quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Me chamou para uma volta de moto

  Ligou no meio da tarde do domingo e chamou para um sorvete -  "em dez minutos nos encontramos "-  e ressuscitou meus domingos moribundos; todos eles. Assisti  um a um  levantando-se, com frescor, de um ninho amarrotado, muito antigo. Ainda no elevador, na quarta-feira sem feriado, me chamou para um passeio depois do expediente, para andarmos ombro a ombro, comermos uma pipoca, com bastante sal e, quem sabe, queijo, por isso salvou a semana, esta e todas as passadas e futuras, das garras crescidas do tédio que rondam os calendários pendurados na parede, atrás da porta. 

  Arrancou da revista velha do consultório do seu dentista, um artigo que achou que eu gostaria de ler, entregou o papel dobrado em quatro e  me chamou para conhecer algo em mim que eu nem sabia existir. Era algo sutil, bonito, sem necessidade de muito aprofundamento ou concentração; era distração singela em folha amassada e por isso, afastou-me da obrigação da reposta imediata, da reflexão pormenorizada; para sempre me salvou. "Leia para você, leia você".

  No café da manhã, falamos com voz rouca, sem preparo, sem ensaio, sem melindres, com os olhos inchados de sono prolongado e brindamos, com as xícaras de café, a minha com uma lasca faltando, a intimidade que só enxerga beleza no conforto da naturalidade. Sem capas de revista, nem divas absolutamente radiantes de brilho sintético, mas olhos iluminados de alegria solar e me fotografou do melhor ângulo, de dentro, de baixo para cima, sem luz auxiliar.

  Bateu na porta do apartamento e chamou sem motivo, "só para ver como está", entrou, comeu um pedaço de bolo feito ontem à noite e achou parecido com um que a mãe fazia em tabuleiro retangular de alumínio. Sua lembrança correu a despertar a minha e achei que a receita nova, na verdade, era herança antiga da avó que tinha mão boa para cozinha e me fez gostar de ser neta, de novo.

  Tratou-me com delicadeza, mesmo quando eu não era conhecida, ofereceu-me seu lugar no ônibus, segurou minha bolsa, levou minhas sacolas, abriu a porta do carro, segurou a do elevador, ajudou com troco na padaria, comprou a rosa do vendedor de flores noturno e tirou-lhe um pouco do peso do seu balde verde e enfeitou minha madrugada. Tudo isto quando eu tinha sete ou setenta anos, não era sua mãe, avó, filha, sobrinha, vizinha, tia, professora ou namorada. Zelo sem outra intenção. Foi gentil e me afastou da frieza urbana, das linhas retas desenhadas no chão, pelas quais galinhas de ternos cinza se prendem sem a possibilidade de um olhar desviante.

  Escolheu um algodão doce rosa e comprou-o para mim, o primeiro com o próprio salário. Ajudou-me com o arame duro que fechava o pacote e nos levou, em nuvem açucarada,  até a infância de todos nós: alegria  ilimitada, duas moedas e cumplicidade. Comprou uma nuvem rosa dulcíssima e me lembrou que sonhar durante o dia também era além de possível, urgente.

  Puxou-me para dançar, sem passo ensaiado, sem música de fundo, sem outros dançarinos no salão. Tirou da minha mão direita o vidro de detergente, da esquerda surrupiou a esponja de lavar a louça e me rodou pela cozinha como se o nosso par fosse o único do mundo. Me chamou para dançar e fez circular sangue e energia por cada parte do meu corpo.

  Andávamos pela rua quando uma chuva nos surpreendeu no meio do caminho, começou a correr para debaixo do aguaceiro e me levou pela mão, sem medo de relâmpago, de estrago nos sapatos ou transparência na roupa. Convidou-me, num sorriso, para um banho de chuva e me mostrou que o incerto pode ser bom, que a surpresas também se surpreendem quando não nos submetemos a elas, mas fazemos delas um meio, um motivo, um jeito novo de vermos o que parece sempre o mesmo.

  Comprou um livro no sebo e me deu, leu sua poesia favorita para mim ao telefone, pegou mais um marcador de livro gratuito na loja para me dar, dedicou uma música que tocava no rádio do carro,  tirou uma foto do meu drink favorito, do outro lado do mundo, e brindou comigo por mensagem, batizou seu gato com meu nome, colocou-me nas suas intenções na oração diária e se importou, olhou, escutou. Fez grandes coisas por mim sem esperar nada em troca, nem gratidão, amor ou pena. Fez porque é o que gosta, sabe e pode fazer e me ensinou que as vocações humanas são ilimitadas, voam para além de um nome, código ou número. 

  Me chamou para uma volta  na sua moto e me libertou da monotonia da segurança, o vento frio no rosto, os cabelos esvoaçantes e anunciou: - está viva, vê como é bom! Me chamou para uma volta na moto, me deu carona até a vida que esquecemos todos os dias. Me chama, me convida, me busca, me fotografa, me enxerga, me lembra, me suaviza, me molha, me rodopia, me apresente o que é seu e, então, me mostra os caminhos que me levam a me perder, sem me afastar, para que depois eu sempre possa me reencontrar. Me chamou para uma volta na sua moto e enquanto eu esperava já gostava da viagem que nem começado havia.



2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Estava lendo esta postagem, quando minha filha se aproximou e perguntou:
- Pai, porque você está vendo um texto com a foto da Carey Mulligan?
- Estou lendo um conto de amor.
- hummmm ... ok, tudo bem ... tudo bem ... (e partiu, por que hoje é sexta)

Até aquele momento eu não fazia a menor ideia do nome da mocinha, mas sabia que era do cinema, pois a autora, Amanda, é Crítica de Arte, tem um blog muito bom, especializado, e tem estes cuidados nas suas postagens aqui neste espaço democrático e elegante.

Bem, como estamos nesta sala, tomando chá e conversando sobre coisas agradáveis, o que ficou de impressão ao ler esta crônica?

Há nele o Amor Romântico, onde a mocinha (dá para ouvir seus suspiros) possui uma capacidade de encantamento única em quem vive uma grande história de amor.

O que me chamou a atenção é o antagonismo à crônica anterior, naquela imperou a Angústia, com todos os conflitos entre a pulsão da morte e a pulsão da vida.

Desta vez, uma crônica ascendente de valores interiores. Fala do amor, do inevitável sentimento para com o outro, mas o trata como um Amor Romântico. Isto é muito bom de se ler nestes tempos de ódio disseminado nas redes sociais.

Inevitável também, sem contudo ser redundante. é pensar em Guinevere e Lancelote; Romeu e Julieta; Páris e Helena e tantos outros que estão aí sob nosso nariz. (acho que tenho que me cuidar para o comentário não se estender, mas tenho que falar um negócio, ou pelo menos dar o caminho da coisa)

Isto por causa da nariz - vale a pena ver por que as pessoas se apaixonam - isto mesmo - é o nariz o responsável pela paixão. Eu falava para as alunas da faculdade - Meninas, evitem os rapazes que dependem de descongestionantes, dos que não sentem cheiro, dos que só respiram pela boca - estes nunca se apaixonam (e têm a tendencia a impotência - sic). Aqui está o testemunho da Ciência: http://www.afh.bio.br/especial/paixao.asp

Bem, hoje estou falando/escrevendo muito. Vamos encerrar voltando ao primeiro parágrafo - quando a Beatriz me abordou lendo seu texto - Ali eu pensava exatamente em Prudence Bell, aquela mocinha do Rome Adventure (Candelabro Italiano). Talvez a moto, talvez os sonhos, talvez o conjunto todo me despertou este tanto de palavras.

Amanda, bom final de semana!

Amanda M. disse...

E que conversa boa, Paulo! Sim, a mocinha da postagem é mesmo Carey, achei que ela combinava bem com texto...mas crítica de arte... nem passo perto, mas aceito bem como elogio.

Suas análises são ótimas sempre e acho sim que a protagonista deste tem um tom diverso da do anterior...e ambas me parecem essenciais. O texto que me recomendou é muito bom e sempre pensei (mesmo sem muitas referências científicas) que o olfato teria um papel determinante nas escolhas dos parceiros, entre outros impactos na nossa subjetividade...enfim, obrigada pela companhia e pela xícara de chá! Ótima semana, Paulo!