sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Ao filho que não veio

  Saio do elevador, atravesso a porta de vidro, a sala de espera é grande e está lotada, um homem me abre a porta por gentileza, agradeço a amabilidade masculina, mal entro e já recebo uma lufada de ar frio, gelado, quase paralisante, agradeço a modernidade do ar-condicionado, meu objeto favorito, nesses últimos dias, retiro minha senha para atendimento na máquina, não há qualquer preferência para mim: meu caso não é urgente, não tenho menos de 12 anos, nem mais de 60, não tenho dificuldade de locomoção, não sou cliente "ouro", nem estou grávida. Para mim, aqui, não há preferência de tipo algum.

  Procuro um assento vazio e encontro um, logo abaixo da TV, próximo das persianas inquietas e ao lado do banheiro, não há lugar pior, penso, na concorrida sala de espera. A sala repleta de mulheres de todos os tipos, abriga apenas três tímidos homens, mas valentes e orgulhos, iminentes pais que vêm conhecer o rosto de seus futuros filhos. Quase ninguém presta atenção no programa matinal da TV, do meu assento eu só escuto a receita de um prato, que até me interessa, mas nunca farei, eu quase nunca faço os pratos da TV, ainda que sonhe um dia ser também Julia Child. Tenho como compromisso futuro ser Julia Child e o futuro a cada passo meu, afasta-se dois ou três, os futuros são feitos disso, de fuga constante do seu dono.

  Mulheres exibem suas barrigas redondas, algumas ainda bem pequenas, mas já ostentadas com orgulho, os pais brilham tanto quanto as donas das barrigas; algumas barrigas só tem suas donas e nem por isso são menos alegres e exultantes; mulheres mais maduras aconselham as mais jovens ou as mais grávidas, uma delas terá trigêmeos e é a atração da sala: duas meninas e um menino. - Pobre menino! Falam de nomes escolhidos, experiências maternas anteriores, medo da estreia, se planejaram ou se foi no susto. Falam, falam e falam. Começo a confundir as histórias, a leitura no meu livro não avança, guardo-o e vou até o banheiro.

  Volto e percebo que o meu número foi chamado e o meu lugar ocupado, uma ida ao banheiro e perco duas grandes coisas; metáfora da vida. Vou até o guichê e explico que estava no banheiro, aguardo alguns segundos e sou atendida, tenho outro número, fui promovida a um próximo passo. Agora é só aguardar o médico me chamar. Encontro outro assento e é melhor que o anterior, estou de frente para a TV,  perto do filtro de água, da garrafa de  café e do pote de biscoitos, que a cada dois minutos duas crianças, parecem irmãos, enfiam as mãozinhas e seguram todos os biscoitos, até elegerem o seu favorito; é por isso que não como nesses consultórios.

  Sento-me ao lado de três mulheres, uma bastante jovem, não parece ter mais de vinte anos e as outras duas mais velhas, a irmã da jovem e a mãe. As três bastante abatidas. As três caladas, discretas, quase tristes, destoam da sala barulhenta. Alguns minutos depois e conheço a história do trio: a moça frágil traz no ventre jovem um filho sem vida.  E a jovem mãe é a todo tempo consolada pelas mulheres da sua família, unidas compartilham da dor da morte, um trio de luto. As mulheres mais velhas buscam a todo tempo consolá-la, confortá-la, segurá-la firme, são mulheres-raízes, que sustentam a jovem mãe, prestes a desabar. Não demora muito e o seu gritinho fino é ouvido do outro lado da sala. As mulheres-raízes seguram-na com força, a sala inteira silencia, algumas mulheres se aproximam, levanto-me e encho um copo com água até transbordar, não tenho sede, tenho pena e dor; ofereço o copo com água para jovem desconsolada, ela levanta a cabeça, olha profundamente nos meus olhos e acho que descobre a minha dor, molha a roupa, o peito, com a minha água em excesso, aperta firme o copo de plástico e derruba mais água , agora, por um excesso seu, vira-o e em uma golada rápida, derrama toda minha oferta na boca. Mais calma recosta no banco, enquanto as mulheres fortes de sua família expõem sua dor para as curiosas da sala de espera. Aos poucos os consolos se proliferam e mães  que tiveram os filhos nos braços, que os viram crescer, receberam seus trabalhinhos no final do ano, que exibem-nos orgulhosas em seus colares, bonequinhos que representam cada um, forçam entendimento e empatia, por uma dor que nunca sentiram, de fato, e que por isso, são tão gratas. E, ali, na sala,  eu que nunca fui mãe compartilhava da dor silenciosa da jovem que perdera o filho. Porque sei o que é desejar, planejar viver um sonho bonito e ele não vir. É claro que qualquer mulher naquela sala também já vivenciou isso, mas escolheram esquecer da dor de uma não-chegada, para só terem pena.

  E foi quando eu entreguei o copo nas mãos trêmulas de uma mãe inconsolável e ela me olhou nos olhos, que eu quase senti as mãozinhas gordas de um bebê tocando o meu rosto e logo desaparecendo; os olhos brilhantes do amor que nunca veio.
Querida, sim, você terá muitos outros filhos, mas essa perda você também terá de aprender a acolher, o seu primeiro filho faltou à comemoração, mas ele sempre existirá, eu acho. Mas um dia será, sim, bem menos doloroso.

  Desculpe-me quase-mãe, se eu não fui capaz de consolá-la tanto quanto merecia, mas, agora, ninguém poderá fazê-lo, talvez nunca poderão. Ofereço o texto ao seu filho que não veio e a todos os filhos amados que nunca puderam vir. Ofereço a quem um dia grávida de um futuro, o viu interrompido, adulterado, assaltado e morto pelo destino. Uma gravidez que não vinga, diria minha avó, tem dor maior que qualquer parto. O médico chama meu nome, levanto-me um pouco de luto, ao longo do corredor frio lamento pelos filhos que não tive e pelos que não terei. Talvez, todos nós sejamos, um pouco, mães de filhos que nunca chegaram. E o consolo é saber que a dor, um dia, fica bem menor ou menos aparente.



6 comentários:

Débora Rapacci disse...

Guria... Tu escreve muito!
Eu e minha mãe acompanhamos teu blog e acredite, ela que me recomendou!
Leio quase todos os dias, e teus textos me ajudam tanto.
Parabéns pelo blog, sucesso!

Amanda M. disse...

Uiiii...que ótimo que gostam! Obrigada pela companhia e por "avisarem" que passeiam por este humilde blog...que bom que as palavras daqui ajudam alguém além de mim...

PS: Beijo na mãe! ;)

Ana disse...

uma dor que nem imagino como seja... texto bonito. beijos

Amanda M. disse...

Gracias! ;)

Adriana disse...

Lindo texto.

Amanda Machado disse...

Obrigada! ;)