quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Do "para sempre"

  Quase nada dura infinitamente. A vida carrega em si, uma constante substituição. O ruim aparece depois de um momento bom, assim como o que é bom, um dia chega para nos salvar de um período ruim. É este o movimento próprio da vida, a impermanência; por vezes, assustadora e, outras tantas, consoladora. Sabedoria maior é nunca lutar tanto, tentar correr da dor ou se esforçar para aprisionar um contentamento. No tempo de ambos, as horas, os dias, os meses ou os anos não existem, para o movimento da inconstância só paciência, aceitação e chá. Mas ainda que a dinâmica da vida requisite finitude para cada fase, na vida, há o que se mantenha eterno, infinito, lugar onde a utopia do "para sempre" existe.

  Na casa ao lado da minha, por exemplo, existe algo assim, que dura tanto, que parece desrespeitar a lógica do "fim". Ela é uma senhora de mais de 60 anos, franzina, voz bastante aguda e com um sotaque carioca que faz cada palavra com "s" parecer mais longa, ela é simpática, sorridente e muito ativa, cuida com as mãozinhas finas que tem, do jardim da casa, limpa a calçada, mantém as hortaliças do seu quintal mais verdes do que as da feira, que frequenta religiosamente todas às quartas. Tem duas filhas, uma mora com a família na casa de cima e a outra com ela, mas a relação com a mais velha, cuja casa é em cima é das relações mais impressionantes. A filha tem cerca de 40 anos, tem um filho de 8, mas é ela quem parece ter 8, quando a mãe se aproxima. Na varanda da casa dela, muito próxima do meu quarto, eu ouço todos os dias a conversa das duas mulheres, a mãe lhe dá broncas, consola, incentiva, dá conselhos com relação a educação do filho, economia doméstica, repassa-lhe as informações dos jornais diários que ela lê e que a filha ignora. Ela é o coração, a alma, toda a personalidade de uma casa; tudo passa por ela e ela passa por tudo e todos sem, ao menos, um traço de autoridade rígida, só com a doçura e a delicadeza que lhe são tão próprias.

  De início, tal relação me incomodava, parecia uma dependência absurda e doentia, pensava na ausência da mãe e no que isto acarretaria para todos, especialmente para a filha da casa de cima. Como ela pôde se tornar tão essencial? Como ela se atreveu a dominar (é verdade que com muito encanto) uma família inteira, além da empregada, que também a admira? E, com que intenção ela, sorrateiramente, conquistou minha empatia?

  Acho que o que eu mais admiro na maternidade dela é essa infinitude, que não acaba, mesmo, diante de uma filha adulta, também exercendo seu papel de mãe; mesmo diante de uma crise psicológica da outra filha, os gritos, a vergonha, nada afasta-a. A senhora ao lado, é mais mãe do que outras, se é que se pode quantificar esse tipo de exercício. Mais do que a sua dedicação, admiro sua "duração".

  Eu admiro gente que dura, sabe? Que permanece, fica ali, resiste. Não abandona o barco, nem durante as mais assustadoras tempestades, não se acovarda, nem se vitimiza, mas segue implacável, dona de si e dos seus. Essa mãe, vai ser para sempre mãe. É maior que qualquer término, fim, abandono ou morte, é ultrapassar todos os tempos e continuar a ser. Talvez por isso, principalmente família e, eventualmente, as relações amorosas são tão estimadas, porque quando postas à prova, elas permanecem, ainda que meio feridas, fragilizadas, descompensadas, mas seguem sendo o que nasceram para ser: "para sempre". Há sim esta possibilidade, que embora frequente, por vezes, passa desapercebida. Na casa ao lado, mora a eternidade. E mora também em todas as outras casas do mundo, algumas vezes a ignoramos, em outras, ela se esconde, mas ela sempre se mostrará quando dela precisarmos. A infinitude existe, mas é preciso olhos atentos e coração disposto para que ela se revele.



2 comentários:

Ana disse...

A infinitude dá muito trabalho, exige muito esforço e nem toda a gente está para ter tanto trabalho, mais vale deixar correr, deixar a vida separar as pessoas, uma familia assim dá muito trabalho e é rara.

Amanda M. disse...

Sim, concordo, dá muito trabalho...mas é bonito ver relações assim...