domingo, 7 de julho de 2013

A mulher de fora

   E é simples, sabe? Mas insiste e pergunta o porquê. Sempre quer ter explicação de tudo, nem acho que
queira mesmo entender. Quando pergunta quer mesmo desafiar, propor uma reflexão ao interlocutor, testar a sabedoria alheia, no fundo, em cada pergunta está embutida a desaforada afirmação "você não sabe de nada, viu?". Não entrego os pontos, respondo metaforicamente, enigmaticamente. Não existo para explicar. Nem você, certo? Então conforme-se com um simples: 
- Porque tinha mesmo que ser deste jeito. 

  Ainda é cedo, mas já carrega um destino, será desde o berço? É possível? Você ainda não ouviu, mas eu sim e, no final, até gostei: - Você não está formatada. Significa liberdade e um preço demasiado alto. Não sei se vai gostar. Talvez goste em alguns dias e odeie por outros. Só queria que aceitasse, mas cada um tem seu próprio tempo. E e estou aqui, aceitando-a, rindo com você de cada tropeço, mas nunca me peça para chorar, não ao seu lado, porque gente como eu e você, faz ambas as coisas com tanta intensidade e tão definitivamente que o choro poderia alagar toda nossa história. Por isso eu sorrio, certo? Para não legitimar tristeza alguma.

  Gosto de você por tudo, mas especialmente pelas faltas, todas e cada uma delas. Porque seus desenhos nunca são perfeitos, porque colore com as cores imprevisíveis. Princesa de cabelo verde, sapo cor de rosa, nuvem amarela, sol preto, elefante roxo. Verdadeira artista. Porque suas bolas nunca estão na força e no tempo certo; lenta, quando necessitava ser ágil e forte, quando requisita-se leveza. Porque sua dança não acerta a coreografia e o ritmo, seus passos são próprios, inéditos, frutos da sua criação individual. Não conte a sua mãe, mas gosto muito de te ver malcriada, abusada, fazendo manha, porque carrega tanta personalidade e é deliciosamente teimosa, como um boi, um cavalo chucro, desses que a gente tenta amansar durante toda a vida, mas admira mesmo é a sua resistência em ser domado. Gosto também quando mente, porque suas mentiras são tão ingênuas, tão graciosas e delicadas, desejando bajular os mais sensíveis e desaquietar os seus iguais. E as suas histórias fantásticas, carregada nos tons, exagerando os acontecimentos, rindo dos outros e um pouco de si. Ai como eu queria que risse mais de si, acho que com o  tempo aprenderá também essa artimanha. Quem ri de si é sempre boa companhia, nunca é cansativo ou chato, quem reconhece em si toda graça do mundo, não morre de tédio, nem sozinho. 

  E você, saberá acostumar-se às faltas? Vai lhe faltar tanto, mesmo tendo tudo. Isto é o padrão. Mas você não está neles, não é? Então, as faltas vão doer mais fundo alguns dias, principalmente nas coisas menores e se surpreenderão em vê-la desabar por tão pouco. Noutros dias vai ser inesperadamente corajosa, quando todo mundo achar que não poderá suportar. Sua força está em outros lugares, nunca saberá ao certo de onde vem, mas jamais a abandonará; esteja certa disto. Será genial em alguns assuntos e estúpida em muitos outros, por isso, na maior parte do tempo, acreditará ser mediana. Mas não é. Eu sei que não. Eu te direi que não é. E você aceitará, porque além da teimosia, mora em você uma ternura tão bonita, tão disponível sempre.

  Desejará ser outra, muitas outras, todas. Mas aprenderá que você é mesma a melhor para ser. Odiará cabelo, corpo, altura, coração e escolhas. E depois se sentirá culpada por isso, mais tarde se perdoará e então esquecerá de tudo o que passou e recomeçará o maldito ciclo. Você não aprenderá com os erros, mas vai sim esquecer todos eles, um a um. Para mais tarde cometê-los de novo. Aprenderá que a vida não cabe em um livro de autoajuda, mas mesmo assim não custará em nada lê-los, não é? Vai ter conselhos bons para dar, vai falar pouco de si, vai ser boa amiga, mas vez ou outra, se cansará de tudo e prometerá fuga. Mas nunca partirá, porque tudo lhe fará falta, antes mesmo da perda. Já chorou a morte dos pais, que ainda não morreram, já chorou o fim da infância que ainda vive, já lamentou a violência que nunca sofreu. Sofre por antecipação e é feliz por tempo indeterminado. Esta será você. E como naquela música, que a Elis interpreta lindamente e que talvez um dia você também goste :" vai amar, vai sofrer, vai chorar...". E vai saber que a vida é boa deste seu jeito

  Um dia, cada vez mais próximo, chamarei você para uma conversa: - Senta aí. Pedimos um café ou qualquer outra coisa. Porque temos mais em comum do que podemos imaginar. E eu vou te contar e você saberá que nunca esteve só, nem eu. Espera mais um pouco e a gente marca nosso encontro. Enquanto isso, veja todos se formatarem e tente você também. Quer saber? Não vai conseguir, mas vai ser feliz exatamente por isto. Porque, no fundo, você já ama o que é, mesmo sem saber quem é.





4 comentários:

Sandra Fantauzzi disse...

Adorei seu texto.Muito inspirado,muito bacana.Amei.

Ana disse...

Podia dar isso daqui a uns anos a um dos meus sobrinhos!

Amanda M. disse...

Que bom! Obrigada Sandra! Beijos

Amanda M. disse...

Pensava na minha sobrinha enquanto escrevia... ;)