sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Em nome da filha

  Um nó. No meio do emaranhado de fios frágeis, maleáveis e, aparentemente, fáceis - no centro dele, o desafio do nó. Colocamos a confusão de linhas no colo, minuciosamente analisamos, vamos desfazendo com paciência e cuidado cada entrelaçamento, descobrindo caminhos, buscando a continuação de um fio por vez, ora afrouxando, ora ajustando como cordas de um instrumento importante, afinando, construindo uma obra cujo final é o começo: fios soltos, separados, cada qual no seu lugar. Por vezes, o nó permanece, quando misteriosamente não aumenta, se aperta e torna-se uma confusão frustrante, com inícios e finais de linhas indistintos. As relações humanas são fios; são emaranhados e, frequentemente, nós perdidos.

  Penso nas linhas e no poder aniquilador dos nós, quando numa rápida visita ao shopping da  cidade, assisto a uma cena aterradora. Uma mãe, passeando com duas filhas adultas, reencontra uma antiga conhecida e a cumprimenta, conversam sobre pequenas amenidades, acho, e a mãe apresenta suas filhas. Quando a mulher aponta para uma das filhas e diz: - Esta é a sua cara! A mãe, sem nem pensar, sem se dar conta do gesto, ou talvez tendo-o calculado muito mal, contraria: - Com esta? Deveria ser a outra.

  O gelo, o fogo ou as águas muito profundas invadem aquele microcosmo tão ordinário e também singular. Um torpor, um prenúncio de recomeço de guerra se instala próximo a escada rolante. A mãe é alvejada de todos os lados, pela conhecida, pela filha preterida, pela outra valorizada e por quem assistisse a cena. Uma mãe renegar um filho tão publicamente não é perdoável, quase nunca. Sem terem mais o que dizerem, sem possibilidade de outras palavras, as conhecidas se despedem, deixando vulneráveis um trio, cada uma com suas armas para o conflito. Daqui, do lugar onde as vejo, não sei julgar o estado de cada uma, mas todas correm algum perigo, depois da fatídica fala. Não consigo caminhar com elas, por isso não vejo o desfecho, mas os rostos das três mulheres colam em algum lugar em mim.

  Não odeio a mãe, não acho-a desprovida de sentimentos maternais ou outros, não conheço a sua relação com a filhas, tampouco o fio que as levou até este emaranhado, mas suspeito que ao desejar negar a semelhança com a filha não tenha nada a ver com a moça e sim com ela mesma. Uma negação de si e não da outra. Numa tentativa desesperada de quebrar o espelho para, quem sabe assim, liquidar a imagem nele refletida. A maternidade é das relações mais poderosas e aniquiladoras de que eu tenho notícia. Nada é mais definitivo numa existência do que a relação entre a mãe e seu filho. Mesmo a ausência de uma mãe é um tipo poderoso de impacto na vida de um filho.

  Dou uma volta no shopping, cumpro com as tarefas as quais tinha me proposto e antes de sair, vejo as três num laço elegante, delicado, sem aparência de guerra, conflito ou rancor; não sei se superados ou reservados para outra data, lugar e testemunhas. Daqui do lugar onde as vejo, contemplo a semelhança brutal entre a mãe e a filha rejeitada.

  A filha em questão terá o castigo de ser exatamente espelho daquilo que mais deseja afastar-lhe ou a preciosa oportunidade de, a partir da dor experimentada, não temer a herança ou aparente semelhança, mas negá-la em cada gesto e direção tomada, não por teimosia, mas por conhecer a sensação de ser esmagada por quem devia ter o amor mais doce e, muitas vezes quem sabe, perdoar a quem lhe fere por amor e medo. Na desistência nossa de cada dia, um nó não pode ser mais poderoso do que as mãos que o desfazem. O laço das três é bonito; entre  mãe e filha negada vejo nós profundos, que com trabalho e jeito poderão ser desfeitos ou, ao menos, mais arejados.  

  A maternidade é dura e também bonita; o amor é um fio longo, que carrega consigo outras linhas tantas, que, por vezes, acabam por ocultá-lo, só os dedos ágeis para descobri-lo no novelo. É preciso afastar as armas e se aproximar com a delicadeza toda de um universo para resgatá-lo da confusão. Filha, não desista. Sua mãe não é você e ela te ama, só não sabe ou não sabe amar. É preciso perdoar os ignorantes do amor, eles não sabem  justamente sobre aquilo do que mais carecem.



2 comentários:

Ana Martins disse...

das coisas que mais confusão me faz - e com a devida nota de que não sou mãe - é aquele amor por imposição sanguinea, a chamada ditadura do sangue, acho que amor se conquista e nem todas as relações maternais que conheço são de amor incondicional. coisa complicada.
beijo

Amanda M. disse...

Sim. Complicadíssima, Ana! ;)
Beijo