domingo, 28 de abril de 2013

E eu que não tenho nada

  Sabe, em poucos dias já faço mais de três décadas e a verdade mesmo é que os números não me assustam, com eles tive pouca afinidade desde sempre, não é medo ou falta de entendimento, é só um afastamento, quase um desprezo; dizem muito pouco a mim ou sobre quem eu sou. Outra verdade é que os anos têm sido absolutamente generosos comigo, é preciso que eu admita. Cada pessoa que passou, algumas até permaneceram, ensinou-me muito, tudo. Com os livros eu tenho prazer, distração e poesia, mas as pessoas, inclusive aquelas por trás de cada livro, é que têm me ensinado. Mas do que eu nunca tinha me apercebido é desse vazio, por escolha ou até por sorte, de não ter absolutamente coisa nenhuma. Nem os meus dias da semana são mesmo meus, são dias da semana, não "meus dias da semana".

  Cada dia meu, sempre pertenceu a outros, por mérito ou necessidade, dividia os sete dias, por longos ou curtos períodos, para  que os outros tomassem conta deles para mim. Segunda à sexta, houve o tempo da doce professora primária, mais tarde, segunda, quarta e sexta, do carrasco da matemática; terça e sexta, do adorável da geografia; segunda à sexta, também, já foram das amigas da escola (geralmente duas ou três preferidas, mais íntimas. Mas jamais dispensava as risadas e piadas com outras quinze ou vinte do convívio semanal). Houve a época das terças e quintas com os professores de inglês, no curso à tarde, depois da escola, do almoço, do cochilo, ônibus e, finalmente, curso de inglês, dava dois dias da semana que eu achava ser dona, para a loira americana, o moreno engraçado, a senhora séria, o homem de bengala com rosto amigável. Tive o longo período das fisioterapeutas, quatro ao todo, por cada uma, uma gratidão especial, corrigiram joelhos, ajeitaram coluna e ensinaram perseverança e disciplina. A maternal, a compenetrada, a afetuosa e a pragmática. Por um período, relativamente curto, doei quatro dias da minha semana, inclusive sábados,  para a professora de jazz, cabelos pretos, risada engraçada e cobrança; com as amigas do jazz, sorrisos, festas surpresas, minha imitação cômica da Sade, polainas coloridas e dança. Os sábados já foram dos estudos religiosos e brincadeira na rua, corrida atrás de borboletas, pássaros e lagartos, cuidados com cachorros de rua e sono adiado, com consentimento dos pais.

  Houve o tempo em que as pessoas não variavam tanto e eu queria muito diversificar, mas era preciso paciência; houve um outro, que eu queria que permanecessem, mas elas, aos poucos, devolviam os dias a mim, era preciso desapego. Mas, há um dia que alguém me devolveu há mais de uma década e eu ainda não encontrei uma substituição mais efetiva. Quando devolveram-me o domingo eu prontamente tentei destiná-lo a tanta gente diferente, mas ninguém o tomou por completo. Desde que os domingos voltaram as minhas mãos eu não encontro quem os queira, tentei prendê-los a mim, quem sabe este único dia, não me pertença? Mas eu, definitivamente, não o quero. Não para mim somente. Tentaram me presentear com um domingo, mas ele ainda continua pertencendo a quem me devolveu, minhas memórias de domingo ainda são melhores que os meus dias de domingo. Eu seguro um dia da semana (guardo com cuidado para que não amasse, rasgue ou quebre) que não me pertence, aguardo quem o queira, aguardo mesmo alguém a quem eu queira destiná-lo. Amanhã é segunda e eu não tenho nada, nem ao menos os meu dias da semana são meus, tão bom ter mais de trinta e não ser dona de coisa alguma. De triste, ainda, só os domingos sem dono.



3 comentários:

Anônimo disse...

Mandica vc escreve bem demais, (isso não é novidade). Quando li sobre o seu domingo senti a mesma ansiedade que sentia quando no domingo esperava vc chegar na casa da vó para brincarmos.Bjs. Dani.

Amanda M. disse...

Ah que bonitinha!Esses eram sim os meus bons domingos...Obrigada Dani, pelos domingos e elogios...beijos nos meninos.

Anônimo disse...

Ah... esse texto me fez chorar.