quinta-feira, 23 de maio de 2013

O que fascina também pode afogar

  Tenho a teoria de que não escolhemos as cores de nossa preferência, elas, de maneira misteriosa, vêm ao nosso encontro. Menina ainda, dizia que gostava da cor rosa, porque era menina dessas de babadinhos, porque minhas amigas tinham todas aquele complexo de princesa e das primeiras coisas que aprendemos na vida é que ser amado é bom e junto com essa percepção, aquela outra acoplada, de que para ser amado bastava correponder às expectativas do objeto do nosso amor, neste caso as amigas da minha rua.

  Tinha quatro anos, era verão e devia ser sábado, dia que fazíamos um programa familiar, sem ser a casa da avó. Fomos todos ao clube de que éramos sócios, pequeno, com apenas duas piscinas, uma maior - à época me parecera gigantesca - e a outra de proporções bem mais modestas, mas igualmente sedutora. Os irmãos logo trataram de se refrescar no espelho d'água mais pomposo, o pai assistia a uma partida de futebol do outro lado do clube e a mãe e eu sentadas à beira da piscina menor, molhávamos os pés, felizes a dar batidinhas na água. Em certo momento a mãe quis se levantar e obediente prometi que ficaria quietinha ali no mesmo lugar, conhecendo-me bem a mãe não duvidou, deixou-me à beira da inofensiva piscina e longe, somente alguns metros, me protegia com o seu olhar.

  Enquanto molhava os pés eu fazia o que mais gostava de fazer desde sempre, observava. Procurava meus irmãos, via-os corajosos, molhados, queimados de sol e vitoriosos na enorme piscina ao lado; procurava o pai e via-o concentrado no jogo, de boné, protegido do sol; a mãe tinha os olhos para todos, mas demorava-se mais em mim, filha caçula à beira da piscina; os outros frequentadores também chamavam minha atenção, vez ou outra alguma criança do meu tamanho convidava-me a pular na piscina, a brincar no parque, mas eu havia feito uma promessa e não podia quebrá-la. Sentada à beira de um reluzente tanque de água, azul, de um azul profundo, brilhante, convidativo, meus olhos se concentravam cada vez mais naquele azul. Eu amava o azul, era o que de mais bonito eu tinha visto aos quatro anos. Enfeitiçada, hipnotizada, apaixonada pelo azul eu quis tê-lo para mim e fui buscá-lo, o olhar da mãe não pode segurar a filhinha, em segundos eu estava junto do azul no fundo da piscina. Sem riscos calculados, sem permissão pedida, sem aulas de natação ou experiência, sem boias, sem saber como, uma menina no fundo de uma piscina, junto do seu azul cintilante aguardava o porvir. Certamente que eu não entendia a finitude de uma vida, por isso não tive medo da morte, mas ainda assim, percebi que algo não ia bem. Mas o medo era menor que a glória da minha conquista, não me debati, permaneci e quando talvez fosse me faltar o ar, a mãe deu-me a vida; como fariam as mães infinitamente se tivessem a oportunidade de fazê-lo. A leoa cravou as unhas na minha pele, ultrapassando o maiô e resgatou-me do azul. E acho que foi bem neste dia que descobri que a cor havia me escolhido.

  Descobri, só que bem mais tarde, que sempre, em alguma medida, me perco naquilo que mais gosto. Acho que o risco é quase universal; alguns mais, outros menos, mas diante de qualquer paixão, nos fragilizamos, ficamos frente ao perigo da perda, perda daquilo que nos afeiçoamos, perda de sentido, de segurança, perda mesmo da própria vida. Aos quatro anos eu mergulhei fundo no azul, esta estranha fascinação que me escolheu. Outras tantas, continuei olhando da borda, prevendo os perigos. O certo é que enamorar-se de algo é caminho sempre imprevisível, pode nos afogar e até matar ou, ainda que por um momento, nos eternizar. Os olhos da mãe já não podem se manter mais tão persistentes, a agilidade das mãos tampouco, assim como as unhas que hoje são curtas. Eu nunca aprendi a nadar, por outro lado, jamais me distanciei da água e o azul continua a ser minha cor favorita. Algumas coisas mudam, mas a beleza dos riscos, esta sempre acompanha quem se nega a afastar-se da beira.



2 comentários:

Anônimo disse...

Aaaaaaaah que lindo!!! ;) Paixão sempre nos torna impulsivos e deixa a razão de lado... Aiaiai!!!

Amanda M. disse...

E não é? ;)