domingo, 21 de junho de 2015

As Flores que ainda não a encontraram



   Procuro um xampu novo, as gôndolas da loja estão abarrotadas de opções, na babel cosmética busco um xampu como quem procurasse um cabelo novo, leio cada rótulo com o rigor de uma enfermeira, lendo a prescrição numa receita. Foi sempre assim, a cada novo frasco o ritual  repetido, tenho milhares de horas na experiência dessa busca. Dispenso a ajuda das vendedoras, gosto de espaço e tempo para uma escolha tão delicada, recuso as três primeiras ofertas e acho que logo a notícia da eremita da sessão de cabelos se espalha, porque passam a respeitar minha solidão voluntária, minha concentração sistemática, meus olhos vidrados em composições e fórmulas que ignoro, mas insisto em tentar desvendar. Num frasco transparente de design elegante, do lado oposto ao que estava, percebo o objeto do meu interesse, sigo ao encontro do meu cabelo desejado por agora, ao menos, mas sou surpreendida e quase atropelada por uma mulher com um arranjo de flores nas mãos.

  Apressada, atrapalhada com um buquê com mais de uma dúzia de rosas vermelhas, gritando o nome de alguma colega, a mulher me arranca de uma concentração tenaz, esbarra com sua a ansiedade na minha calma, dissipa minha concentração cirúrgica e me arrasta para a sua confusão. Aos poucos, dezenas de outras vendedoras cercam a moça das flores, chamam pelo nome num cartão e passo a fazer parte de um grupo que espera pela surpresa de alguém. 

  A loja é bastante grande, mas a essa hora ainda não está abarrotada de mulheres, por isso, mesmo ao final do corredor, consigo ouvir as vozes, os comentários, a admiração das outras pelas flores que pertencem a só uma mulher. Dia dos namorados e este é o primeiro regalo a inaugurar a data para essas trabalhadoras. Logo chega a dona do pequeno jardim amoroso, não há expressão de surpresa ou alegria, é fria, burocrática, distante, arranca sem delicadeza nenhuma as flores da portadora e quando perguntada sobre o remetente e sobre a surpresa, ela diz com desdém: 
- Sei que mandou sim, está assinado o cartão. Normal, nada demais, todo ano ganho flores.

  E entrou pela mesma porta onde, há pouco, um dezena de colegas se aglomeravam ansiosas e gritavam pelo seu nome. Entrou, deixando para trás expectativas frustradas, mulheres que gostariam de ouvir uma boa história, saberem do conteúdo do cartão ou, ao menos, suspeitarem de algo extraordinário pelo sorrisinho que ela compartilharia. Entrou e deixou a mulher que tão bem cuidou das flores para ela, de mãos vazias, olhar perdido e o cheiro das flores frescas impregnado no seu avental azul. Entrou e matou mais de uma dúzia de rosas com a sua discrição inoportuna e o seu olhar amarelecido, dorminhoco e preguiçoso. 

  Os olhos de uma pessoa também podem matar. E matam quando não se surpreendem com beleza alguma, matam quando olham para rosas e veem repetição; matam mais quando olham para um objeto e dizem, numa mirada de olhos, que ele não é necessário, nem importante, nem especial do que quando nem dirigem o olhar. Que ela não se surpreendesse pela lembrança do dia ou que não amasse o remetente que lhe deu flores, mas que culpa as rosas tinham da falta de novidade ou desamor? E a mulher que lhe prestou lealdade quando atravessou a loja e resguardou uma encomenda que não era para si, o que fazer com a expectativa dela?

  Volto ao frasco que visualizei de longe e peço a mim mesma que nunca me traia, que não seja blasé, fria ou que a dureza do cotidiano ou o gesto alheio me ceguem para as belezas que nos rodeiam a todo o tempo. E mais, peço que eu me mantenha serena e doce, como a moça do avental azul, que agora está na porta, cheirando as mãos do perfume que carregou para alguém que não se abalou pelo regalo vermelho, apaixonado. Um dia, há de serem para ela, as rosas e o amor. 

  Saio da loja, mas antes, percebo os olhares esperançosos em direção à porta de entrada, as mulheres que não receberam rosas ficarão até às seis da tarde, trabalhando repletas de ansiedade e apreensão, para quem  virá as próximas flores? Chego em casa e percebo o engano - comprei condicionador. Amanhã volto a buscar um cabelo novo. As buscas que não terminam e que mesmo que pareçam repetidas, brilham como novas, são as que nos levam aos melhores lugares, ainda que seja só a uma loja de cosméticos.



4 comentários:

Paulo Abreu disse...

Então! Muito bom. Mas eu gostei da moça das flores, não a que ficou com o pouco de perfume das mãos que oferecem rosas (como aprendi no catecismo em priscas eras). Gostei da que recebeu as rosas. Teve uma atitude preventiva contra a inveja, Acho que leu o excelente e imperdível "A Cabala da Inveja" do rabino Nilton Bonder (http://www.niltonbonder.com.br/port/livros/inveja.htm)

Amanda M. disse...

Haha Paulo...lembrei da música da igreja "das mãos que oferecem rosas, das mãos que sabem ser generosas"...

Verdade. Talvez a moça recebeu as flores e comemorou sozinha, atrás da porta, sem testemunhas, sem as dezenas de "olhos compridos" para as flores ou cartão. Talvez a moça guardou o que é dela só para ela mesma; amor e silêncio. Não conheço o livro...mas o assunto me interessa. Verei lá. Abraço!

Cristina disse...

O livro é fantástico! Você vai gostar...

Amanda M. disse...

;) Vi na internet, Cristina...mas com tanta coisa pra ler em casa, ainda não encomendei.rs