domingo, 17 de março de 2013

Você teria subido?

  Antes do lugar a lenda. Leio em algum desses diários de viagem sobre o folclore local, deve-se subir e descer a ruazinha específica apenas três vezes e nunca mais terá problemas amorosos; simples assim. Viajo com a doce superstição na mala. Sou dessas pessoas muito crentes, em qualquer fé, entendo-me melhor com aquilo para o qual não há explicação lógica; se a vida é assim, as "coisas da vida" também devem ser. Uma viagem, um descanso prazeroso e ainda a possibilidade de uma resolução absoluta, definitiva. Não poderia querer mais.

  No dia anterior ao passeio ao búcolico lugar, perco-me deliberadamente na metrópole cujos ventos fortes arrastam qualquer tipo de preocupação, cujos cafés amargos acordam-nos para a vida. Poderia morar aqui! Penso enquanto uma corrente de vento quase levanta o meu vestido. Fantasio que sou local, ando como um, comporto-me como um e tento falar como um; a imaginação é interrompida de tempos em tempos, meu sotaque revela, meus olhos não escondem a novidade de cada coisa. Talvez não suportasse um mês fora de casa. Concluo, ao chegar ao final da avenida. Eu não sou daqui. Mas poderia amar este lugar, carrego tanto amor na bolsa de mão, que chega a pesar. Eu amaria qualquer um, qualquer lugar a qualquer hora. Amanhã este mesmo amor será objetivado, limitado, bem utilizado. Fecho a bolsa com cuidado, nenhum amor deverá escapar dali. Amanhã, quando eu descer pela terceira vez a tal ruazinha, terei a recompensa de nunca mais rasgar-me, ferir-me; sem dúvidas, sem choros, cicatrizes ou arrependimentos, só resolução.

  Enquanto o outro dia não chega, aproveito para absorver cada imagem, fotografias na mente que eu desejaria nunca mais apagar, a beleza do estranho, de cada pessoa que eu nunca mais verei na vida, esquadrinho cada pedra da calçada, até dos buracos das ruas tentarei não me esquecer, os nomes todos, as luzes todas, o sol e o vento em luta contínua. Minha vida é este clima, o sol que arde, o vento que refresca e destrói, sorrio da conclusão, faço uma cara para a fotografia digital - mais de 500 - muito menos do que terei guardado na lembrança. Grata, volto para o lar "emprestado", de rostos, nacionalidades, idades e passados diversos. Quem aqui não precisaria de uma mágica como a que terei acesso amanhã? Queria dividir e dizer a quem quer que fosse: - Olha, se subirmos a tal rua no país vizinho, por apenas três míseras vezes, ninguém aqui sofrerá mais de amor.  Mas, calo, observo-os, cada um saberá a sua hora de resolver cada problema. Agora é pensar em mim. Quase durmo, quase sonho, ansiosa levanto antes do planejado.

  É quarta-feira e é o dia! Tomo um café apressado e enquanto desço as avenidas ainda vazias, contemplando, avaliando, introjetando cada novidade eu leio a frase, em um painel, cartaz, já não me lembro, porque esta é a capital mais literária que já vi, há palavras em tudo: "Se soubesse que iria doer, mesmo assim teria amado?". A pergunta abala minha resolução. Repasso-a para a parceira de viagem, mas não escuto sua resposta, porque aqui dentro escuto uma profusão de "sins". Atravessamos o rio, eu, a boa companheira e a minha dúvida: cumprirei a trilogia da caminhada pela tal rua?

  Aportamos no pequeno paraíso, mas eu não tenho pressa para encontrar meu destino, conheço outras tantas ruelas adoráveis, entro na igreja, contemplo, faço uma pequena oração, olho os rostos, os carros, os cachorros felizes de rua, até encontrá-la: pequena, simples, florida, calçamento de pedra, com casas antigas como todas as outras. A "Rua dos Suspiros", na aparência, não se difere em nada de nenhuma outra da cidade, mas sob suas costas a pesada responsabilidade de trazer a resolução de todos os problemas amorosos - passados, presentes e futuros - de quem andar sobre suas pedras por três vezes. Estou no fim da minha primeira etapa, quando lembro-me da pergunta no cartaz e da minha resposta interior. Sim. Eu disse sim para o amor, mesmo que depois dele só restasse dor. Resolver um problema, também pode ser a anunciação do desaparecimento de todas as alegrias que a tal questão traz consigo. E depois de resolvermos todos os nossos problemas o que mais nos restará? Vida é prazer e luta. Prazer antes, durante e depois da luta. Presenteio a rua com o meu suspiro e não completo a minha saga. Opto pelo risco da dor, mas pelo prazer (e luta) que é amar.

  Minha bolsa permanece cheia, porém aberta, não escolho a quem ou a o quê darei afeto. Eu amo a cidade na qual deixei o meu suspiro mais profundo, amo esta outra, por vezes, caótica e a minha recém reencontrada. Nenhum dos meus problemas tem solução definitiva, nem mesmo eles são definitivos. E é bem esta a vida que todos vivem, em qualquer cidade deste mundo. Receio que quem subiu e desceu três vezes a "Rua dos Suspiros" se arrependeu. E você, diante da pequenina rua, subiria?






6 comentários:

Anônimo disse...

Hum... ficaria na dúvida!!! rsrsrs... Lindo, lindo!!!

Ana disse...

É um grande dilema! Só lá saberia, mas talvez subisse... Adorei esse passeio contigo!
beijos

Amanda M. disse...

Rs. Todos têm dúvidas, a cada rua. Beijo ;)

Amanda M. disse...

Obrigada pela cia, Ana! Beijão.

Anônimo disse...

andaria até a metade...rs...só "meios" problemas resolvidos estava bom! Bel

Amanda M. disse...

Solução bem "Bel" mesmo! ;)