domingo, 1 de fevereiro de 2015

São dois

  Formam um casal há quatro décadas, vivem sob o mesmo teto, dividem cama, quarto e vida há quase meio século. Os números parecem demasiado grandes à primeira vista, dizem. Mas somente eles não me emocionam, assim soltos, assim só pelo tempo que tentam limitar. Dependendo das condições, um tempo destes, numa mesma relação, poderia ser prisão, castigo ou destino conformado. Por isso, abro mão do tempo contado e tento entender o casal por uma perspectiva outra, que não seja a desgastada referência temporal.

  Não me arrisco a compreender a dinâmica deles, porque surpreendem, não se enquadram em receitas destas que publicam por aí. Não se complementam, não acho que suas diferenças trazem algum tipo de equilíbrio, pelo contrário, desequilibram todos os dias e discordam sem mágoas mais profundas. Aprenderam a ser dois, em um tipo de relação que tantas vezes, carrega a impressão de que o certo é que sejam um. São dois seres díspares, de vontades e opiniões muito pessoais, convivem com intimidade há tanto tempo e em quase nada se parecem. Nem da mesma língua compartilham. Se ele fala "A", ela escuta um "B" muitíssimo claro. São praticamente incomunicáveis, ininteligíveis um ao outro e, distintos, seguem juntos num caminho de surpreendente cumplicidade. 

  Por isso, os números não me tocam, nem as possíveis receitas de felicidade, os conselhos, as fotos posadas do casal ou uma edição guardada na estante da sala, de capa dura, vermelha, de 1970 do livro "Felicidade Conjugal" - que eles nunca leram. Valiosa mesmo, nesta relação entre dois comuns, é a memória de um respeito profundo por aquilo que não é igual, harmônico ou complementar. Pela partilha diária da consciência de que não é preciso aceitar ou simular mudança para que sejamos amados. De que aquilo que não é você, também merece respeito, admiração e afeto. Tudo isto em relações de qualquer tipo; entre humanos e humanos, humanos e reino animal ou vegetal, o humano e o místico, o místico e a ciência. A existência de um, não condena a autenticidade do outro. Não temos que ser iguais ou diferentes que se encaixam como peças de um jogo. No desequilíbrio há muito mais vida do que na ordem inerte.

  Não me surpreendem os quarenta anos de vida comum, não me emocionam, nem me enchem de curiosidade ou necessidade de explicação. Toca-me é o movimento constante, o desacerto, as palavras faladas com uma intenção e ouvidas de outro jeito, as horas sem sincronia, os humores em desarmonia e, ainda assim, a escolha pelo ombro um do outro, no mesmo caminho. Assistir a esses dois seres, sem teoria nenhuma, se ajeitando, se descobrindo e acertando os passos tão desiguais é de quase fazer chorar. Não seguro, aprendi com um deles a verter água salgada pela face, quando o amor é grande e a epifania de um milagre acontece. São dois e trazem uns bons anos de caminhada nos sapatos deles. São duas pessoas que em quase nada se parecem, mas compartilham de uma vontade muito preciosa: de serem juntos, sem a busca de um reflexo no espelho. O outro é bonito sendo só o outro.




2 comentários:

Sofia de Buteco disse...

PERFEITO.....Meus parabéns e sincera admiração! Um beijo

Amanda M. disse...

Obrigada! Que bom que gostou! Beijão ;)