sábado, 15 de março de 2014

O cheiro deles

  As memórias são as gavetas cravadas na eternidade; nada se despede definitivamente, tudo é só intervalo. Uma música, um tom de voz, uma frase, um déjà vu e, de repente, uma história adormecida, um amigo sumido, um amor acabado saltam da gaveta, atravessam o escuro, o vazio, o definitivo e se postam diante de nós. Quando tudo parece enterrado, está mesmo só guardado, muito bem escondido e, ao mesmo tempo, muito acessível; não há como detê-los de virem à tona, quando lhe aprouverem. Neste ponto sou como os cães, minha sensibilidade está diretamente entrelaçada ao olfato. Mais que música, voz, jeitos, são os cheiros que me abrem as gavetas mais profundas.

  O primeiro da semana foi  o alecrim, o inconfundível cheiro doce, pequena haste, aroma agudo; o regalo da casa vizinha invadiu o apartamento, perfumou os cômodos, deu sabor às refeições e trouxe cenas maravilhosas e visitantes muito distantes. O apartamento pareceu grande para, de repente, abrigar tanta gente e história. Nada foi perdido, bastou o cheiro inesquecível, para despertar o que há muito descansava, o que há muito, parecia definitivamente enterrado.

  Já pelo meio da semana, sinto que o pai começa agora a ter o mesmo cheiro do meu avô, o pai dele, tive saudade, achei bonito e lembrei da mesma sensação de meses atrás, quando senti em minha sobrinha, o mesmo cheiro do meu irmão, quando tinha nove anos, pai dela. E, pelo cheiro, meu irmão mais velho voltou aos nove anos, por alguns segundos. Os aromas fizeram meu avô e meu irmão pequeno, saltarem do seu descanso mais bonito e me abraçarem de novo; os cheiros continuam e essa era uma herança que eu não tinha ainda me dado conta. Mais uma dívida para minha lista: ter meu cheiro continuado noutra pessoa.

  Os cheiros também continuam, para além das coisas. Em dezembro, sinto o cheiro da chuva, mesmo quando ela não vem; nos inícios de semestre, os cheiros vêm dos livros novos, do papel em branco, da madeira recém-apontada dos lápis; aos domingos, o cheiro é de jornal, mesmo que aqui, não se compre mais jornais aos domingos, pela manhã, o café recém coado que desperta o meu sono, ainda que eu não tenha feito café e do leite com nata, mesmo que agora só consuma os desnatados, de caixinha.

  E por um cheiro, o apartamento se torna, por alguns segundos, um lugar repleto de gentes, fatos, pequenas histórias alinhavadas por aromas. Trazem o avô, no pai, o irmão, na sobrinha, contam a história de heranças, falam de permanência e despedidas simuladas, intervalos em gavetas; possibilidades de revisitas. E por um cheiro tanta coisa a ser feita, recordações que mereciam serem guardadas com mais cerimônias e delicadezas. Por um cheiro, sou mais cão, do que gente; mais instinto e menos razão. As despedidas não são definitivas, as histórias não acabam nos fins. De definitivo, por aqui, só os cheiros e as memórias deles.



2 comentários:

Ana disse...

o tempo tem essa coisa de nos fazer esquecer as caras das pessoas, nunca te aconteceu quereres lembrar-te de alguém e não consegues ver a cara da pessoa nítida?, mas não apaga os cheiros, as sensações, e do nada lá nos vem alguma coisa à memória.

Amanda M. disse...

Sim, é verdade, eventualmente os rostos somem da minha memória, mas os cheiros parecem permanecer...bom poder guardar algo.