quarta-feira, 8 de maio de 2013

Das partes de um todo

  O casal já é antigo conhecido, vejo-os pelo bairro aos finais de semana, saem para passear com o
cachorro, para comer no restaurante próximo a minha casa, para beber no bar que, eventualmente, frequento. Acho-os harmônicos esteticamente, aparentemente felizes e até simpáticos, mas só o cão me reconhece e cumprimenta. Já acostumada ao casal, não reconhecia-os separadamente, talvez só reconhecesse o cachorro caso ele estivesse em um passeio solitário. Até hoje, quando percebi que a mulher no ônibus, sentada em um banco, bem próxima a mim, conversando com uma amiga, era uma das partes do casal.

  Depois de reconhê-la, vê-la sem a outra parte, confesso que achei-a menos interessante, simpática e feliz (e a tristeza pude comprovar um pouco mais tarde quando ela chorou publicamente, ainda que pouco), falava para a amiga do término do relacionamento; reclamava das sucessivas tentativas dela de perdoar os defeitos dele, as falhas graves, moderadas e leves dele, a personalidade difícil dele, a fase ruim dele e os heróicos esforços dela para ajudá-lo a superá-la, as promessas de mudança dele que no final sempre decepcionaram-na muito. Enfim, quem se se limitasse ao dolorido desabafo dela, logo imaginaria as duas partes heterogêneas em uma só composição: a boa (no caso ela) e a ruim (ele). Enquanto ela listava as infinitas causas do término "definitivo" (ela fazia questão do adjetivo), eu esforçava-me para lembrar a fisionomia da outra parte envolvida, como era ele? Mais simpático, mais feliz, mais bonito? Empenho em vão, lembrava-me somente de características muito superficais do assassino cruel de vidas em comum, nada de especial, cor dos cabelos e altura, talvez.

  Desci do ônibus e as duas mulheres permaneceram nos seus bancos e papéis, a tagarela rancorosa e a ouvinte conformada, enquanto eu, seguia o meu destino geográfico e vocacional, este último de refletir a vida alheia, que é também, em algum aspecto, minha. É claro que o final de qualquer relação tende, a princípio, ser regida por uma irracionalidade típica de quem fracassou. Há os que pecam pelo excesso de indulgência e assumem todos os "erros", problemas  e culpas do relacionamento, há os que como a moça, só enxergam a parte ruim no outro, como se fosse possível essa separação tão clara. Acredito sim que ela gostasse tanto dele e, por isso, se esforçasse muito para perdoá-lo, ajudá-lo e acreditar nas suas promessas de mudança. Acredito também que ele desejasse mesmo ser para ela o que ela gostaria que ele fosse, mas ele não era e um dia, talvez, ela entenderá isso bem. 

  Ela compreenderá, quem sabe, que há certos aspectos da nossa personalidade tão parte de nós mesmos, que não há no mundo terapia, boa vontade ou milagre que nos faça mudar. Podemos disfarçar, esconder, mentir, mas em um dia qualquer, essa parte tão indesejada, pelo outro, vem à tona. E mais, o que ela odiava no namorado, talvez agrade muito outro alguém ou, pelo menos, não seja um grande incômodo. A diversidade de valores, personalidades, vontades e almas humanas são quase sempre os motivos para o término de uma relação (amorosa, familiar, profissional), mas graças a elas é que sempre temos a possibilidade de acreditar que novos pares, verdadeiramente harmoniosos, daquela maneira mais profunda, podem se formar. A moça, um dia ou outro, aparece novamente feliz ao lado de um outro bom rapaz, o rapaz, que um dia foi parte do casal que conheci, também se ajeitará com outra simpática parte. É a vida, não? De preocupante mesmo, só o destino do cachorro, com quem terá ficado?



3 comentários:

Anônimo disse...

PERFEITOOOOO Mandinha... Amei!!!

Ana disse...

Sabes que muitas vezes, quando sei do final de uma relação de duas pessoas que tinham um cão costumo perguntar pelo cão?:)
Como eu costumo dizer, quando uma relação acaba a culpa é sempre dos dois, há coisas a que não damos tanta importância mas que acabam por ser as mais importantes. comigo normalmente é o contrário, fujo tanto dessa coisa de relacionamento forte que procuro primeiro os defeitos, aquelas relações muito perfeitas em que parece tudo perfeito me intrigam sempre e me poem de retaguarda. Mas isso sou eu que me tornei numa descrente no amor;) Há um escritor português, o António Lobo Antunes que diz que as pessoas são como os arco-iris e que se derem bem em três ou quatro cores já é muito bom:) concordas?

Amanda M. disse...

A ideia é muito boa mesmo, mas se três ou quatro cores dão-se bem a gente quer logo mais três ou quatro...ou, ainda, queremos justamente a cor que não deu-se. Eu lá não sou a pessoa mais crente também nestas relações, mas desconfio que gostar da cor do outro que não tem em si é que deve ser o segredo. Por agora, tenho é fugido dos arco-íris... ;)