segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Nós, os sobreviventes de nós

  Atravessar uma rua não dói, abrir uma porta e dar o primeiro passo, desviar de um obstáculo e seguir, mudar a rota, o rumo, abandonar o conhecido  também não, se a experiência é diária e habitual. Se conhece a cidade e as leis de trânsito, mais simples parece. Mas a primeira vez que alguém precisa atravessar sozinho uma rua, especialmente se não é a sua própria, sem os olhos, as palavras ou as mãos de alguém em quem se confia, é um desafio grandioso. É ter atrás de si uma multidão desorganizada de medos e, perdida, no meio da horda ameaçadora, uma certeza solitária de que o enfrentamento é o único caminho.

  Do outro lado da rua, em frente a entrada da escola, um menino com uma mochila marinho sofre, possivelmente, com essas vozes embaralhadas que o perseguem e, ainda, com a impaciência de um irmão mais velho, pouco maior que ele. O último sinal bateu há dois minutos e ele é incapaz, ao menos agora, de dar o passo que ele sabe que precisa; suas pernas vacilam e não obedecem a um compromisso, ficam entregues ao medo, à desconfiança, ao desejo de permanecer do lado seguro da rua.  É a metade de um ano letivo e o começo dele noutra escola. Aguardo mais alguns minutos na esperança da situação ser resolvida no âmbito familiar. Mas a funcionária da escola  fechou os outros dois portões e já está no final do corredor, se preparando para fechar a possibilidade do menino amadurecer. Corro e atravesso a rua. Uma mulher mais velha se juntou à dupla, tia dos meninos, soube depois. E com bem menos tempo e paciência que o menino maior, segura no braço fino do menino de mochila marinho desgastada e cobra coragem, compromisso, fala como se ambos tivessem as mesmas referências, como se o caminho desviante já fosse uma possibilidade conhecida também para ele. 

  Já nem pensa mais sobre o que diz; basta soltar as palavras assim mesmo: tortas, inacabadas, soltas. Não pensa que elas ganham vida quando saem de si, que farão reflexos, ecoarão em algum lugar desabitado, necessitado de algo que o preencha. E, então elas, as malfadadas, mal calculadas as dispensáveis palavras atravessarão um deserto inteiro para se abrigarem num lugar que merecia candura, beleza, conforto.

  Mais próxima do grupo, escuto o choro baixinho do menino, apresento-me. Do outro lado da rua, a funcionária ainda me espera antes de fechar o portão, aceno para ela e seguro a mão gelada de um menino de oito anos. Ele não me conhece, mas exausto, sem alternativas  se entrega. Atravessamos o sinal, sorrio e ele limpa as lágrimas, digo que ele vai gostar muito da nova escola, que é linda e que logo se acostuma. Entramos juntos e ele não olha para trás, não se arrisca à desistência, nem a um último pedido de um condenado. Escutamos o som definitivo do cadeado no último portão, seguimos juntos pelo corredor, escuto sua respiração ofegante e pelas mãos quase sinto seu coração atropelado pelo medo.

  Atravessar um deserto por meses ou uma ponte em segundos, tantas vezes, faz a mesma revolução, leva-nos a um encontro essencial daquilo que somos com aquilo que escolhemos ser. Já não há razão para ficar aqui, senão a aparente segurança. Às vezes o que custa é o entendimento da precisão da travessia.

  Seguimos no corredor ordinário de uma escola. Nasci para atravessar um menino; cumpro com a vocação que não desconfiava  ser minha. Nós que sobrevivemos a nós, nós que ultrapassamos os nossos medos todos os dias, nós que resistimos à aridez no deserto e a insegurança de uma ponte improvisada, nós que desobedecemos as vozes que nos impelem à permanência e nos entregamos a travessia turva merecemos conhecer o outro lado. No fim do corredor, o colorido das paredes, a recepção calorosa de uma jovem professora, agora ele parece mais tranquilo e eu o deixo com a sua batalha; procurarei por ele no recreio e na saída o observarei de longe. Nós, que sobrevivemos, temos o dever de velar por aqueles que começam a viagem.




3 comentários:

Ana disse...

Só nos encontramos depois de nos perdermos.
Beijinhos

Ana disse...

Só nos encontramos depois de nos perdermos.
Beijinhos

Amanda M. disse...

Acho também, Ana! Beijos!!! ;)