sexta-feira, 18 de abril de 2014

Desimportantes

  Quanto mais ignorado, mais pleno. Nada é mais libertador do que a desimportância. Um homem de calça jeans passa ao lado e ele é comum, não tem  aura alguma de celebridade, tampouco a postura dos vaidosos, veste calça jeans, uma camiseta de malha barata e chinelos de borracha. Ultrapasso um homem comum na rua e ele não se incomoda, não se rebaixa, não entra na competição, não se afeta com os meus passos mais rápidos que os dele. Os cabelos do homem não estão em um corte da moda, sem pastas, nem óleos, o cabelo é opaco, brilham menos que os pelos do braço; isso, o homem da rua não se entregou ao costume atual da depilação. 

  Ele anda leve, invisível por entre transeuntes  vaidosos, cheirosos, bem penteados, vestidos nos seus ternos de corte ruim - sei disto, porque sou filha de costureira, identifico cortes ruins de muito longe - com seus carros, cargos e círculos sociais importantes, com foto ou notinhas na coluna do jornal mais conhecido da cidade e no meio deles, um homem completamente comum, ordinário, simples. O homem mais desimportante da cidade, de repente, rouba-me a atenção, faz meu coração e olhos voltarem para sua invisibilidade e aos poucos, sem nenhum olhar, me convence da felicidade libertadora da desimportância.

  Um homem anda pela rua de mãos dadas com a sua assombrosa banalidade e me impressiona, me tira do chão, mexe com aquilo que tenho de mais importante e que, de algum modo, compartilhamos: nossa vaidade em sermos ignorados, não-visíveis. O desimportante é feliz, porque não decepciona, seus atrasos não incomodam, suas ausências pouco ou nada são sentidas, seu descompromisso é lema, obedecido obstinadamente. Seus problemas são pequenos, proporcionais ao tamanho da sua própria desimportância, basta uma noite bem dormida, um banho demorado no chuveiro morno e os problemas que não são resolvidos em sonho ou diluídos em água corrente, se resolvem sozinhos, mais a frente. O homem sem importância pode sempre adiar, sem culpa, porque ninguém observa ou cobra; o homem desimportante não tem gastrite ou úlceras nervosas, talvez morra de velho em algum canto da cidade.

  O homem de jeans, camiseta e chinelos sempre tem tempo, não agenda, não marca, mas aparece sempre que solicitado - quase nunca é - tem paciência com o que emperra, com o que não funciona ou quebra antes do tempo, com a pasta de dentes que acabou e ele não viu, com o fogão que vaza gás, com a toalha presa na máquina de lavar, com a faxineira que nunca aparece, com a moça que nunca entende e, por isso, ele sempre retoma com mais cuidado a explicação. O homem sem importância sabe rir como ninguém dos seus fracassos comezinhos, de quem é atrapalhado, desengonçado, deselegante e quase sempre sem dinheiro.

  O desimportante aproveita cada segundo da sua trivialidade como um milionário no seu iate, se exibindo, se fartando da própria imagem, mais daquilo que os outros veem, do que daquilo que é; mas o desimportante gosta de ser captado pelas lentes, como um coadjuvante, peça de composição de uma cena, nunca protagonista.

  Vejo um homem desimportante na rua e reconheço nossas alegrias, eu amo esse homem e a sua vida desimportante de quem não tem urgência, nem prioridade. De quem enfrenta filas, espera e desinteresse. Eu o amo, porque ele compra uma dúzia de ovos no mercado e se quebram três, antes de chegar em casa, quando for guardá-los talvez quebre o quarto e ele não se inflamará de ódio, raiva ou qualquer equivalente: - Afinal, são só ovos! Ele guardará as compras nos armários da cozinha minúscula, ligará a televisão,  enquanto prepara um café cheio de açúcar e comerá o seu pão com glúten da padaria mais barata, lambuzado da margarina, que agora passa no comercial que ele assiste. Enquanto as pessoas do comercial da margarina sorriem, ele vê a desordem da casa, que a faxineira não limpa há dias, o cheiro de gás que vem da cozinha, as contas que se acumulam na mesinha e sorri satisfeito da sua desimportância feliz.

  O homem que vi invisível na rua e não me sai da cabeça. 

  Talvez somemos nossas desimportâncias e seremos bem felizes, discreta e ordinariamente felizes. Sem prêmios, sem nomes, sem referências, sem homenagens; só dois desimportantes, dois ordinários. A vida desimportante e a beleza de ser nada. Se todos soubessem o que se passa aqui ou no apartamento banal do centro, não haveria tanta competição, amargura ou vaidade. É na desimportância que mora toda a profundidade de um homem. 




3 comentários:

Maria disse...

Excelente texto!
Hoje passo especialmente para desejar uma Páscoa Feliz com Paz e Amor!!!
Bjs
Maria

Amanda M. disse...

Obrigada, Maria! Uma ótima data para você também! Beijos

Ana disse...

É na desimportância que está a nossa essencia, quando chegamos a casa e nos pomos à vontade, sem necessidade de fazermos o nosso teatro para os outros, sem aquele de termos de ser o que os outros esperam de nós, aí somos genuínos, e é tão bom ser genuíno, natural, sem mais nada do que nós e a consciência da nossa perenidade.