quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Não saber esperar

  E não há o que ser feito. Tenta-se maturidade, bons pensamentos, meditação, medicação, terapia até, para aquilo que não é doença; é jeito de vida. A espera é para bem poucos e, no fim, acaba por ser maior do que o alcançado. 
  Enquanto, pela manhã, fugia da novidade marcada, do outro lado da rua, o homem do mercadinho lavava a calçada para o novo que apontava, é um jeito de espera, uma arrumação de terreno, um ritual pequeníssimo, mas cheio de importância. Na porta do mesmo mercadinho, ervas, sal grosso, velas e incenso na banca, lugar da mercadoria eventual, a superstição faz parte de algumas chegadas anunciadas. Antes das nove da manhã, o salão de beleza do bairro já  abarrotado, mulheres pintavam as unhas de dourado, vermelho ou branco, imobilizavam seus novos ondulados com ar quente e muito spray, espera esteticamente planejada. Em frente ao restaurante, pelo qual  passo rápida,  o gerente me cumprimenta burocrático, enquanto ao telefone, solicita mais bebidas - o estoque está baixo - é a frase que aponta para a nossa despedida. A espera dura mais que o milésimo de segundo da chegada.
     
  Esperam pelo dia seguinte, pela próxima ligação, pelo nascer do sol do outro dia, pela despedida dele no horizonte no final deste, pela palavra certa na mensagem, pela hora da mensagem. Pelo dia do carteiro, pelo momento do juízo final, pelo parto com hora marcada, pela recompensa de cada sacrifício empenhado, pelo cumprimento das promessas ouvidas, pela comida ainda quente no prato servido à mesa, pelo anúncio da boa nova, pela  música pedida na boate - dança certa - pela data, pelo dia, pelo início marcado no calendário ou relógio. Esperam ansiosos ou pacientes, em rituais públicos ou disfarçados, esperam outra coisa que não esta e pouco percebem o desprezo atual por aquilo que também já foi espera.

  Não saber esperar é arte. É tomar tapas na mão da cozinheira que não quer sua comida incompleta degustada; é queimar a boca depois de lançar-se à panela ainda no fogão. É olhar para para o céu do jeito que está, sem sol chegando ou indo embora; é fazer a ligação hoje ou desistir definitivamente de recebê-la neste segundo, enviar a mensagem com a palavra incerta, descuidar da vinda do carteiro, desacreditar em juízo único marcado, confiar em nascimento natural, empenhar-se no que acredita, só por acreditar. É esquecer as promessas alheias e lembrar-se, sempre, das próprias, dançar todas as músicas e ritualizar o próprio acontecimento e não a sua chegada.

  Os que não sabem esperar sabem que o grito não tem que aguardar pelo estouro da rolha na garrafa, que a mão não pode esperar pelo sim que demora, porque tem que ser agora e, de um jeito ou outro, acaba sendo. Sabem que se não forem chamados neste instante, seguirão sem chamado, porque não cabem, não concebem, não conhecem fila de espera. E a espera, quase nunca, conhece a realização possível, porque aguarda cega por uma invenção que nunca chegará.






2 comentários:

Ana Martins disse...

Amanda eu admito que sou muito má a esperar, tenho sempre esta coisa que me persegue e que me diz que o amanhã não pode nunca chegar, o que posso faço, raramente espero por alguém e vou eu à frente, sou muito impulsiva e é mais forte do que eu. nas esperas das filas, coisa a que não conseguimos fugir, valem-me sempre os livros que trago comigo, que me dão cabo das costas mas salvam-me destas esperas desesperantes.
desejo-te um 2015 maravilhoso.
beijinhos

Amanda M. disse...

Que bem faz, Ana! Ótimo ano para você também. :)