terça-feira, 25 de novembro de 2014

Se não vier amanhã

  E só porque soube da possibilidade da tua visita, no dia antes de amanhã vou ao centro. Talvez compre flores, não muitas, porque quero que elas pareçam que sempre estiveram ali, sabe? Sem cerimônia. Talvez compre alguns enfeites para a casa, despretensiosos também, cuja novidade só eu serei capaz de reconhecer.  E brincos, um par, não compro vestido, para não criar muita expectativa, colocar uma carga muito pesada nessa espera; o brinco já é de peso suficiente. E sabe como é, até hospitalidade tem limite, senão a acolhida sufoca o visitante. Compro um vinho também, não gasto com o mais caro, mas o mais barato também não ofereço. 

  No dia antes de amanhã, vou ao supermercado buscar alguns ingredientes para preparar um banquete, que nunca sai como eu gostaria, porque sou ruim para pratos "de verdade"; meu talento culinário é limitado aos antepastos e sobremesas; não tenho a profundidade na cozinha, sou supérflua mesmo. Talvez, enquanto estiver no centro, encontre com uma ou duas pessoas conhecidas, que me digam que pareço mais sorridente, mais feliz e talvez eu pareça mais alegre mesmo, mas digo que não é nada demais, especial ou coisa assim; não falar da possibilidade de visita é importante, contar incertezas quase sempre não me parece muito bom. Guardo o segredo junto com o troco das compras e cantarolando subo a rua de casa.

  Depois, acho que também vou ao apartamento de cima e peço para não colocarem o carro na minha vaga na garagem no dia seguinte; vou até a portaria e deixo seu nome na lista de permissões de entrada para evitar a possibilidade de qualquer mal entendido. Não que eu esteja muito preocupada, mas precauções mínimas não me custam. Limpo as janelas e organizo os livros na estante, que há muito tenho só empilhado. Troco a lâmpada do corredor, queimada há uma semana e aproveito e chamo o zelador para ver o vazamento da varanda, talvez seja coisa simples, reparo que só dure algumas horas, enquanto ele ajeita, podo os bonsais, que andam um pouco descuidados.

  No dia antes de amanhã, cumpro com as pequenas obrigações caseiras, fico mais alegre, coloco música alta, sorrio mais a estranhos na rua, esqueço por algum tempo, ao menos, de quem desistiu de chegar e de quem nunca veio, tudo isto só para  comemorar uma possibilidade de presença. Sem certeza em contrato, em palavra de honra, só alguém que disse que talvez chegasse. 

  E se você não vier, meu dia antes de amanhã não será perdido.Terá valido a pena. As esperas decoram a vida da gente e quase escondem as ausências com as quais nunca nos acostumamos de fato. Se não vier amanhã, eu não morro. Tenho casa cercada de flores, enfeites novos, bonsais cuidados, livros em ordem, lâmpada trocada, vidraça limpa, uma vaga na garagem livre, brincos e um vinho que não é barato. Se não vier amanhã, estou ocupada demais com dia antes de amanhã para me preocupar com uma  não-visita. Meu tempo de espera já é alguma coisa parecida com felicidade; se já não for a própria felicidade. Nunca se sabe sobre o dia depois de hoje; de certeza mesmo é só esse hoje.



2 comentários:

Alan Rodrigues disse...

Parabéns!
Obrigado por compartilhar tão boa leitura!

Amanda M. disse...

Muito obrigada Alan! Fico contente que tenha gostado...grata pelo comentário! ;)