quinta-feira, 2 de maio de 2013

Isto é sobre qualquer um

  E não é porque pode ser "qualquer um" que não é sobre você, especialmente. Frequentemente, fazemos lá  algumas
concessões para nos adaptarmos a um coletivo, comportamento típico, principalmente daquela fase irracional chamada adolescência, crescemos, e embora essa necessidade não seja mais tão latente, ela não deixa de existir. Fazer parte de um coletivo, muitas vezes, significa legitimar nossa existência, ver-se pelos olhos do outro, conhecer-se também pelo que o outro atribui a você (talentos ou falhas). A comunidade eterniza sua experiência de viver e resguarda seu legado (porque todos nós deixamos algum. Pelo menos, é no que gosto de acreditar). A possibilidade da individualidade é fantástica e necessária, mas são nos relacionamentos que construímos, que todos nós nos conhecemos genuinamente, porque são neles que temos contato com o inesperado, com o desconhecido, o contrário, com os muros e as portas que o outro nos impõem ou abrem. E quando o poeta canta "é impossível ser feliz sozinho", penso que é impossível "ser qualquer coisa sozinho", até a infelicidade precisa de um outro para que ela exista, seja um "culpado", um ombro consolador ou só alguém que diga que você não parece bem. É o olhar do outro, inclusive, que nos confere o título de especial, incomum, sujeito destacado. Vez ou outra, alguém reclama das inúmeras requisições, mas não ser necessário para quem quer que seja, é sentir-se menos especial, descartável, desnecessário. Como Andy Garcia naquele filme com a Meg Ryan, cujas atenções desmedidas com a mulher alcoólatra, camuflaram a patologia e adiaram o seu tratamento, tudo porque ele sentia-se necessário e marido espetacular por resgatá-la das repetidas bebedeiras.

      A caneta emprestada começa a falhar, anoto somente o indispensável, porque pedir outra caneta me custará levantar de um banco coletivo, pouco prático, andar até o balcão e ainda utilizar todo o meu conhecimento de um idioma que finjo conhecer. Guardo o papel no bolso, ela passa-me o seu computador pessoal para eu conferir os meus e-mails, as redes sociais e, nenhuma urgência me requisita, nada. Deveria, finalmente, despreocupar-me e entregar-me completa à viagem, mas sigo incomodada. Devolvo a caneta ruim, subimos ao quarto, pegamos nossas bolsas, calçamos os sapatos e seguimos ao estranho atrativo turístico. Repouso eterno das abastadas e célebres figuras do país. Entre as lápides, tomadas de declarações emocionadas e esculturas homenageando os amados que se foram, eu resolvo desabafar o incômodo. "A vida lá acontece de um mesmo jeito sem mim, ninguém me solicita, requisita ou verdadeiramente necessita da minha presença".

  E ela, que outras tantas vezes já sacudiu-me, quando necessário, não se intimida: "A verdade é que conosco ou sem, a vida segue, porque somos todos substituíveis". Agora, passados meses, penso o quanto a declaração custou-lhe, o quanto também doeu-lhe na própria carne a tal constatação. Recolho-me a minha individualidade, agora não desejada, e sigo perscrutando lápides gigantescas abandonadas, declarações de familiares que não se cumpriram ("nunca o abandonaremos"; "jamais será esquecido", "gratidão eterna"). Somos todos substituíveis eu, ela, todos aqueles outros turistas e os que ali visito agora; tal qual a caneta que usei de manhã e que certamente será substituída. Deixamos o atrativo e sigo melancólica pelo parque, é simples, comum, mas diferente de tudo que eu havia visto ou vivido, jovens felizes tomando sol no gramado as três da tarde de uma quarta-feira, são como todos os outros do mundo e ao mesmo tempo como nenhum outro. 

  Tomamos o carro para o hotel e ela é feliz e está do meu lado desde o meu nascimento, estou certa de que ela jamais será substituível para mim. Outras carinhas redondas e rosadas existirão, outras tantas conquistarão minha simpatia, mas nenhuma será como ela. A declaração puramente corporativa não me aflinge mais. Ninguém a quem amamos será substituível, a vida parece a mesma, mas só por termos compartilhado com alguém algum afeto, um dia, modificamos para sempre uma existência. Mesmo que seja a nossa própria. "Eu não sou a caneta amarela" resmungo baixinho, ela pergunta  o que eu disse, eu digo "a caneta, empresta sua caneta que eu quero anotar aquela frase do Borges". Escrevo no papel já amassado no bolso "O dever de todas as coisas é ser uma felicidade". Necessária ou não, sinto-me completamente cumpridora do meu dever, acabo sendo uma felicidade, em um carro de uma cidade qualquer.



4 comentários:

Carla Machado disse...

Tenho certeza de que todos passarão, mas nós que somos boas viajantes e sabemos levar omelhor que o mundo nos dá sempre passarinho! Viva Borges, Viva Quintana!

Amanda M. disse...

:)

Zi Figueiredo disse...

Me emocionei com texto. *.* E, sei que é tarde para dizer, mas adorei o novo layout do blog =)

Beijos!

Amanda M. disse...

Obrigada Zi! Tarde não, mudei tem pouquinho tempo...Beijos