domingo, 20 de abril de 2014

Depois do fim

  Há sempre algo depois de cada coisa. Nada acaba depois do fim, na verdade, muito se começa depois de um término. Os fins são linhas temporais imaginadas, a pretexto de organização. Uma relação não acaba, modifica invariavelmente quem fica e quem vai, depois, vira outra coisa; um trabalho transforma-se em existência, depois de seu término, continua sozinho, ovelha desgarrada, saída pelo mundo afora; uma vida, quando acabada, se perpetua em outras vidas, pessoas, coisas, memória, saudade. Acabado algo, não decreta-se descanso, mas nascimento de nova coisa: jornadas árduas, inícios desacostumados, sem intimidade, vida renascida, sem morte de fato. 
  Tudo segue continuamente, sem descanso, sem domingos, feriados, sem recessos, sem "depois do expediente", sem rede na varanda ou sesta depois do almoço. A engrenagem  nunca cessa, equilibra-se na continuidade.

  E depois da festa, recolher copos com restos de bebida quente, limpar cinzeiros, desesperar-se pelo tapete precioso, maculado, retirar manchas dos móveis, tentar achar lugar na pia para mais louça, alegria acumulada em sacos de lixo, desculpar-se com vizinhos, organizar o silêncio, depois da balbúrdia, retomar cada cena assistida: os embaraços, submersos em álcool; as boas surpresas; os desconhecidos, trazidos por sabe lá quem. A música favorita, repetida cinco vezes, durante toda noite, ecoando na cabeça ainda letárgica. Acabada a comemoração, a vida de todos os dias, esquecida, não celebrada, de volta; roupas sem brilho, maquiagem pastel.

  Depois da última mala, levada ao elevador, a porta fechada, a vida sem o ombro constante, o alívio, o nó na garganta, finalmente liberto, escorrendo em lágrimas e saltando em soluços, um corpo entregue ao sofá, que ainda resta. Ao que fica, é preciso abrir as persianas, dar comida para o gato, aguar a planta, pegar a revista na portaria, atender ao telefone, conversar com o síndico; para quem vai, se apresentar ao novo síndico, descobrir a padaria mais próxima, consertar a torneira que pinga. E para ambos: a vida ímpar, sem dois. Do fim, o começo.

  Enterrado seu morto, o luto que acompanha anos e ninguém mais vê, a sala vazia, os dias da semana devolvidos, sem presença, sem a voz que chamava pelo seu nome: o desejo latente de ouvir o seu nome, naquela voz. A piada que ninguém conhece, o restaurante que você não lembra o nome e ele sabia, a memória agora precisa estar mais larga, não há com quem combinar: "- Eu guardo o primeiro nome e você o segundo". Eu sempre me esquecia do primeiro, precavido, ele se lembrava dos dois, mas fingia esforço para recuperar a memória, por cavalheirismo. É preciso continuar o caminho, sem o cavaleiro andante, a triste figura precisa aprender a decorar os dois nomes agora.

  A  lua, hoje, teimou em continuar pela manhã, já passavam das nove horas e ela não se recolhia, mesmo com o sol a pino, ela continuava, trazia uma noite, ainda pela manhã, porque nada termina, o dia de ontem, ainda coube em um instante de hoje. Afinal, sempre continua. Não vê? Continuamos ontem, hoje, daqui a pouco, agora, amanhã. Depois do fim, há vida, outras tantas que nunca cessam. Vida é continuação, para isto não existe fim. Cabe a quem anda, renascer em cada curva. A festa de ontem que acabou e outras tantas a serem começadas.




4 comentários:

Pauliane Godoy disse...

Muito bom! Adorei e esse vídeo do filme é muito massa!

Amanda M. disse...

Obrigada Pauli! A música eu já conhecia, mas o vídeo eu o conheci a através de você...também amei! Beijão

Ana disse...

Costuma-se de dizer que se é o fim, acabou, não se pode viver feliz para sempre sendo o fim:) normalmente o fim de algo é o inicio de outro algo, mais libertador ou mais sofredor...

Amanda M. disse...

;)