sexta-feira, 21 de junho de 2013

Do que somos


  Mesmo quando o meu dia não parece bom, ao menos nos segundos que eu as cumprimento ele se torna; acenamos com a cabeça, ensaiamos um tímido sorriso e nos perguntamos, quase ao mesmo tempo, um sincero:  "como vai"  e logo respondemos, também sincronizadas, "tudo bem". Elas moram na bela casa que resiste a recente especulação imobiliária, que impele os antigos moradores a aceitarem boas propostas financeiras, ao custo de terem seus preciosos lares ao chão, dando lugar aos impessoais prédios, com moradores igualmente impessoais. A rua assim vai perdendo graça, jardins com anões e rosas vermelhas, vai ganhando carros, barulhos eletrônicos, a visita diária dos deliveries, gente e eletrodomésticos descartáveis. Houve um tempo em que as televisões duravam mais de uma década, naquele mesmo tempo em que as pessoas também não eram facilmente substituídas. Mas isto já faz muito tempo. O que importa é que elas resistem bravamente. 


  São irmãs, ao menos há meio século, tempo suficiente para a relação desgastar, enjoar e ir ao lixo, como tantos itens da nova rua, mas permanecem companheiras. Quando as conheci gozavam de boa saúde, humor e carregavam o mesmo ar afetuoso, acolhedor e simpático. Agora ambas se apoiam na maturidade mutiladora que enfraquece a saúde mental de uma e atinge o corpo físico da outra. Destino inusitado este que equilibra as diferenças das duas irmãs até na velhice. Mas o que o tempo não modifica são seus olhares e humor. E naquela constante receptividade me reconheço; existo mesmo nesses cumprimentos diários, distantes, mas ao mesmo tempo tão pessoais.

  Quase nunca vejo-as sozinhas, sempre uma ao lado da outra, não sei seus nomes, desconheço a história de cada uma, mas ambas despertam em mim diariamente a simpatia natural que desconhecia. Muito por timidez e um pouco pelas recepções mal sucedidas, achava mesmo que morava em mim uma antipática por natureza, que nada, os olhos da dupla me dizem sempre o contrário. E eu acredito, porque quero, porque  escolhi que assim seria e porque, definitivamente, ando cansada  dessa tendência universal que é a de limitar nossos olhares às críticas, aos preconceitos, às opiniões neutras ou negativas que os desconhecidos têm sobre nós. Porque o olhar do outro carrega consigo essa poderosa capacidade de retribuirmos somente com  aquilo que nos oferecem.

  Para as irmãs sou só sorrisos, para elas eu sou mais que um nome, eu sou um rosto feliz, independente da cor do dia, eu sou a voz interessada no estado de ambas e que insiste sempre na mesma condição de estar bem. Não importa o que eu sou para qualquer outro alguém no mundo, importa o que sou nestes segundos diários de um efusivo cumprimento. E elas, para mim, são o seu gracioso lar com jardim bem cuidado, a velha casa que resiste heroicamente a invasão cinza, fria e impessoal. A cada dia que passa sou mais elas e elas mais um pouco de mim. São dessas relações antigas demais, que cheiram à naftalina na gaveta da avó; sólidas demais, como as estruturas de uma casa velha, mas que sobrevivem discretas na esquina de uma rua, de um bairro qualquer.




4 comentários:

Carla Machado disse...

Sempre quando vejo as duas irmãs, penso que seremos elas amanhã... espero que o amanhã demore muito e ainda não me decidi se prefiro ser a louca ou a manca... tenho muitas dúvidas sobre isso... pelo menos nossa rua, na parte mais difícil, tem corrimão...

Amanda M. disse...

Se como elas formos também companheiras não importa que parte nossa estará debilitada, não? Juntas são fortes e isto basta.Rs Beijo ;)

Ana disse...

Há pessoas que por serem únicas despertam desde sempre a nossa atenção. São umas resistentes, resistem a tudo, até ao tempo!

Amanda M. disse...

;) e imagino que você seja assim também Ana...