando não for mais desconfiança, nem necessidade de muita certeza. 

   Se não fosse mais medo, cedo ou tarde demais. Se a gente se esquecesse, de repente, das resoluções distantes. Se a gente adiantasse todos os atrasos e atrasasse as incertezas. Depois de maio, se quando não fosse mais maio, a gente resolvesse que não precisa resolver mais nada antes ou depois de qualquer coisa e que em tudo daremos o jeito, aquele que ainda vamos descobrir. Aí então, maio nunca mais seria só promessa. Quando não for mais maio, quem sabe? Quem?






segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Onde dói?

  O que busca quando sai apressado às 7 da manhã na segunda e nem toma um café antes de fechar a porta, não acaricia os pelos do gato, mas coloca água e comida e abre a porta da varanda para que ele tenha um dia mais liberto que o seu? O que teme quando não olha nos olhos do vizinho com quem compartilha o elevador, são só os dois, por que o medo dos olhos do outro? O que espera quando não fala claramente o que quer e deposita no outro as expectativas que ele mesmo desconhece que você sustenta? O que não pode perder quando corre em linha reta e não aproveita as curvas, quando segue o fluxo e não para para ajudar alguém perdido no acostamento? Por que não para? Por que não desliza, não derrapa, não duvida?

   Que tempo é este que faz com que você consulte os relógios a cada quarto de hora? Você já reparou que os ponteiros e você já andam bem sincronizados? Perceba os seus 15 minutos contados. O que faz com que você perca a paciência com a caixa que oferece o cartão da loja, enquanto você espera pelo débito ou crédito? Por que o vendedor de gás, o entregador do mercado e o síndico que batem no seu apartamento no sábado de manhã te incomodam tanto ao ponto de você não conseguir voltar a dormir? Aliás, por que mesmo é que o sono tem lhe faltado tanto? Consegue sonhar em alguma hora do seu dia? Quando a reunião fica muito enfadonha pensa em quê? O que se passa dentro de você poderia ser publicado? Ou é estúpido demais, egoísta demais ou vazio? Está vazio agora? Não minta. Mesmo que seja um costume muito arraigado, não minta, admita para você. Ouça você.

  O que espera que pensem seus amigos quando desmarca toda semana a cerveja das quintas-feiras? Por que vai tanto à academia se sempre foi o lugar que menos gostou de ir? Por que não come o pão na chapa da padaria da esquina que sempre me pareceu tão bom? Por que ainda dorme com ela se não suporta mais a suas manias, amigas e assuntos? Por que prefere a estranha virtual com quem conversa muitas noites da semana? O que é próximo te intimida ou cansa?

  Que sentido procura no livro que está no banco do seu carro há semanas, do qual só leu as mesmas duas páginas repetidas vezes? Não entende, não avança ou só não sabe o que procura? Se não sabe, só leia. Fará sentido a certa altura, mesmo que você nunca saiba qual. O que faz você deixar escapar seu momento feliz, quando percebe que é sim um momento feliz e você o destrói porque quer guardá-lo, cristalizá-lo e ele voa abandonando-o na sua racionalidade de homem que precisa datar, fotografar, consumir e colecionar?

  O que pretende quando decide amar o provável, desejar o possível e se entreter com mínimo dos outros, se poderia acolher o seu amor improvável, seu destino utópico e deixar-se ser arrebatado pelo mais profundo do outro? Onde não alcança duraria mais, o que não conhece, nem de nome, amaria mais.

  Por onde anda ao meio-dia de domingo, já acordado? Com algum plano que não seja esperar pela segunda-feira? Onde está o gato? Ele é mais livre que você, não é? Sabe o que ele faz, enquanto você passa os dias fora? Não. Não sabe. Seu gato é um completo desconhecido para você, mas você não é para ele, ele lê os seus olhos, ele sabe que quem é cativo é o homem, conhece a sua infelicidade completa e por isso todas as manhãs, enquanto você abre a porta da varanda ele passa mais devagar, oferecendo seu pelo para que você encoste os dedos e se lembre do que é macio e simples, mas você não entende, você não se abaixa e o gato todas as manhãs recolhe sua compaixão para o outro dia.

  Na terça de manhã vai ao médico que marcou há três meses, quase, sente dor? Onde dói? Se o médico perguntar, vai saber responder? Algum lugar específico? O que fará com a dor que não puder apontar? O gato está no seu sofá a esta hora, o gato não vai embora, mas é mais livre que você que abre a porta da varanda para ele todas as manhãs.



quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Ouça o teu hino

  O caminho do sim é uma sucessão de curvas inesperadas, não há como prever quando uma nova aparecerá, nem se será a última ou só mais uma. Nada acaba em um sim. O sim só conhece começos, seu nascimento desencadeia muitos outros a partir dele. É claro que não há esta cláusula explícita em contrato, nenhuma advertência marcada em vermelho, ninguém que se disponha a estar na porta do sim, explicando, detalhadamente, o que a escolha implicará. Não há má-fé, desejo de engano. Só não sabemos calcular o que virá. Ninguém sabe. Nos limitamos ao rompante de um urgente sim e embarcamos na insólita experiência de tomarmos consciência do jogo já no meio dele.

   Ela recebe com sorrisos, são dezenas de pessoas que a solicitam diariamente e ela quase não modifica a expressão. É, em geral, muito atenciosa, solícita, anota os pedidos no seu bloco laranja, mas antes de qualquer consulta mais aprofundada logo diz que é possível, que tem, que não demora. É simpática, acolhedora, não mede esforços para servir não só o que foi pedido, mas oferecer mais, inclusive o que nem tem. Com o tempo se cansa. Começa a sentir muito requisitada, pouco valorizada - porque oferece demais, espera também demasiado -  pressionada, perde o sorriso, a gentileza e, por vezes, ignora hoje, quem ontem entrava por um tapete vermelho, estendido por ela.

  Porque não entende a lógica do sim. Não sabe que há  uma cascata escondida no que só parecia um simples regato. Não sabe que ao abrir a porta e começar o caminho, outras precisarão ser abertas.  Entrelaçado ao seu sim está o  desejo ancestral de todos nós de sermos amados. E por isso, oferece o que não poderá entregar. Promete o que, mais tarde, sugará suas forças e a fará desistir no meio de uma sinuosidade.

 Porque, fundamentalmente,  ela não entende que um irrefletido sim a levará a um lugar que ela precisa estar disposta a permanecer.

  O amor que ela desconhece, ainda, não é feito de primeiras impressões: é capaz de nascer mesmo em um não. Nasce no lugar que acreditamos ser término. Um amor que não cria expectativas, não corrige vocabulário, não sugere mudanças, não escolhe a roupa que o outro vai usar, mas acolhe exatamente aquilo que ele tem e já é. Nada tem a ver com aceitar  migalhas, se resignar com o muito pouco que lhe dão, mas dar liberdade à intensidade e ao jeito da oferta do outro. Sem esperar por aquelas palavras específicas ou o único gesto exato. O amor, este a que me refiro, não desiste nas curvas, porque sabe andar nas surpresas.

  A garçonete de sentimento deveria dar ao mundo, ou a quem desejar, aquilo que toca dentro dela, nem mais, nem menos. Não deveria inventar o que não tem, nem ocultar aquilo do que é feita. Não é possível que a sua música seja só feita de sim. Deveria, antes de qualquer mesa, se ouvir. Primeiro o som sairia baixinho, porque nasce tímido, quase com medo de desagradar, mas ele vai crescendo, logo vai alcançando as notas mais altas e, de repente, nunca mais poderá ser silenciado.

  Então: este é o seu hino. Ouça-o, aceitei-o, receba-o e então, poderá ofertá-lo agora. Sem pressa, sem algemas, sem desespero de amor.






segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ela que não tem para onde ir e que não aprendeu a latir

  Chegou na semana passada, segunda ou terça-feira, não sei bem ao certo, mas desde então, a vida deles tem sido outra. As conversas giram em torno dela, a presença dela é exaustivamente solicitada e, se atendida, muito comemorada. São três que competem pela atenção dela, requisitam-na, conversam com ela - cada um a seu modo - preenchem suas vidas com a existência dela. Suas rotinas parecem se organizar a partir dela, quase fazem uma fila para reivindicar um lugar na sua agenda imaginária .

   Eles são um casal jovem e tem um filho, de nove ou dez anos, os conheci assim: trio, desde o início. E tenho muita dificuldade em imaginá-los uns sem os outros. É uma trinca tão bem costurada, tão ajustada, que eu jurava não haver possibilidade de nenhum outro ser somar-se a eles; parecia não caber, não existir um único espaço para alguém ali, naquela armação. Mas, agora, ela chegou e percebo o quanto a sua ausência era sentida, mesmo que nem soubessem da sua existência. Esperavam-na; ansiosamente os três torceram muito para a sua chegada.

  É pequena ainda, um filhote, pernas compridas, finas e bem pretas, o pelo é um degradê bonito de marrom, mel, bege claro e quase não late a pequena. É bem silenciosa para um cão, quer dizer, para minha ideia do que uma cadela devia ser. Mas suspeito que o espaço que lhe sobra é muito limitado para a comunicação sonora. São muitos braços, apelos, afagos, que nem sei se ela gosta ou tem a possibilidade de pensar se gosta. Porque não lhe falta, talvez nunca saiba se é bom ou ruim.

  Escolheram para ela um nome estrangeiro, americano, eu acho, que na minha primeira mirada achei equivocado: - Não combina com ela!
  Um mesmo nome, que parecem três. Cada pronúncia é única: o menino fala de um jeito mais descolado, quase um estadunidense nativo, a mãe afrancesa o nome, o que para mim soa como o de uma gata de estimação de alguma emergente muito esnobe. Já a pronúncia do pai, para mim, é a melhor. É meio abrasileirada, com um sotaque bem mineiro, meio desajeitado numa língua que talvez não domine e por isso, soa mais autêntica, mais afetuosa.

  Gosto também do tratamento que o homem dá à cadela de estimação. Os outros dois são muito afetados, a mulher é muito cheia de recomendações à nova moradora: - Não pise aí; - Cuidado para não se molhar; - Se afaste do lixo; - Solte o papelão. O menino grita quase o tempo inteiro, sei que é bem o jeito dele falar com todos, mas a cadela é um filhote, imagino que os seus tímpanos caninos ainda estejam pouco preparados para tanto estardalhaço e para aquele desacerto de mãos que a buscam, seguram-na, apertam-na, sem muita noção da força empenhada . O pai não, o pai fala pouco com a cadela, ele é mais de gestos, aponta o jornal para ela fazer suas necessidades, quase não a segura no colo e olha bem dentro dos olhos dela, quando ensina algum novo comando. O pai é um entendedor dos bons, da vida que eu imagino ser a dos cães.

  A casa respira a nova moradora, a casa só fala dela, organizam-se em turnos para manterem-na sob olhos de responsabilidade e amor. Testam novas rações a cada dia, compram brinquedos, planejam casa ampla de cão, que o pai marceneiro fará - o projeto já sofreu, pelo menos, três modificações nos últimos dias. A casa da família é outra, tem mais assunto, parece mais iluminada, com atrativos que fazem seus moradores voltarem para ela mais cedo diariamente. A cadela é a luz de uma família; a cadela encontrou seu espaço no apertado laço que parecia ser impossível de se penetrar. Só a cadela conseguiu.

  Daqui da janela, acho bonita a relação que se constrói, mas tenho muita pena da cadela, que aprendeu tanto desde que chegou, mas que, ao mesmo tempo, se torna mais e mais dependente da família que a acolheu. Dão-lhe toda a comida que ela precisa, antes que ela tenha fome; dão-lhe água e ela quase não conhece a sede; enchem-na de afagos, afetos, braços escorregadios que comprimem as suas costelas. E, ela, que nem sabe latir ainda, esperando pelo pai, o único que não a sufoca.  A família tem sim, muito boas intenções, mas era de uma secura antes dela, uma aridez de falas e gestos, que a vinda de um filhote parece demasiado frágil, especialmente, para a mãe e o filho.

 É que às vezes, a vida muito acostumada nos cansa, a rotina dos dias, mesmo com a paz sonhada, nos faz querer aventura; outros olhos que nos enxerguem; alguém que se surpreenda com a nossa voz, que para os outros é antiga e monótona. Ás vezes, a gente quer ver nos olhos do outro o assombro do inesperado, o medo, a desconfiança, a incerteza daquilo que talvez sejamos capazes de fazer, e nesta crença nós também passamos ser um pouco outros. Ás vezes, a gente tem a necessidade de contar a mesma estória, mas que ela, a partir da escuta de um outro, possa soar inédita. E a cadela, que até outro dia não tinha para onde ir e que talvez tivesse fadada às ruas, caiu numa rede de entrelaçados afetos. Ela que tinha a liberdade como destino, agora é enredada por ausências que parecem não ter fim, carências que para uma cadela tão pequena fica difícil de serem supridas; faltas que ela sozinha não será capaz de carregar.

  Escuto um grunhido baixo, quase sufocado, da varanda ao lado...é a cadela, ensaiando um latido. Quando ela aprender, os três terão que se acostumar à sua voz. O amor então será em quatro vozes. Quem sabe como a trinca, antes tão organizada, receberá a nova voz?



terça-feira, 27 de outubro de 2015

Do outro lado da rua, a solidão que parece, mas não é a sua

- Trocamos cumprimentos. Ela disse.
- Da janela do meu apartamento eu o vejo preparando o café, naquelas maquininhas de expresso, sabe? Escolhendo a roupa, indo para o banho. Ele não usa terno, só calça social e a camisa com a manga dobrada duas vezes. E, depois, vejo-o procurar as chaves de casa e do carro, arrumar a bolsa para o trabalho e fechar a porta do apartamento. E, então, espero ele passar pela portaria, ir até a garagem e, finalmente, partir para o trabalho. Sei quando ele sai atrasado, quando não vai trabalhar de manhã, quando ainda não chegou de viagem. E quando ele viaja, sinto falta da rotina assistida. É, para mim, como uma separação; sofro por não saber dele. Acompanho-o logo que levanto, em jejum ainda e sem banho, porque não poderia perder parte alguma do seu dia, ao menos no apartamento que já conheço tão bem, daqui da minha janela. No início, via-o de relance, quando saía a sua sacada e eu estava na minha, quando ele saía para o trabalho e eu caminhava com o cachorro pelo bairro. Mas, depois, tornei-me, aos poucos, mais atenta, percebia a luz do seu apartamento acesa até tarde, sua toalha sumida do varal portátil, a quinzena de junho com as janelas fechadas, em que provavelmente tirou férias e viajou, as orquídeas que ele trazia quando voltava do trabalho e o gelo cuidadosamente colocado sob os pés das flores, no verão. E assim, sua existência misteriosa, desconhecida foi, gentilmente, povoando a minha; sua solidão seduziu a minha e nunca mais quis ser só, sem a dele do outro lado da rua. Não me sentia mais solitária; não tive mais dores articulares e a compulsão noturna por doces, de repente, me abandonou. Passei a ter mais disposição para a academia, que só vou depois que ele sai para o trabalho; a gostar mais de cozinhar, porque ele também cozinha; a me arriscar mais no corte de cabelo e roupas, porque ele é um homem muito elegante, um tipo contemporâneo; passei até a consumir vinhos com mais frequência, porque sempre vejo-o com uma taça nas mãos depois do trabalho. Assisti-lo, de repente, deixou de ser uma eventualidade para marcar definitivamente a nova vida que se mostrava para mim.

  Constrangida com os detalhes que ela me relatava do desconhecido, sutilmente, quase envergonhada, perguntei: - Mas você se apaixonou por ele, então?

  A pergunta não a intimidou, pelo contrário, deixo-a mais efusiva e brilhante durante a descrição passional. Ela, tão discreta, sempre tão pudica, tão inteligente e já experiente até, tinha decorado os horários dele, conhecia seus gostos mais prosaicos e manias muito íntimas, de não deixar o sapato virado nunca, nem a porta do guarda-roupas aberta antes de se deitar, o número de garrafas de vinho consumidas por semana, quantas vezes a faxineira ia no apartamento dele, as vezes que ele ficou doente, as que não foi ao trabalho, os minutos que ele se atrasava e a ansiedade que ela sentia quando ele chegava mais tarde em casa.  Disse que a proximidade que sentia era encantadora. Não falou de paixão.

  Ao vê-lo assim tão vulnerável, na experiência de um cotidiano bisbilhotado, ela passou a imaginar que talvez fosse partilha e não invasão. Achou-se muito próxima, muito identificada, como se talvez a sua observação tenha preparado-a para, quem sabe, tomar o vinho, cuidar das orquídeas e ajudá-lo quando ficasse de cama. Sabia bem que não era paixão, que ele provavelmente não sabia o nível de intimidade dele que ela havia desvendado e admirado tanto. Mas ele a cumprimentou. Ela disse: - Ele me cumprimentou.
E mais, ela acrescentava: - Ele também já me viu do apartamento dele. Eu sei. É óbvio que quando o vi me observando, peguei um livro, deitei no sofá, fingindo naturalidade. Ele não me viu, como o vejo, mas estou certa que também me espionou e talvez tenha se sentido feliz como eu, quando o acompanho.

  Depois, disse que sentia que precisava tomar a iniciativa de uma apresentação. - Já sei tudo sobre ele, agora ele é quem precisa me conhecer. Falou-me de uma carta escrita e deixada na portaria do prédio dele. Não achei boa a ideia, mas ela não me pedia opinião ou julgamento, só precisava de escuta.
Para ela, bastava um "sim", algum sinal de reciprocidade e a solidão, que ela identificava em ambos, acabaria. Se respondesse a carta, se acenasse para ela enquanto preparava o café, se parasse o carro, se buzinasse, se sorrisse, se passasse mais tempo na sacada de agora em diante, ela saberia que passavam a ser dois. Mas, não vai acontecer.

  Eu sei, porque o outro lado nunca a viu antes da carta, o outro lado, sequer sabia dela até a manhã de hoje ser surpreendido pelo porteiro, com uma correspondência sem selo.

  Ela não sabe que a solidão dele não se soma à sua automaticamente. Porque uma solidão aparente, não necessariamente será curada com aquilo que você deseja ofertar. Não. Não é assim. Não se preenche lacuna de espécie nenhuma quando ela deseja continuar com os seus espaços vazios ou à espera de uma completude muito específica.  Duas solidões distintas continuarão ímpares, assim como duas solidões similares, mas com perspectivas opostas também não se encontrão em ponto algum do universo.

  Ela deixou a carta com o porteiro do prédio do desconhecido, não pude evitar. Corri. Afastei-me dela, da sua tentativa frustrada de felicidade na metrópole cinzenta, do seu final infeliz e, principalmente, dos insucessos nossos de cada dia, das frustrações que cavamos, frequentemente, sem nos darmos conta. Ela é quem escreverá essa história, meu texto acaba aqui. A narrativa já não é mais minha, só as personagens saberão dela  agora. Porque dos destinos de todos nós, a escrita atrapalhada e sem finais felizes também precisa ser treinada.

  Sentada no banco de um ônibus, onde escrevo, um homem, segurando um livro, tenta ler o meu papel. Não, homem, minha solidão, não pode ser sua. Ele se levanta, me pede licença e eu busco a capa do seu livro, gosto do autor, mas não olharei para o homem que descerá no próximo ponto. Não sou de contar as garrafas de vinho alheias.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O que não deu nos jornais

    Foi você lindo, tão filho, tão menino, tão meigo, levando a mãe à casa da tia, segurando a bolsa dela, abrindo as portas, ouvindo cada estória três vezes, mas fazendo cara de surpresa e fingindo ser a primeira  em cada uma delas. Foi você tão sobrinho pequenino,  sentado na sala, debaixo de uma samambaia, iluminado pela luz colorida, vinda de uma varanda de azulejos estampados por flores, entre fotos amareladas de um álbum que já viu tantas vezes e que mal se reconhece, mas gostando muito do que via, tomando um café fraco com todo o açúcar do mundo, cercado de risadas antigas. Paciente, esperando por tudo e por nada, sem buscar o celular ou um copo com outra bebida. E você tão cordial, de olhos muito brilhantes, levando seu pai ao barbeiro, naquele bairro onde você morou quando criança, a navalha do homem velho, desde sempre, ainda risca a nuca do seu pai. E vocês pelo caminho, falando de futebol, dos que ainda têm chance na tabela e de quem disputa a Libertadores ano que vem. Você tio querido, brincando de perder na corrida, errar o caminho e falar errado os nomes das ruas, para ser corrigido pelo adulto de cinco anos, que parece mais severo que a sua professora do ensino fundamental. Você numa dimensão tão simples e, ao mesmo tempo, tão extraordinária, devolvendo a felicidade comezinha aos que sempre o sustentaram em afeto e acolhimento.

  Foi você tão cheia de paz, circulando pelas ruas do Centro, sem pressa, sem medo, livre de tramas, desapegada dos traumas, de moletom cinza, cabelo num coque no alto da cabeça, alguns fios soltos, sem spray, nem grampos, personificando a liberdade da dona. Você, sem batom, sem academia, sem propósito de sedução barata, conquistando pelos sorrisos sinceros, gargalhadas com corpo inteiro, sem censura. Você, humilde, aprendendo com os mais experientes; você esperta, entendendo um pouco de tudo e compartilhando com a pessoa ao lado, da fila, do banco do ônibus, da carrocinha de churros. Você tão intrinsecamente  independente, escolhendo a coletividade como um lugar preferido, para aplacar ausências, as suas e, mais ainda, as deles. Você, bela sem saber, inteligente e sensível sem ser esnobe, você, uma poetisa da rua de cima, de aura lilás. Você, meio Madalena, meio Madonna.

  Você, cara amassada, depois de uma madrugada  inteira e meia manhã dormidas, bem humorado, faminto, invadido a geladeira, deixando a TV ligada para o nada, ouvindo a conversa do apartamento ao lado. Fazendo as torradas, esquentando o leite e cantando a música da propaganda que passa agora. Olhando para  a torre da igreja,  do basculante da cozinha e fazendo uma oração, aprendida na infância; meio decorada, meio improvisada; mas toda em fé. Você, sentando na pia da cozinha, olhando para o número que salvou no celular a noite passada, pensando se liga ou manda mensagem, se fala um "oi" ou é mais ousado. Lembrando da boca tão vermelha, tão falante, tão seu sonho de adolescente; do cabelo macio, com cheiro de xampu cítrico e do cigarro, ambos  em harmonia, complementares, você pensou.

  Você, tão sem dieta, nem treino, sem carro do ano, sem convites para o réveillon, sem reservas num restaurante para o final de semana, sem cartas marcadas, ausente de jogo. Você, socializando livros, casacos, guarda chuvas, músicas e ideias. Você, sem nenhuma torcida organizada, correndo em último lugar, talvez, azarão da rodada. Você, sem freios, combustível acabando, ar-condicionado com defeito, abrindo as janelas, se refrescando ao natural. Você, sedento de gente, de bicho, de conhecimento; rejeitando poses, carnes que sangram e informação fraudulenta. Você, arquiteto infantil, construindo miniaturas de prédios, praças, monumentos, organizando cidades em maquetes, com gente de plástico, que só você entenderá.

  Eu hoje abri os jornais e não li nada sobre você, não vi uma foto, nenhum artigo ou nota  a seu respeito. Não soube o que fez hoje, nem um pouco sobre a sua biografia, não mencionaram o passeio com a mãe, a visita à tia, sua ida ao barbeiro com o pai, nem o passeio com o sobrinho. Não vi nada sobre sua desordem no Centro, nem uma imagem sua sem maquiagem, de roupa velha. Ninguém falou da sua refeição matinal, nem sobre o jeito que acorda. Não disseram da sua coragem em não ostentar nada, não comercializar nada, nem da sua construção em papelão recortado. Não falaram de você, como fazem sempre, porque você é grande demais para um jornal ordinário. Mas amanhã, depois e pela vida toda, o que você faz e não publicam sempre irá me interessar muito mais.


terça-feira, 13 de outubro de 2015

A dona da chama

  Eu podia não ter visto, podia nunca ter notado ou, ainda que soubesse, ignorado, mas os acontecimentos, os detalhes, os segundos planos, os lugares que os nossos olhos passeiam não obedecem à vontade, estão muito mais submetidos a uma necessidade nossa, mesmo quando não sabemos delas. Eu a vi e tenho acompanhado a sua missão, vivido um pouco das suas noites insones e partilhado, ainda que ninguém saiba, do seu ritual particular.
 
  Começou há  quatro noites passadas, quando uma luz mínima entrou pela janela do meu quarto, era tão pequena, tão pouco perceptível, que eu nem, ao menos, tive a curiosidade de procurar a sua origem, não fechei a pequena fresta da cortina, nem esperei que se apagasse; só dormi. Na noite seguinte, a luz de novo entrava no quarto e pensei que talvez fosse a lâmpada da rua acesa ou de algum vizinho, alguns minutos deitada, somente supondo. A luz não me incomodava, não atrapalhava meu sono, nem me revelava o que eu desejava esconder, quando apagava a luz do meu quarto, mas me chamava, acho. Como se ao não procurá-la eu perdesse algo muito valioso. E por isso, levantei, abri a cortina e busquei o lugar de onde o  fio de luz partia.

  Era tão delicada, tão pouco evidente que eu demorei algum tempo para entender a morada da luz que me solicitava. Do outro lado da rua, da casa que eu só conheço o cachorro, a piscina cercada por um muro de azulejos transparentes e o repertório musical das festas no final de semana, pela primeira vez, eu vi um dos seus moradores. E a luz que entrava no meu quarto foi o que me despertou para a existência da mulher da minha rua. Vi o seu perfil alaranjado pela chama de uma vela, é morena de cabelos na altura dos ombros,  parecia vestir uma camiseta de dormir e estava em frente a luz que me buscou na cama. Silenciosa, eu acho - porque não vi os seus lábios mexerem - ela cuidava da chama de uma vela. No escuro do meu quarto eu a observei por algum tempo, pensei sobre os motivos da manutenção do fogo, das intenções que fazia e até da fé que a mantinha em frente a vela. A luz que me chamou, a desconhecida que eu acabava de tomar conhecimento da sua existência, o fogo que me surpreendia e, finalmente, a  cena que me enternecia adiaram mais o meu  o sono e demorei muito a abandonar meu posto de espiã. 

  Nas duas noites seguintes a pequena chama veio me visitar, ela está aqui dentro agora, e tenho visto o mesmo perfil, que às vezes se põe de frente, mas nunca me vê e que persistente olha para a chama pequena, como se dela uma vida inteira dependesse. Não sei explicar o porquê, mas a vela acesa nas últimas noites, na casa de uma desconhecida, tem me dado tanto, tem me confortado mais do que todas as luzes acesas da cidade, se elas de repente, se iluminassem para mim.

  Não sei por quem ou o porquê, a mulher cuida da chama, se dedica tantas horas a mantê-la acesa e colore tão melancolicamente o seu perfil, durante as últimas noites. Seu cão me diria se pudesse. Às vezes, penso que talvez seja  por um familiar doente ou por ela mesma, acometida por alguma enfermidade, talvez uma dúvida ou dívida, quem sabe? Depois, menos grave, penso em alguma prova difícil que algum dos filhos fará. Minha mãe acendia velas quando fazíamos provas na escola. Quando minha irmã fazia faculdade em outra cidade, ligava para ela para pedir que acendesse velas em quase todos os finais de semestre. Tantas vezes a vela da minha mãe me deu coragem para, ao menos, comparecer à escola, sabendo que o ano era perdido, que eu não conhecia absolutamente nada da matéria e nem mesmo tinha estudado. Não era fé na religião, nas intenções ou qualquer coisa de místico, a vela da minha mãe acesa em cima da geladeira azul era a sua crença em mim, não era o fogo, era o amor que me encorajava a tentar, mesmo que o fracasso fosse inevitável.

  Agora, nas últimas noites, a chama de uma vela tão longe, de uma desconhecida, cumpre o mesmo papel da chama da vela que brilhou tanto na minha casa: despertar uma fé, confortar um medo, iluminar o caminho escuro e tortuoso que é o da tentativa sem sucesso, das falhas já sabidas desde a partida; mas a estrada precisa ser cumprida, o fogo diz. A luz de uma vela que não se apaga, os olhos vidrados na chama e o perfil alaranjado de uma mulher insone me ensinam que a confiança e a fé em alguém, é o que de mais bonito o amor concede. Que a vela dela seja tão duradoura quanto a da minha infância. Que a oração dela seja ouvida aqui, mais do que em qualquer outro lugar e que as suas intenções de pedido, graça ou agradecimento sejam atendidas na mesma medida da sua dedicação ritualizada. Eu hoje, não dormirei antes do sol sair, ficarei em vigília com ela, sem ao menos saber ao que pedir ou agradecer; meus olhos serão do fogo que a mulher da minha rua sustenta tão fervorosamente. 

  Eu poderia jamais saber da mulher do outro lado da rua, poderia não ter permitido que a fina chama da sua vela perturbasse minhas noites, poderia não lembrar da minha mãe e da geladeira azul da minha infância, poderia não me deixar atravessar por uma cena na primeira vez que a vi, nem voltar outras noites a uma casa sem convite dos donos, mas como já disse, não é escolha, é necessidade tantas vezes obscura. Uma chama sutil cruzou meu quarto e entrou na minha alma, que buscava luz na madrugada; agora eu não ando mais no escuro. Não nas últimas quatro noites. 



domingo, 20 de setembro de 2015

Entre brejo e nascente

  Ser constante e ao mesmo tempo intermitente; frequentar o superficial, mas também saber escorrer aos subsolos mais sedentos. Recolher-se às paragens, quando seguir solicitar mais forças do que as guardadas, recuperar-se em açudes calmos, até os ânimos voltarem e permitirem o correr solto pelos caminhos intranquilos, perigosos, trajetórias livres de previsibilidade. Passear pelas zonas temperadas ou tropicais, mas não permitir qualquer vínculo que aprisione.

  Ser água e ultrapassar obstáculos sem alarde, quando possível. Ser água e levar embora o que não tem mais serventia, senão atrapalhar o semear de um futuro. Apagar labaredas ensandecidas. Transportar objetos, pessoas, seres que precisam ganhar novos espaços; ser condutora, propulsora, ponte de encontros entre dois separados que se necessitam e terminado o trabalho, seguir sem retorno. Empurrar, arrastar ou segurar, quando o tempo ainda não for para saída.

  Transpor barreiras, ora delicadamente, gota por gota; ora impetuosa: destruir, romper e conquistar por força desumana. Nunca voltar atrás; ter seu tempo em cada lugar, sem repetição ou segundo olhar. Esvaziar-se completamente na prosperidade e aprender a ser completa quando estiver cercada de miséria . Não esbarrar sem propósito, ser obstinada e, num mesmo tempo, inútil. Ser só água. Sem para, onde, quanto, quando e como. Água.

  Integrar-se  aos sentimentos,  afogar mágoas, arrefecer iras, espalhar partículas que se querem muito agregadas e que por isso, barram os desejos de circulação, transportar sinais até  sucumbir aos olhos em forma de líquido marítimo. Ser água e cair como dádiva nas relações ressecadas pelo descuido do tempo, exposição ao calor intenso, esquecimento sob sol implacável.

  Ser água e jamais permanecer muito tempo numa mesma forma; mas ultrapassar estados. Congelar-se sob temperaturas muito baixas e passar ao tempo de ser  sólido, duro, experimentar o toque, o exercício da submissão ao que tem mais força; deixar os dedos experimentarem o gélido. Ser fluida e passar pelos caminhos de jeito suave, líquida, aplacar todas as sedes. Aprender a ser leve quando o ar for abrasador e evaporar-se, não ser mais visível, mas ainda assim estar plena, ser água ainda.

  Frequentar os brejos cinzentos, enlamear-se, viver com e pelo barro e, assim,  alimentar outra espécie viva. Ultrapassar os caminhos escuros, abandonar o brejo, o odor fétido e seguir rumo à purificação, deixar rastros de elementos, de composição, de outras fontes e buscar o começo de tudo - mesmo sabendo que o início é sempre outro e nunca aquele de onde veio - voltar a ser nascente.

  Fluida, dura, leve, implacável, suave, arrasadora ou delicada. Ser múltipla e uma só.  Aprender a continuar depois de cada curva, não morrer nunca, mas transformar-se noutros estados, quando não houver jeito de continuação. Seguir ao fim e ultrapassá-lo,  para ser início e correr de novo outros riscos que nunca terminam. Ser água e aceitar o destino da passagem.




sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Fadada às asas

  Vê-se que pensa em algo, enquanto olha para fora. Talvez não saia porque chove, talvez pense que não há o que fazer agora na rua molhada ou até, para sempre, mesmo quando a rua estiver já seca não virá. Ela é uma senhora com alguma dificuldade de locomoção e divide a casa com uma irmã. De início, confundia as duas, porque estavam sempre juntas, moravam na mesma casa e se pareciam bastante. Mas, hoje, reconheço-as, percebo as diferenças sutis que demarcam suas identidades e pela mulher que vive a espreita na janela sinto uma afinidade profunda e singular; mesmo que a cada dia mais, seu contato com o mundo fique restrito às janelas de grades cinzas.

  Os olhos pretos brilhantes sorriem mais que os lábios, que parecem se alegrar com atraso, mas nada de sorrisos rasgados e muito aparentes; alegria discreta e muito juvenil, ainda, felicidade de descoberta. Encontrava-a, ela sempre junto da irmã, muitas vezes pela rua, ambas ativas, ela sempre na frente, cuidadosa com a mulher que parecia mais frágil. Depois, passei a ver a sua irmã sozinha nas idas à padaria, ao supermercado ou à loteria. Enquanto ela permanecia no jardim da casa ou na calçada, tomando sol, com uma bengala caída ao lado. Mas nos últimos encontros, vejo-a de espectadora da vida tediosa desta rua. Os olhos ainda brilham, mas a descoberta parece não ser mais uma missão, envelheceu dez anos, minha vizinha, nas últimas semanas.

  Penso se terá perdido a mobilidade, antes do encanto pelas novidades possíveis ou se foi o contrário, que aconteceu com ela: primeiro os olhos se aquietaram com o mundo e só depois,  as pernas é que cismaram com o sossego. Ambos me parecem demasiado melancólicos, mas o segundo, me desinquieta bem mais.  Porque não acho que é escolha nossa a paz ou o desassossego, penso que nascemos mais para um ou para outro. No caso dela, a placidez é forçada, a mansidão é condição fabricada, nos olhos pretos vejo mais luta em permanecer do que entrega em continuar a ser o que sempre foi.

  Porque liberdade, acho, não é opção que caiba sim ou não, é condição que segue desgovernada numa  ladeira inclinada. Quando nos damos conta do desvario, saltamos numa corrida sem planejamento, sem cálculo antecipado, em busca de uma possibilidade de salvamento, na luta desesperada de retomarmos o seu controle, que na verdade, nunca esteve sob tutela nossa. Mas corremos, corremos muito, como um menino atrás da bola que já é perdida na partida, sem esperança, sem possibilidade alguma de recuperação, numa peleja redentora em si; sem, ao menos, um toque de despedida na bola que segue infinita pela ladeira.

  Então, mesmo que as janelas se mantenham abertas, sucessivas vezes há a recusa em  olhar para fora. Ou porque parece confortável estar dentro ou porque acende a desconfiança de que talvez não seja nosso o que está depois do batente das vidraças. Então, talvez fosse melhor  fechar os olhos e se confortar com o que está a mão ou não querer o que não sabe se pode, deve ou ainda é possível de conquista. Isto é a dor de destinos livres que se fazem cativos; por escolha.

  Mas, há coisas, como a fatalidade de ser livre, que nos escapam ao impedimento ou direção. Não porque perdemos o seu domínio, de repente, mas porque nunca o tivemos mesmo seguro nas mãos. A alma desses olhos pretos, cerceados pelas grades cinzas, é livre, é curiosa, desassossegada, barulhenta e viva; eu sei. E parece lutar muito para obedecer às pernas, que não acompanham a mobilidade do seu espírito desgarrado. 

  Talvez ela não saia, porque tem chovido muito nestes últimos dias ou talvez saia mais do que eu possa ver e siga respeitando as viagens que a sua alma engendra. Um pássaro fora da gaiola só não voa se não quiser. E isto também faz parte da sua condição, escolher o voo. Porque as asas sempre estarão lá. Este é o fardo de um pássaro livre: saber que tem  asas. 



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Nós, os sobreviventes de nós

  Atravessar uma rua não dói, abrir uma porta e dar o primeiro passo, desviar de um obstáculo e seguir, mudar a rota, o rumo, abandonar o conhecido  também não, se a experiência é diária e habitual. Se conhece a cidade e as leis de trânsito, mais simples parece. Mas a primeira vez que alguém precisa atravessar sozinho uma rua, especialmente se não é a sua própria, sem os olhos, as palavras ou as mãos de alguém em quem se confia, é um desafio grandioso. É ter atrás de si uma multidão desorganizada de medos e, perdida, no meio da horda ameaçadora, uma certeza solitária de que o enfrentamento é o único caminho.

  Do outro lado da rua, em frente a entrada da escola, um menino com uma mochila marinho sofre, possivelmente, com essas vozes embaralhadas que o perseguem e, ainda, com a impaciência de um irmão mais velho, pouco maior que ele. O último sinal bateu há dois minutos e ele é incapaz, ao menos agora, de dar o passo que ele sabe que precisa; suas pernas vacilam e não obedecem a um compromisso, ficam entregues ao medo, à desconfiança, ao desejo de permanecer do lado seguro da rua.  É a metade de um ano letivo e o começo dele noutra escola. Aguardo mais alguns minutos na esperança da situação ser resolvida no âmbito familiar. Mas a funcionária da escola  fechou os outros dois portões e já está no final do corredor, se preparando para fechar a possibilidade do menino amadurecer. Corro e atravesso a rua. Uma mulher mais velha se juntou à dupla, tia dos meninos, soube depois. E com bem menos tempo e paciência que o menino maior, segura no braço fino do menino de mochila marinho desgastada e cobra coragem, compromisso, fala como se ambos tivessem as mesmas referências, como se o caminho desviante já fosse uma possibilidade conhecida também para ele. 

  Já nem pensa mais sobre o que diz; basta soltar as palavras assim mesmo: tortas, inacabadas, soltas. Não pensa que elas ganham vida quando saem de si, que farão reflexos, ecoarão em algum lugar desabitado, necessitado de algo que o preencha. E, então elas, as malfadadas, mal calculadas as dispensáveis palavras atravessarão um deserto inteiro para se abrigarem num lugar que merecia candura, beleza, conforto.

  Mais próxima do grupo, escuto o choro baixinho do menino, apresento-me. Do outro lado da rua, a funcionária ainda me espera antes de fechar o portão, aceno para ela e seguro a mão gelada de um menino de oito anos. Ele não me conhece, mas exausto, sem alternativas  se entrega. Atravessamos o sinal, sorrio e ele limpa as lágrimas, digo que ele vai gostar muito da nova escola, que é linda e que logo se acostuma. Entramos juntos e ele não olha para trás, não se arrisca à desistência, nem a um último pedido de um condenado. Escutamos o som definitivo do cadeado no último portão, seguimos juntos pelo corredor, escuto sua respiração ofegante e pelas mãos quase sinto seu coração atropelado pelo medo.

  Atravessar um deserto por meses ou uma ponte em segundos, tantas vezes, faz a mesma revolução, leva-nos a um encontro essencial daquilo que somos com aquilo que escolhemos ser. Já não há razão para ficar aqui, senão a aparente segurança. Às vezes o que custa é o entendimento da precisão da travessia.

  Seguimos no corredor ordinário de uma escola. Nasci para atravessar um menino; cumpro com a vocação que não desconfiava  ser minha. Nós que sobrevivemos a nós, nós que ultrapassamos os nossos medos todos os dias, nós que resistimos à aridez no deserto e a insegurança de uma ponte improvisada, nós que desobedecemos as vozes que nos impelem à permanência e nos entregamos a travessia turva merecemos conhecer o outro lado. No fim do corredor, o colorido das paredes, a recepção calorosa de uma jovem professora, agora ele parece mais tranquilo e eu o deixo com a sua batalha; procurarei por ele no recreio e na saída o observarei de longe. Nós, que sobrevivemos, temos o dever de velar por aqueles que começam a viagem.




terça-feira, 21 de julho de 2015

No que não se espera

  Ele se afasta da caixa de papelão, mas não muito, fica no lugar onde acha que um arremesso será capaz de alcançá-la. Não tem mais de seis anos e tem uma concentração extraordinária, não se distrai com os sucessivos conselhos de alguém que insiste que ele chegue mais a frente, mas contraria, se afasta mais, o que deixa o seu interlocutor irritado, bufando e derrotado. Com uma bola barata de supermercado, muito maior que as mãos dele, ele aperta os olhos, e por isso franze sutilmente o cenho delicado, dobra os joelhos, suspira e arremessa a bola como um profissional. Inicia suas tentativas cerca de dez ou doze passos da caixa. A primeira bola investida fica pelo caminho, não chega nem perto, um motivo a mais para que seu conselheiro volte a insistir que ele se aproxime. O menino abre mão somente de dois passos e se aproxima, joga a bola com  mais força, mas ela voa torta e passa novamente longe da sua cesta inventada. A cada erro, e são muitos pela tarde, ele insiste mais e parece mais concentrado.  

  Insiste  nos trejeitos imitados de algum atleta que assistiu na TV, insiste nas estratégias que ele mesmo criou para colocar em prática o seu plano de acertar a bola na caixa,  insiste em ignorar o homem que vez ou outra se levanta e tenta tirar dele a bola, mas ele grita, ameaça uma cena e o homem se enrubesce, com as outras crianças e seus pais que testemunham a obstinação do pequeno atleta, e volta a se sentar. Depois uma dezena de tentativas frustradas, de uma dúzia de torcedores conquistados, o obstinado abandona a bola,  ignora a cesta e corre para o balanço. Não teve sequer um acerto, mas não se importou mais, foi buscar alegria noutra coisa, sem o peso da necessidade do acerto. Planejamos muito, passamos muito tempo articulando caminhos que ou não chegam a se concretizar ou são muito diferentes quando acontecem. Insistimos demais em trajetórias que simplesmente não nos pertencem, se não para sempre, ao menos, por agora. Traçamos, com uma racionalidade muito ingênua e crédula em si, trajetos para objetos e histórias que são ampliadas demais para caberem num só plano. Olhamos demasiado para o outro lado de uma margem, quando tantas vezes é nesta mesma que está o que buscamos. Perdemos o tempo dos encontros que temos, subestimamos o valor das relações que estabelecemos - curtas, longas, passageiras ou contínuas - em troca de uma ideia de caminho, de unidade, de alegria única.  O desencontro entre aquilo que planejamos e aquilo que realmente nos encontra é onde a vida pode e deve acontecer.  

  Porque a vida, de fato, acontece naquilo que não é planejado. Os planos, as listas feitas a cada final de ano, os sonhos desenhados no papel e as expectativas  nutridas a colheradas nos sustentam, ajudam a nos mantermos mais dispostos a cada manhã, mas é o inesperado que nos leva a algum lugar. Não até aquele que desejamos no início, mas até o lugar que a nossa infinidade de passos involuntários foi capaz de alcançar. O que tantas vezes parece fracasso, desobediência do destino aos nossos planos é mais uma possibilidade nova de conhecermos a felicidade fora da lista, é mais um regalo do universo e um ensinamento poderoso de humildade, generosidade e aceitação plena das surpresas que não caberiam nos nossos planos da partida.

  O menino no balanço não tem o compromisso do acerto, do arremesso final, tampouco de um fruto colhido pela insistência. No balanço, ele deixa os cachinhos castanhos ao vento, encontra uma companhia tão sorridente quanto ele no balanço ao lado e na brincadeira nova reencontra a alegria da antiga. Ele há de se cansar do balanço e partir para outra felicidade daqui a alguns minutos, vai se encantar com um cachorro, uma folha caída no chão ou com qualquer outro tesouro disponível na praça. O certo é que se da caixa de papelão ele queria distância, da felicidade ele se mantém muito próximo. 

  O homem que o acompanha, esquece um pouco da obrigação de observá-lo, segura a bola, aponta para a caixa e acerta a cesta; ele, ainda, estica os braços e comemora sozinho e com muita discrição o que planejou, pensando ser para o garoto, mas que sempre pertenceu a si. No que não se espera é onde certamente nos encontramos com quem somos e nem sabemos. Dois homens e suas escolhas na praça, numa tarde de segunda, só reforçam que nem tempo, planos, maturidade ou decisão são capazes de nos levar até a outra margem, se o que nos pertence vive deste mesmo lado ou noutro rio distante. Tantas vezes é melhor soltar o corpo e deixarmos que a mão da provisoriedade nos oriente ou, pelo menos, nos embale. Feito isto, é aproveitar a viagem e nos mantermos atentos aos encontros.



sábado, 13 de junho de 2015

Outra coisa que não seja esse amor da banca de revista

  Numa ruazinha curta no centro da cidade tem um "vento encanado"; eu descobri. Só entendi o que significava a expressão popular, no dia em que eu percebi o próprio fenômeno. Há coisas, muitas na vida, que só entendemos depois de conhecermos; a palavra acaba por explicar depois, porque é o vivido que preenche-a de sentido. Primeiro o sentimento, a sensação, depois o verbo.

  Levei quase um ano para ter certeza de que era mesmo um vento encanado permanente, passava pela  rua duas vezes ao dia, para estar certa da peculiaridade. Talvez outros demorassem menos, bem menos, mas acabo sempre errando mais pelo excesso do que pela falta; não dei chance para os chutes, minha pesquisa minuciosa rendeu-me segurança ao declarar que a curta rua no centro tem algum tipo de fenômeno climático. Isto foi tudo, mas o bastante para o meu olhar investigador. Saber o porquê, como ou se havia algum registro nos órgãos de clima da cidade não me interessaram. Dei-me por satisfeita apenas pelo entendimento da expressão. Passei pela mesma rua hoje e o vento ainda estava lá.

  No final da ruazinha,  numa banca de revistas, os detestáveis cinco passos para entrar em forma, os dez passos para conquistar um homem e os vinte passos para ter uma carreira de sucesso - para a boa forma o caminho é o mais curto, só não sei se o mais suave ou recompensador. Em promoção, um livro de alguma autora americana assegurava a solitários ou insatisfeitos o caminho para o "amor perfeito", em destaque na capa, a informação de que o receituário tinha o respaldo de uma pesquisa inglesa. O livro da banca tem mais ciência do que o meu vento encanado. Mas não o comprei, não me rendi. Prefiro conhecer a palavra depois da sensação. Ou, provavelmente, desconhecerei por completo tal caminho. Não quero o amor do livro da banca de jornais.

  A perfeição aprisiona, angustia, deixa-nos desconfortáveis,  receosos  de bagunçar a arrumação. Perfeição é consultório médico e não a casa para qual gostamos de voltar; é o penteado cheio de laquê, que não permite ao vento dançar com os cabelos; é a pia sem louça suja a qual respeitamos tanto que adiamos o copo de água, o chá, a taça de vinho só para não macular a perfeição. É a roupa limpa da criança que volta de qualquer lugar (escola, parque, sítio do avô), pois não há diversão infantil sem marcas, nódoas ou rasgos acidentais; a perfeição cheira a amaciante, em roupa recém lavada é até bom, mas, por muito tempo, enjoa. 

  Especialista em ventos numa só rua da cidade e não em amores perfeitos, escrevo o caminho dos amores possíveis, daqueles que atravessam as muitas ruas da cidade, sem ciência inglesa ou publicação alguma. Um tipo de afeto que não tenta  roubar do outro nenhuma liberdade, nem aprisione a quem amamos à ideia que fazemos dele, mas que consiga nos fazer deixar de olhar para, finalmente, enxergar o que ninguém mais pode. Que as  palavras do outro não precisem ser as últimas ou as primeiras do dia, nem sejam necessárias, definitivas ou públicas, mas sejam elas que  nos façam sorrir e gostar mais de ouvir a voz dele. Que ensine a gente a ser eterno e infinito num dia só, sem esperança de durar muito no tempo dos relógios. Que não nos leve ao encontro do que  exatamente esperamos, mas a outra coisa, o que  nem sonhávamos que existisse. Afeto esse que ainda que alma viva em chamas, ninguém desconfie do que eles têm ou são; mas que é discreto aos olhos dos outros e arrebatador aos deles próprios.

  Amor possível é o dos programas desmarcados em cima da hora, do atraso, da comunicação desajustada, dos sucessivos mal entendidos, da sensação de invasão de privacidade, de acusações injustas e desculpas sentidas, da confusão, do engano, do ciúme despropositado e da reconciliação necessária. Da falta de jeito, mas nunca da falta de afeto; da espera acompanhada pela água no fogão para o café, porque, afinal, tem louça suja na pia da cozinha. É o do olhar investigativo que nem sabe o que procura, mas não desiste, segue atento e, que só depois de algum tempo tem o entendimento da palavra que ele agora sabe que nunca havia compreendido, de fato, antes.

  O livro do amor perfeito que não li, não há de me fazer falta, nem os passos das revistas que nunca estiveram sincronizados aos meus. Que os amores perfeitos sejam um tipo de livro que se acabem na própria capa. Não há ciência que explique o que antes precisa ser sentido, sem perfeição, de preferência.



domingo, 7 de junho de 2015

A mulher da ilha

  Não se lembrava de como havia chegado, se por acidente, por nascimento ou pelo dois. Era sozinha numa ilha inteira, aprendeu a se relacionar com os espaços vazios, com a alma quase deserta, com a natureza imposta: solitária no meio de extraordinária beleza. Era consciente da maldição e dádiva recebidas. Não sentia falta de quase nada que era fora dali, porque aquilo era tudo o que conhecia.

  Aprendeu a entender o ciclo das águas, as fases da lua, a imprevisibilidade dos céus e a constância da vida animal: que nasciam, cresciam, procriavam e morriam. Entendia se lutavam por território, se buscavam comida, abrigo ou algum tipo de interação. Compreendia o animal, o vegetal e o mineral. E mesmo que partilhasse a ilha com uma infinidade de habitantes, acabava por se sentir incomunicável. Os gestos dela, os olhos dela, os afagos dela, vez ou outra, obtinham resposta. Mas e as palavras dela? Essas voltavam a ela como saiam.

  Um dia sentiu demasiada falta de outra palavra; alguma que não fosse a dela. Queria conhecer vozes, ouvir de outras almas algo que ela pudesse reconhecer. Os pássaros tinham sua comunicação própria, os peixes tinham alguma linguagem comum, os lagartos se interpelavam entre arbustos, as abelhas tinham a comunicação entre as suas iguais, os leões tinham quem os escutasse,  assim como os tigres, os camaleões e as centopeias. E  se alguém respondesse? E se fora da ilha alguém a compreendesse? Sonhava com o dia da resposta.

  Dia após dia, catava os cacos que seus únicos recursos se tornavam; um cantil muito antigo, um mulambo que parecia uma espécie de bolsa e a pior das suas misérias, a esperança de ser encontrada.  E se não vista, ao menos, ouvida por alguém, mesmo que continuasse sua sina na ilha, mesmo que fosse esquecida em minutos; teria sabido que a sua voz não era em vão, não era fraca, nem pouca. Existia e podia ser ouvida.

  Começou por ampliar o som da sua voz, não sussurrava mais, nem  pouparia o diafragma ou pulmões. Subia todos os dias no lugar mais alto da ilha e gritava por horas, só silenciava enquanto esperava alguma resposta. Embora estivesse empenhada no início, aos poucos, se sentia comprometida com a tarefa e amargurada pelas tentativas sem sucesso. Gritava o que sabia, as palavras que conhecia de um vocabulário muito limitado pelo isolamento remoto. As respostas eram instantâneas e idênticas as suas iniciativas. Na ilha, sua voz voltava em eco. Odiava o vazio da sua condição, a penúria de receber apenas exatamente aquilo que ofertava.

  Depois de sucessivas subidas nas montanhas mais escarpadas da ilha, pulmões sugados, desgastes de sentimentos e força dos músculos mais interiores, finalmente, pode ouvir o que não era ela.  A mulher na ilha perturbada pela outra voz que a respondia.

  - Não sou mais eco. Estou salva.

  Os gritos treinados, a tentativa de escapar a um destino desabitado, a voz exposta ao seu limite. Um dia, a resposta chega, a comunicação se estabelece e não saberemos o que fazer com cada coisa a qual não nos habituamos. Na urgência de resolução, nos calamos, abrimos mão de sermos correspondidos e abandonamos a maratona antes do pódio.  

  A mulher na ilha chorou, chorou até embargar a voz  e estar impossibilitada de resposta. Calou-se pela surpresa, pelo alumbramento da realização de um desejo tão acalentado; calou-se também por medo e por não saber o que fazer com aquilo que ouvia e pela possibilidade do resgate, agora, tão as suas mãos. Muda, dormiu com a tranquilidade de alguém que não é mais só.

  Ao acordar, deu-se conta da solidão, agora, voluntária. Não queria ser ilha, mas aceitou seu destino-solidão e, desde então, vive aos sussurros na ilhota do Pacífico. Todos os dias, no final da tarde, olha para o penhasco onde gritava e promete que um dia voltará. Entre um cantil descascado, restos de uma bolsa de viagem, o conforto de saber que sua voz é conhecida e o medo de ser salva, uma mulher vive numa ilha.  Temendo, numa mesma medida: o desamparo da solidão e a promessa do encontro.



sexta-feira, 5 de junho de 2015

Os pés que não são deles

   Vejo-a solitária, atrapalhada com as sacolas do supermercado atravessando a rua. O semáforo que não fecha especialmente pela sua passagem. Não devia estar aqui. O lugar dela vai muito à frente deste, ela sempre foi melhor que isto, que todos nós, ordinários, impuros, derrotados. Ela sempre esteve rodeada de outros, sempre comandou algum bando, capitaneou explorações invejáveis. As mãos não deviam estar segurando sacolas de plástico e o pés não deviam tocar o asfalto imundo da cidade. Ela que sempre foi tão maior, tão superior, agora, está de volta pelo medo que não pode controlar. Parece feliz, parece saudável, mas também tão comum, tão igual às mulheres que frequentam a sessão de limpeza do supermercado. Na sacola dela o mesmo detergente da promoção que eu carrego. Pela primeira vez nossos olhos se encontram numa mesma altura. Ela me cumprimenta, eu respondo, comum, igual, finjo que não há surpresa.

  Chamam-na de desistente; dizem que desperdiçou  talento e a chance, que se entregou à covardia, escolheu a pequenez da vida modesta. Falam do absurdo da sua entrega. Por segundos tenho os olhos dela nos meus e não encontro sinal de fraqueza. Pelo contrário.

  A dor dos outros tem mais remédios que a nossa; para a confusão alheia a saída do labirinto é logo ali. A vida deles é cena de filme que aborrece a gente - Como ele não vê que está sendo enganado?, Como ela não percebe que é o outro que a ama?, Que idiotas!  - a solução do que não é nosso, a gente tem com facilidade. Porque o distanciamento nos dá o benefício da neutralidade, de não estarmos submersos no afeto, só frente a um problema que nem nos diz respeito. Por isso a possibilidade de uma alma serena, que não atropela, não se exalta, nunca se precipita. Que resolve colocar fim ou começar algo, sem excessos, sem dúvidas ou arrependimentos; enxerga com clareza a atitude do outro, condena ou absolve sem dor ou incerteza. Segue certo, sem o que ficou para trás chamar para um último olhar.

  Enquanto os outros estão perdidos encontramos o caminho para eles, torcemos, sugerimos, apontamos, vez ou outra, quase andamos por eles, mas, no fim, só eles podem se salvar. A dedicação quase divina aos problemas deles é para além de altruísmo, é humana, porque é a voz do medo, da identificação, da tentativa de acertar a vida do outro para, quem sabe assim, ter a nossa de volta aos eixos, por merecimento, por justiça.

  A tristeza do outro é menor, sem tanta razão, é egoísta e cega; é despropositada, porque se limita ao que não vai bem, por que ele é incapaz de se atentar ao que é bem sucedido? A falta de coragem deles é infantil, é tola, por que se escondem, se a luta seria vencida com facilidade? A confusão que não é nossa é simples de ser resolvida. Apaga este e aquele episódio, esquece umas palavras mal escolhidas, perdoa os deslizes dos outros ou os leva até à saída, levanta do tombo antes do choro, olha para a vida do jeito que ela merece ser vista ou procura uma janela mais promissora, não se enterre, não se afogue, não sucumba.

  Mas os problemas dos outros são surdos, não ouvem nenhuma voz, senão a própria; a confusão deles é cheia de curvas, atropelos e emaranhados de fios soltos sem fim.  Eles se atrapalham é no turbilhão dos sentimentos que não cessam; não termina um para começar outro; todos lutam por um mesmo espaço, num só tempo. Não há razão que fale mais alto, quando a alma é atravessada por sentimentos que não podem ser confinados numa caixa, prateleira ou coluna no papel.

  Ela alcança o outro lado da rua ao mesmo tempo que eu. Somos duas mulheres com um detergente barato na sacola. Faço votos de que melhore, se for mesmo o caso. Se não, que os outros se curem da indiscrição de resolverem a vida alheia; cada um com o seu novelo embaraçado. Que ela  faça o que só ela pode fazer, não o que os outros fariam e, muito menos, o que eles dizem que fariam. O detergente já experimentei e é ruim. Erramos, minha cara, há de se ter paciência e força para limpar o chão e para seguir o caminho que só nós mesmas podemos fazer. Começo pela limpeza, ela achará o seu melhor início.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

O bastante é muito pouco

  Não há necessidade de gentileza, basta que seja eficiente e cumpra com o prometido:entregue o produto, preencha o formulário, facilite o troco, atenda no horário, seja fiel às promessas, saia bem nas fotos, sem mais. A disponibilidade, a  entrega sem cobrança, a oferta das mãos, a atenção do par de ouvidos, a alma a mostra ou a delicadeza nunca estão no contrato. Tampouco é necessário falar a verdade; basta ser educado, dizer o que se supõe ser desejado ouvir, ser prático, lacônico; dar sempre o que acha que consegue, sem gastar tudo ou saber se é o que o outro precisa. Não se implicar ou se responsabilizar pelo que não é conhecido. O outro sabe bem dele, nós só sabemos de nós; é o bastante dizem.

  Não precisa trabalhar no que se gosta nem, ao menos, se perguntar se gosta, melhor não pensar; se o salário nos mantém, isso é o bastante. Não precisa dizer no que se acredita, compartilhar ou declarar porque a defesa, o discurso, a paixão afastam o outro;  o outro nunca nos entende. Não precisa pensar se comem, onde dormem, se amam, como vivem, se não nos afeta, não nos é próximo, não é da nossa conta.

  Não precisa ver o céu, se tem TV a cabo; olhar para tempo, se no celular a temperatura pode ser consultada; não precisa esperar a resposta do "como vai?", porque vão sempre bem, se não fossem saberíamos logo. Não há necessidade de árvores, se há sombras de concreto e ar condicionado - nas férias vamos ao campo - certo? Não é necessário ouvir as ruas, os outros que falam, cantarolam ou fazem piadas, se temos os fones, então a nossa música é o bastante. Não é preciso polemizar: não votei, não fiz campanha, não tinha ninguém melhor, a política não sou eu; o menor não é meu filho, a espancada não é minha amiga, não ganhei nada com isso.

  Não é preciso mar, nem mares de morro, nem terra vermelha ou paisagem sertaneja, já se tem arquitetura refinada, objetos de arte legitimados pela revista, vidros blindados e cadeados seguros. Não é necessário sentir o sabor, basta ler os rótulos ou perguntar ao especialista e confiar nas notas de madeira do vinho e de chocolate do café. Não é preciso ler nenhum livro de trezentas páginas, basta passar os olhos numa resenha e, astuto, comentar rapidamente no círculo de novas amizades. 

  No banho quente de inverno, aquele antes de dormir, não precisa sentir cada gota de água descer pela pele, acolhedora, mágica, promessa pequena de descanso e renovação; é só higiene diária. Não há necessidade alguma de sorriso no café da manhã; levantar-se, vestir-se e não se atrasar ou ficar preso no trânsito, são suficientes. O elevador, o shopping, os aeroportos e estações de ônibus e metrô são não-lugares, espaços de passagem, então, não precisa ser delicado, generoso, tampouco empático. Passar desapercebido para chegar ao lugar de fato é o bastante.

  Não é preciso ser honesto, leal, amoroso ou sincero se ninguém vê, se não sabem, se não há testemunhas, nem publicação em redes sociais; só vale se é visto. Para a dor dos outros, distância, pena e frase bonita; cada qual com sua alma, há pesos que não podem ser partilhados, dizem. Talvez só um chá amenizasse os males alheios, mas a água quente, por vezes, custa-nos muito tempo dispensado para a sua fervura. O grande amor pode até até ser pequeno, mas a declaração, os regalos nas datas, as demonstrações públicas precisam impressionar. 

  Não precisa gostar, se tolera. Não precisa perdoar, se for embora. Não precisa arrepender-se, se há sempre a oportunidade do porvir. Não é necessário reconciliar-se com o próprio passado, se escolhemos inventar nossas memórias. Não precisa tirar os sapatos, se não vai entrar na água; só depois de estarmos certos é que nos despimos completamente.
  Dos manuais de sobrevivência, três conselhos básicos: estar contido, ser adaptável e se juntar sempre aos mais fortes. Do que só saberemos depois de viver, três loucuras que se pode escapar, se a sobrevivência é o bastante: molhar os pés sem certeza nenhuma, oferecer para além do que se sabe ter e transbordar junto dos mais sensíveis, sem jamais se contentar apenas com o necessário. 





quarta-feira, 6 de maio de 2015

Se você visse, sonharia

  Esmalte laranja nas unhas curtas e dedos muito cumpridos, reconheço a mão de quem eventualmente seguro a bolsa pelos esmaltes menos convencionais e, mais ainda, pela espessura fina de dedos que parecem de porcelana. Não sei seu nome, mas reconheceria sua mão em qualquer lugar e tempo; as mãos dela já encontraram a minha memória. 

  Às 6 da manhã ela é especialmente mal humorada, eu que só a vejo neste horário, sempre desconfiei que o cenho franzido, a pouca disposição para palavras e a ausência de um sinal de sorriso fossem mesmo pelas obrigações matinais. O incômodo do despertar, quando a cama é o melhor lugar que se tem; e nos últimos dias de frio dou a razão a menina da mochila verde musgo e dedos de fada. Não cumprimenta o motorista, o cobrador e nenhum outro passageiro, seguro sua bolsa todos os dias e entendo o aceno da cabeça como um possível agradecimento. Gosto dela mesmo na ausência de qualquer movimento de sociabilidade; empatia pelo silêncio dela, pela curva fechada na estrada dos seus sentimentos. É quando não estamos vendo que as pessoas sentem, mas esquecemos muito disto e, por isso, solicitamos os sinais, que nem sempre estão dispostos a vir.

  Hoje ela chegou atrasada, correu atrás do ônibus e não veio sozinha. Pela primeira vez escuto pressinto sua voz, não fala comigo e ainda não há vestígio de sorriso, mas a voz deve ser doce e sinto que confirmo minha suspeita: ela é gentil. O ônibus para, ela segura a porta e fica meio corpo para dentro e a outra metade, aguardado alguém mais lento do que ela, que chega sem pressa. Segundos depois, ela desce e, aos poucos, um chumaço de cabelo branco começa a subir as escadas, onde a adolescente há pouco se pendurava. Um senhor sorridente, chega calmo, abrindo caminho no corredor do ônibus e é seguido pelas mãos brancas de unhas pintadas de alaranjado, segurando firme o braço com manga de tricô. Ele se senta, agradece efusivo a ajuda dela, mas ela só acena para ele, como faz comigo todos os dias. Não há palavras dela, mas afeto desinteressado de quem enxerga a possibilidade de se responsabilizar por desconhecidos.

  As bondades não são visíveis sempre, na maioria das vezes elas vêm de insuspeitos generosos, escondidos atrás de uma cara pouco amigável. Não há declarações, nem simpatias demasiadas que permaneçam para além de um gesto prático com alguém que não pode dar nada em troca. As mãos finas chegam perto do meu banco, ofereço-me para segurar sua mochila, ela me entrega e sinto orgulho de uma adolescente que vejo quatro vezes na semana, às 6 da manhã, há quase um ano. Com a mochila verde musgo nas mãos, seguro forte uma esperança. Estes são dias de não desistir do humano, dia de acreditar que as pessoas podem ser melhores e oferecer mais do que esperamos delas. As palavras, os acenos, as marcas da social são menos importantes quando alguém vê para além de si. A vida é também um pouco como a garota silenciosa das unhas cor de laranja, surpreende e alimenta esperanças, quando a quarta-feira é o mais cinza dos dias.



sábado, 2 de maio de 2015

Os dias bonitos sem sol

  No décimo primeiro andar sou a terceira a chegar, as outras duas mulheres, que acabam de se conhecer, me olham, uma delas sorri, mas continuam o assunto. A menos receptiva parece desabafar sobre algum problema, enquanto a mais solícita e sorridente a ouve calmamente e me fita. As relações de amizade, antigas ou recentes, duradouras ou efêmeras quase sempre se sustentam muito assim, da necessidade de um e da disponibilidade de um outro. Arriscado é quando os papéis nunca se invertem e o necessitado nunca muda de lugar. 

  Em quase duas horas de conversa, ambas se mantiveram na mesma postura da minha chegada: a emissora aflita e a receptora serena. Falavam de filhos, vez ou outra a ouvinte também conseguia expressar sua opinião. Compreendi, entre as várias histórias seguidas e conectadas,  que a filha da mulher falante faria uma viagem de intercâmbio e ela era contra. "Muito nova, mulher, frágil, imatura, cabeça de vento", era como ela justificava o seu temor. Para dois segundos depois, falar do quanto a conquista da garota a orgulhava: "Filha de pobre, esforçada como ninguém e inteligente, muito inteligente e sensível, a melhor...". Só nesse instante, passei a gostar da mulher que falava tanto, porque vi medo e amor entrelaçados; era materno e justificável, ainda que muito injusto com escolhas que ela jamais poderá ser responsável.

  E acho que este foi o instante da outra mulher também gostar mais da sua interlocutora e desejar salvá-la de uma ilha de sentimentos que ela parecia conhecer. As relações de amizade se fortalecem nas identificações, quando percebemos que o outro fala uma língua se não igual, ao menos muito parecida com a nossa e, também, nas projeções, quando pensamos ser possível salvar o outro de uma estupidez que já cometemos.

  A mulher de ouvidos tão disponíveis tinha um nó na garganta e eu o senti aqui, depois das primeiras frases dela. Olhando para teto, de uma sala sem janelas, como se apreciasse um céu de verdade,  num suspiro comprido, que eu reconhecia de outros lugares e noutras pessoas, seus olhos se encheram de alguma lembrança que jamais poderemos alcançar. Ela falou sobre o filho do meio, que desde pequeno queria ser astronauta, que achava engraçado, bem bonitinho, um menino muito sonhador, mas que mesmo crescido continuava muito "aluado", que tinha muito medo também que os filhos se afastassem dela. Mas que, agora, todas as noites, sonhava muito que filho era um astronauta. - Ao menos saberia o lugar em que ele estava.

  No décimo primeiro andar uma mulher é, finalmente, calada pela dor maior que a sua; no décimo primeiro andar duas desconhecidas me ensinam algumas perspectivas em que o amor pode ser visto.

  Uma olha para o céu imaginário e pensa se ele, de repente, não está na lua. A outra olha para o celular, vê uma mensagem da filha e acho que responde. Sonho que ela a mandará para a lua ou qualquer outro lugar que a filha escolher.

 As asas dos outros, são o que de mais preciosos eles têm. A mulher que vê beleza em um dia sem sol confecciona as asas de um filho perdido, daria o filho dela de volta se pudesse, seria sua filha se isso diminuísse sua dor. 

  O amor tem medo, mas  liberta, a lua é um caminho bem próximo, às vezes. Os dias são bonitos mesmo sem sol e o céu é possível no décimo primeiro andar numa sala sem janelas. Já as asas dos outros, devemos, mesmo que doa, deixar que os ares tomem conta delas.



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Armadura em pó

 Ele já olhou para ela três vezes, dois olhos de reprovação e cenho franzido; ele se ajeita no banco, ela se afasta do limite que ele impôs; ele esbraveja de longe, ela responde com um sorriso fácil, maroto - malandra mesmo. Ele é pai, ela é a filha, acho. Ela o desobedece compulsivamente e ele inventa faces negativas a cada infração. - Sabe, não adianta. Eu diria se fôssemos íntimos. Mas nem os conheço. Só partilhamos a mesma praça. Passei por acaso, parei para um respiro, enquanto ela se diverte e ele tenta ser um bom pai. O homem adia o confronto, tenta a todo custo ser ouvido, sem um grito. Já acho que ele cumpre bem o papel desejado.
  Ela já entrou no tanque de areia com as sandálias que ele pediu que tirasse, soltou o balanço, que estava preso por falta de segurança e ainda brincou nele, antes que ele se aproximasse da grade e, vermelho, pedisse que abandonasse o assento torto, ainda arregaçou a barra da calça e pisou na areia para tirar do alcance dela o brinquedo perigoso. Ela já insistiu pelo sorvete no dia nublado e ele calmamente explicou que a inflamação na garganta dela ainda não está curada, mesmo assim ela chorou, gritou, foi bem mal educada com as mães da praça, que tentavam consolá-la. Ela caiu, ele a segurou. Do livro que trouxe, ele não leu uma linha até o final. Ela é a personagem que ele não pode abandonar, ela é a leitura da vida dele. Ela roubou a bola de um time de meninos maiores que ela e saiu correndo, enquanto ria muito. Ele constrangido, roubou a bola da pequena ladra, sua filha, devolveu-a a um time de mal humorados, pediu desculpas manso e com o rosto terrivelmente fechado, com a resolução de educá-la de uma vez e para sempre andou em direção a ela, escondida na casinha de madeira, refúgio dos pequenos insurgentes.

  Dia certo de não engolir mais a seco, dizer exatamente o que é preciso, corrigir uma personalidade mais que indomável, indolente, pouco afeita aos avisos, negativas ou pedidos pacientes. Talvez tivesse um ensaio antes, ele sabia que o dia do combate chegaria. Os cabelos grisalhos dele ao vento e os dela escondidos na sombra da casa de madeira da praça, os passos certos dele e a risada frouxa dela, as oposições se aproximando, ninguém sai da praça, ninguém se move, todos espectadores sanguinários do embate.

  Se abaixa calmo -  mas não se engane, há um mar revolto atrás dessas ondulações mansas! 
- Gabriela, Gabriela. 
  A voz dele não chama em diminutivo, nem abrevia, o nome é inteiro. A situação não é favorável à pequena. Corajosa ela aponta a cabecinha morena na porta do refúgio e sagaz, fala uma frase inteira em perfeição de poesia:
- Desculpa pai, eu não consigo ser boa, mas posso tentar da próxima vez. Posso trazer um livro e sentar do seu lado, sem sair de você nunca mais.

  Nas vastidões de lugar, de sentimento ou de gente, a guerra não vale se o inimigo diz exatamente aquilo que a vida não diz, mas a gente quer muito ouvir. Talvez não seja ele um oponente, só não é o que a ilusão gostaria que fosse. Chegou o dia em que a escolha entre o fazer  definitivo e acolher o afeto, se postou na frente dele. E, a vontade de abrigar seu amor mais desobediente foi mais forte. Aquele era o  juízo final para ele, ao menos na semana. Ele puxou-a sutil e seguro, abraçou-a, o sorriso malandro da pequena voltou e seguiram em direção a um dos prédios em frente a praça, antes de atravessarem, ela se lembrou do livro dele no banco e voltou para buscar. Correndo, sorrindo - que é o que ela pode oferecer.

  Ele é o pai que consegue ser e ela a filha dele, são o que sabem ser e isto é o bastante, na praça. Às vezes, a melhor arma é a alma entregue mesmo, porque a espada suspeita da facilidade e desvia. Melhor é o despreparo, nele a gente atua sem ensaio. Não há certo, nem certeza; o balanço quebrado nem sempre derruba, não há armadura para certos combates.