sábado, 4 de julho de 2015

Hipnotizadora de almas errantes

  Ela desenha semicírculos quase compulsivamente, com uma destreza impressionante constrói cada um deles como se fosse sua obra única e também derradeira. Se dedica tanto à existência individual das figuras, quanto à coletividade, quando coloca-as com a delicadeza da mão pequeníssima uma dentro da outra. A ponta fina, ora de tinta, ora grafite, na folha de papel com pautas - inadequada para seus hieróglifos -  os conjuntos, a cada minuto mais robustos, mais expressivos roubam a minha desatenção profícua e a transformam em admiração por algo.

  Ela é capaz de desenhar uma hora inteira sem nem olhar para o lado, só vejo-a parar  quando vai beber água, se precisa ir ao banheiro ou quando me mostra alguma coisa no seu caderno, que eu solicito. Interrompo-a de propósito só para vê-la voltar incontáveis vezes ao seu ofício. Às vezes finjo esquecer o que ela desenha, mas acabo atraída por cada volta do lápis na folha, meus olhos dançam com os quase círculos, ela compulsiva em contornar as formas com as mãos e eu em acompanhá-las com as pupilas lacrimejantes, recusando o descanso dos olhos. Não acaba nunca. O exercício dela é este: desenhar infinitamente meias voltas, inventar quase ondas.
  O desenho a leva cada vez mais para dentro dela, acho. Os grafismos também me raptam para mim mesma. Um homem diz coisas interessantes, mas eu me perco na confusão espiralada dela, as palavras deixo para depois, são vencidas pelos apelos do papel artisticamente pichado.

  Enquanto sou tragada por sua feitiçaria imagética, penso no jeito como começamos e terminamos cada coisa. Por que a pressa? Por onde começamos a confusão toda? Por que não voltarmos aos semicírculos interrompidos? Onde mora a dificuldade de encaixarmos cada produção nossa, de um jeito que não abandonemos a anterior pela mais recente? E se na partida já soubéssemos que não tem fim? Se nos dedicássemos muito, mesmo sabendo que acabada uma folha passaremos indefinidamente para outras?

  Vejo na disponibilidade e dedicação dela para suas construções, um pouco do jeito que ela percebe a vida, tem delicadeza nas mãos, tem gentileza que perpassa cada risco no papel onde ela, na verdade, imprime também a si. Enquanto ela produz, eu tento espiar para um aprendizado. É bonito quando ela fecha uma coleção de signos e já parte para outro e depois os une, completando um terceiro e já iniciando um quarto, quinto. As confusões não precisam de borracha, de cada desacerto nasce uma outra forma, que ela logo acerta com a sua ponta fina. 

  Seria bom se o cuidado com os desenhos dela, fosse também um cuidado nosso com as nossas próprias criações. Se não houvesse desistência quando um contorno saísse torto, se a ansiedade para ter um final não  subtraísse nossa atenção e encantamento pelo que está sendo; se a gente conseguisse voltar ao caminho, depois de cada interrupção inevitável. E se antes de cada caderno fechado, a sensação de termos cumprido com a nosso chamado fosse mais latente que qualquer sensação de perda de algo ou tempo roubado. Os hieróglifos seriam minimamente compreensíveis se conseguíssemos deixar evidente ao que viemos em cada começo ou término de página. Se numa necessidade de fim, as palavras atrapalhadas não confundissem o outro e, por isso, só alimentássemos mais suas esperanças e sentimentos; se num desejo de declaração ou elogio, a timidez e o incômodo pela exposição não nos afastasse ainda mais do objeto admirado; se a demasia do afeto ofertado ou recebido não nos ferisse nunca; se a prosperidade alheia não nos lembrasse da nossa miséria, se fôssemos capazes de entender cada trajetória individual dos meio-círculos. 

  O ofício assim seria tão suave quanto a mão que desenha no papel, agora, ao meu lado. Tem dias que a vida parece perdida, o tempo ultrapassado, as confusões há muito instaladas, as trajetórias definitivamente interrompidas, os ódios fartamente alimentados, os amores sob escombros empoeirados demais. Mas, então, uma moça desenha sem pretensão alguma de fim e eu que antes vagava imprecisa, sou capturada pelo gesto, pela arte e nos semicírculos dela, penso que ainda aprendo o jeito do traço leve. Para cada volta construída no papel, uma desfeita na alma antes intranquila. Sou hipnotizada e saio curada da necessidade de um caminho com vista para o fim. Não serei a artista delicada, porque já sou o traço desapercebido no meio da folha.



2 comentários:

Paulo Abreu disse...

"Não serei a artista delicada, porque já sou o traço desapercebido no meio da folha." - Penso em Fernando Pessoa, no seu conhecido texto "A minha pátria é a língua portuguesa", mas não objetivamente no cerne do texto, mas no que está oculto - a força da palavra:

A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Amanda, você é autora, compositora e concertista da arte das palavras.

Amanda M. disse...

Mais que gentil! Obrigada, sempre!