sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Uma segunda chance não é primeira

 "O que a gente pode fazer é dar crédito ou não à pessoa. Frequentemente não vale a pena. Frequentemente, vale". (Caio Fernando Abreu)

  Mas é claro que eu acho que as pessoas merecem uma segunda chance. Sem sombra de dúvidas, merecem. Uma segunda chance deveria ser tão incontestável, quanto uma primeira. Quem não deseja o conforto de um limite mais ampliado para a possibilidade do erro? Porque, de fato, frequentemente não queremos mesmo errar, mas e se? Viver em um mundo pragmático, cuja justiça implacável nos ceifa uma segunda oportunidade, sem direito a defesa, sem desculpas, sem remissão, sem qualquer chance do erro ser perdoado, superado é, no mínimo, triste. Mas, depois da dura realidade de uma decepção, sobram fatos, lágrimas e a severidade da constatação: uma segunda chance não é primeira.

  Às primeiras chances dá-se o crédito do ineditismo, da ignorância dos começos, do desconhecimento do outro, da novidade de uma relação. E, por isso, é leve, é doce e, tantas vezes, lúdica. Não há compromisso algum, sem expectativas, nem idealizações. Uma primeira chance é a folha em branco, sem indicação prévia do que se fazer com ela; faça o que quiser: desenhe, escreva, recorte, faça dobraduras. Já com as segundas, não.

  As segundas chances já nascem maculadas, trazem com elas o peso da desconfiança, do medo da repetição do erro, da noção de uma proximidade do limite, porque agora, com todas as oportunidades gastas, só resta acertar, andar na linha e sentir-se grato. Quem suportará a pressão da segunda chance? Acho que poucos, muito poucos. Na verdade, só quem mereceu mesmo. Quem a oferta, poderá viver sob uma névoa de desconfiança, às vezes, mais diluída, outras, muito espessa; e o beneficiário terá que aprender a conviver com a culpa de um primeiro deslize. Porque uma segunda chance é artigo de muito valor, mas usado e, por isso, carrega consigo  histórias,  nódoas, rachaduras. Quem estará, verdadeiramente, disposto a pagar o real valor de uma segunda chance?

  Para uma segunda oportunidade é necessário bem mais que amor, é preciso que se tenha, sobretudo, fé. Mais que acreditar em um relacionamento, ter fé na humanidade em geral. Desejar que o outro cresça, aprenda, amadureça, se sensibilize com a dor alheia, aprenda a ver a vida por outras janelas, além da sua própria. Quem perdoa, quase sempre, é um sonhador. Quer que o mundo seja um lugar melhor, que as pessoas sejam mais éticas, generosas e sinceras. E por isso, oferece a oportunidade da remissão. Mas nem sempre quem recebe o benefício deseja mudança e, para isso, também deve-se estar preparado (apesar de nunca estarmos, é verdade).

  Porque há os que querem somente continuar sendo amados, usufruindo de um bom relacionamento, sem punição alguma pela decepção causada. Continuam infantis, egoístas, imorais e individualistas, seguindo para o caminho irremediável do descarte da segunda chance. Decepcionando quem perdoou, enchendo de razão aos que advertiram, amigos ou o próprio inconsciente (- Eu te falei!). Há quem não mereça sequer um olhar nosso, mas oferecemos-lhe mãos, coração e chances, repetidas chances de caberem em um ideal nosso. Culpa nossa. Nem todos cabem, nem todos querem caber. Muitos, ao longo da vida, recebem os ajustes devidos e se encaixam, outros se prendem a nós, mesmo desajustados, por força do muito querer, mas há um terceiro grupo, cujos sujeitos já nascem definidos, permanentes e imutáveis, a estes, segundas, terceiras ou quartas chances terão sempre o mesmo valor: nenhum.

  E é isto: todos merecemos uma segunda chance, por outro lado, nem todos merecemos uma segunda chance. Eu avisei que era difícil, não avisei?









2 comentários:

Ana disse...

Sou apologiata das segundas oportunidades e estou a aprender a dá-las com o tempo, sou muito exigente emocionalmente com os outros, como sou comigo, uma coisa que também ando a tentar mudar em mim. Mas as segundas oportunidades que fui dando até hoje só me provaram que não se devem dar segundas oportunidades, normalmente já está tudo muito destruído e nem toda a gente consegue corrigir comportamentos, fazer cedências... mas continuo a persistir nas segundas oportunidades, afinal, sou uma optimista.
beijo

Amanda M. disse...

Pois então, aí está toda a dificuldade: queremos ser otimistas e buscamos ofertar novas chances, mas vem nosso próprio histórico e nos alerta de que é melhor não. Vai saber...rs