segunda-feira, 25 de março de 2013

Ela era ela


  Era acompanhada por uma sensação de que adiava as grandes coisas, adiantava as pequenas, chegava sempre atrasada ou adiantada, nunca no horário, sentia mesmo, que talvez o lugar não fosse esse, e, nem ao menos, experimentava, se despedia antes que dizer " adeus" doesse mais. Errou o mês, já era o terceiro e o seu ano não havia começado, suspeitou de uma conspiração global, baseada na passagem rápida de todos, menos na sua, veria todos tomarem seus destinos, seus ônibus, carros, aviões, trens, para ela, se perder na estação era o seu castigo eterno. Ou aprendia a amar um "não-lugar" ou a ansiedade nunca a largaria, sofrimento profundo, eventual ou constante, cabia a ela o aprendizado.

  Mesmo parada, à espera, crescia. E crescia sempre em proporções assustadoras, crescia de não caber mais no banco, na poltrona, na sala de espera, crescimento que precisa de "ar", de lugar aberto para respirar e mais e mais expandir. Rapidamente as roupas pareciam não caber, nem os sapatos, nem as pessoas; e eram essas as que mais lhe faltavam, porque ela crescia só, em uma frequência diversa. Só mesmo os seus pensamentos é que nunca a abandonavam, seguiam-na aonde quer que fosse e se iluminavam nos lugares mais inusitados, elevadores, filas de banco, nas camas de um hotel às duas da madrugada e eufórica, quase sempre sentia vontade de compartilhar com alguém as tais epifanias, mas eram dela e haviam seguido um longo caminho até ali, trajetória essa que só ela conhecia. Por isso, como explicar a alguém, o que só para ela fazia sentido?

  Sentia que precisava de alguma disciplina, tendo negado toda aquela que vinha de fora, aprendeu a construir as próprias regras, quase sempre completamente respeitadas:  aveia, àgua, gelo para curar inflamação, chá quente se tomasse chuva, leite, verduras, frutas e legumes, sono certo, caminhadas, casa, roupa e cabelos limpos, concessões, adesões. Quando a decisão era necessária: sofrimento, banho demorado e pensamentos antes de dormir. Só depois, o alívio e depois dele, o choro leve. Chorar, para ela, era quase tão bom quanto sorrir. Era o sentimento ganhando liberdade, cavalo correndo solto pelo campo, gaivota voando alto pelo azul, leão furioso pelas savanas. Indomáveis, ganhavam espaço.

  Conhecida antiga de si mesma, familiarizada, autoanalisada, ainda assim, aconteciam os pequenos, grandes enganos. Aceitava o que não podia, comia o que não queria, falava o que queriam ouvir, representava até, depois somatizava as duras concessões: mancava, quando seguia o caminho equivocado; inflingia aos maxilares uma pressão descomunal, quando engolia o que não queria. Mas, quase sempre, depois de cada descaminho, encontrava a solução simples, clara e possível. 

  Desejava sempre desejar, sua esperança era na própria esperança, sua arma mais constante era a fé, ao mesmo tempo espada e escudo. Tinha dias ruins como toda a gente, dias muito felizes como tantos outros e, na maioria dos dias, um pouco de contentamento e outro tanto de melancolia. E sob este aspecto, o consolo de ser uma igual. 

  O terceiro mês que está no final, a noite que silencia tudo fora dela, e na estação ela é verdadeiramente grata por mais um dia, acena para os que tomam seus assentos nos vagões, suspiro fundo. Deseja sorte para os que vão e aguarda a sua vez, talvez amanhã, semana que vem ou no próximo mês. E se o "não-lugar", por um acaso, for mesmo seu único destino ela saberá amá-lo. A noite caiu na estação e ninguém ouviu nenhum lamento, ela preferiu cantalorar uma música estrangeira de um filme antigo, observar o estado de todas as coisas e esperar o próximo trem.



4 comentários:

Ana disse...

Atualmente ser o que se quer e é, invés de ser aquilo que os outros querem que se seja, é uma grande batalha e é de uma grande coragem!
Eu sempre gostei de ser o que sou, acho que por isso, mita gente não me entenda mas não me importo.
devia era mudar alguns hábitos, como comer melhor e menos:)
beijos

Amanda M. disse...

E ser, mesmo que "errado", ainda é menos dolorido do que somente corresponder expectativas...o jeito é "melhorar" somente o que se tem. ;)

Zi Figueiredo disse...

Fantástico seu texto. Identificações mil... Gostei muito das mudanças que fez em seu blog. Também sutis, mas profundas ;) Continue ^^

Beijos!

Amanda M. disse...

Obrigada Zi! Que bom que gostou! Beijão ;)