segunda-feira, 8 de abril de 2013

De uma inconfidência

  Reencontro sem necessidade de constrangimento. Da minha mesa só alguns poucos olhares, dois ou três,
durante uma noite inteira, da dele, um olhar, só um perceptível e conhecendo-o, foi só este mesmo que ele lançou. Não surpreendeu-me, sabe? Não me magoou vê-lo de vida refeita, melhor, mais seguro, maduro e acompanhado; não é o primeiro reencontro. Já o vi nestas "vidas novas" tantas vezes e o verei mais, quando menos esperar, sua vida próspera desafia a minha pobreza. Na primeira hora, logo que o vi, quis muito que ele não me reconhecesse, não me visse e se visse poderia mentir que não viu. Na segunda hora, desejei que me visse, mas não viesse me cumprimentar, eu não o cumprimentaria, jurei. Da terceira hora em diante, o coração dividia-se entre os dois outros desejos: me veja, não veja; venha, não venha.

  "Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem", Caio diz para mim com a sua voz bêbada. Para mim, natural sempre foi a perda, até perder o que não se tem, o encontro é que sempre surpreendeu-me. Surpreendeu-me de não saber o que fazer com aquilo tudo, aqueles sentimentos novos, planos de futuro, olhares profundos, horas que voavam incansáveis. E não sabendo o que se fazer e querendo muito fazer algo, faz-se "errado"; ora protegemos demais, ora nos expomos em demasiado. Natural agora é ver alguém na mesa ao lado e admitir a distância infinita, é permanecer sorridente, quando tudo que se quer é correr, fugir, ir embora ou esconder-se debaixo da mesa.

  Pensava mesmo que estaria protegida por nunca doar-me toda, o caso é que no primeiro encontro eu premeditei a perda, por admití-la natural. Agora, aqui da mesa, deixo o copo de cerveja e seguro um coração, que insiste em disparar e admito o quanto sou constantemente ferida por ter tanto pudor em doar e nenhum em receber. Fiz dele meu e ele nem sabe. Não o devolvi nunca e ele também nem desconfia. Sua acompanhante, mulher, namorada ou amada, não pode tê-lo inteiro, porque há aqui comigo uma parte que quer ficar. Não. Acho que eu é que a aprisiono, insisto em fazê-la refém. Devolveria se soubesse como, sem resgates, sem lista de exigências, só abriria a porta e eu também teria liberdade. Acontece que eu não sei por onde começar.

  O drink colorido afoga a minha miséria, torço para tê-lo matado também aqui dentro. Amanhã, uma ressaca do que não foi, nunca será; é a única garantia que eu posso ter. Ele me viu, eu o vi. Nos vimos e ele não veio, eu também não. Volto para casa com a esperança de sempre, a de tê-lo deixado escapar do cativeiro, enquanto eu bebia quase distraída com as amigas.




2 comentários:

Anônimo disse...

Eita...além de escrever vc tb disfarça bem!!! ;) Que lindo, sensível e real...por isso sempre nos identificamos tanto com o que lemos aqui!!! outro drink colorido no finde e mta história pra contar...

Amanda M. disse...

;)