domingo, 29 de setembro de 2013

Do que não se quer

  Ele passava a mão delicadamente no cabelo dela e ela se afastava discretamente do afago, sentavam um ao lado do outro, mas ela mal o olhava, preferia rir com o grupo. Se ele fazia algum comentário, ela nunca sorria, permanecia séria e ignorava sucessivamente qualquer manifestação daquele que ostentava como par. Recusava bebida, confidência no ouvido, afagos nos cabelos, devolvia, sem abrir o embrulho, cada regalo ofertado por ele. Em minutos, a mulher erguia uma muralha de insensibilidade entre ela e o parceiro. E eu observadora; e eu incomodada, pouco a pouco, a odiava. Odiava a todos que no mundo não eram gratos pelo afeto ou, ao menos, claros quanto a recusa deste.

  No bar, a banda de som eclético, começa uma música antiga, alegre, ele procura nos olhos dela o mínimo de cumplicidade, parece dizer algo do tipo: - Lembra-se desta? De longe, eu tentava ler suas falas. E ela esboça um meio sorriso congelado, a fazer corar uma Monalisa, tamanho a frieza do gesto. E eu querendo que ele se levantasse, dançasse com qualquer outra ou mesmo só e depois a abandonasse, sem terminar sua cerveja, sem pagar a conta, sem levá-la para casa, sem nunca mais atender suas ligações. Ela que se ferrasse, foda-se ela!

  A música toma conta do ambiente, um clássico da música pop dos anos 90 e quando o seu grupo se anima, aí sim ela se contagia e repete a letra e uma coreografia improvisada. Enquanto ele canta, olha para ela, para sua nuca, já que ela quase nunca se vira para ele, mesmo assim ele continua com a sua manifestação individual de amor. O casal me toma e completamente afetada pela cena, bebo mais rápido, feito uma alcoólatra amargurada, sem nem ao menos me aperceber, que o que tenho no copo é tão somente água. Nada mais triste do que ver alguém se alimentando das migalhas, que o outro deixa pelo chão. 

  Eu não conheço o casal, nunca os vi anteriormente e por isso qualquer julgamento meu, seria equivocado. Todos os julgamentos, invariavelmente, são um completo desperdício de tempo e alma. Ainda assim, não consigo ignorar duas pessoas em caminhos tão opostos insistirem em um final comum. É dolorosa a humilhação dele, é igualmente dilacerante a omissão dela. Se não o quer ali, por que não diz? Por que não o dispensa da sua situação de reserva, motorista, garçom ou muleta?

  A cada minuto de amor doado e devolvido, a constatação de que as pessoas rejeitam, sobretudo, os excessos. Acostumamos com a falta, com as ausências que nos acompanham desde o nosso nascimento, porque nunca temos tudo. Os pais nos ensinam isto, a igreja, a escola. É sempre mais fácil lidar com tudo aquilo que nos é negado, porque acreditamos sempre em uma compensação: "sorte no amor, azar no jogo". Alguma carência é necessária, para termos a abundância noutro campo. O moço é o excesso que ela não acostumou-se. Excesso de zelo, olhares, afetos, memórias, gentilezas. Ele transborda e ela só deseja conte-lo, limitá-lo; fazer dele menos do que ele é. E daqui, segurando meu copo transparente, acho uma injustiça tirar o melhor de uma pessoa, que são os seus excessos. Lamento por ele  que para receber o amor que tanto deseja, só se contendo, se adequando ao modelo, escondendo-se atrás de uma figura milimetricamente decepada a contento do seu par. E por ela,  que não o abandona, não o liberta e, por isso, tantas vezes será contrariada, pelas partes dele que, vez ou outra , não poderão ser contidas.

  Antes de mim, eles saem do bar, eles se despedem dos amigos, ela é bastante afetuosa com cada um deles. Antes de sair, ele procura a sua mão e ela entrega-lhe somente a bolsa. Ele ainda abre a porta do carro para ela e antes de entrar ela troca um olhar profundo com o amado pela primeira vez na noite. Oferta-lhe um sorriso mais animador que o outro que vi e, antes de dormir, ainda penso no casal do bar. Se há esperanças? Temo que sim. A consciência súbita, o abandono passional, a descoberta do amor pelo que se é, é cena de filme, na vida daqui, as coisas me parecem mais arrastadas e equivocadas. Pobres desses dois espíritos errantes; que teimam em vestir o outro com as roupas que não lhe cabem.




6 comentários:

Anônimo disse...

Nossa, adorei! Ass: Bel. (hj li "completo", com a música tbm.)

Anônimo disse...

Achei PERFEITO!!! Preciso falar que super me identifiquei?????? E que chorei??? Rsrs... Ass: eu!

Amanda M. disse...

Haha Doida! Fazendo a "lição" direitinho...vai ganhar um "muito bem", na caderneta. Beijo ;)

Amanda M. disse...

Afff custosa e chorona?! Beijãoooo fiel escudeira!

Ana disse...

Gostei muito deste texto, identifiquei-me com ele. As vezes acho que é comodismo nosso, a moça deve ganhar coragem e acabar tudo com o moço porque pelos vistos já chegou ao ponto em que já nem suporta vê-lo... Eu passei pelo mesmo e nem era comodismo, era ele mesmo que não me largava, eu falava e ele fazia-se desentedido e relações assim podem acabar muito mal...

Amanda M. disse...

Também acho Ana. Costumam acabar mal e para ambos...por comodismo, medo de magoar, perder o que se tem...mas termina em uma maldade não calculada.