domingo, 9 de agosto de 2015

Do abacateiro, só não quero o fruto

  Passar pela orla de pinheiros na entrada, atravessar os corredores brancos, desviar dos mesmos obstáculos de sempre, não errar as curvas, não esquecer nenhuma parte do caminho, mesmo quando a ausência é a visita mais frequente. Alguns passos repetidos são mais fáceis que outros, as referências colam na memória e mesmo que  faltasse luz, ainda que os minutos passassem como relâmpagos, a lembrança continuaria leal: vem por aqui, desvie do aparador da recepção, vire à esquerda, saia pela porta dos fundos, encontre o abacateiro e depois, o banco de cimento de três lugares. Não há equívocos, os olhos reconhecem, os pés desfilam seguros, só o coração é que segue em sobressalto contínuo. Não nos acostumamos nunca a isto.

  Todas as vezes em que a visito é assim,  passamos alguns minutos em alegria pelo reencontro, outros numa nostalgia por um passado que não pudemos compartilhar e alguns tantos, de silêncio pelo desconforto do desconhecimento e impossibilidade de comunicação. Tento encontrar nela algo que justifique a minha insistência em repetir os caminhos, em não esquecer como se chega, entra, senta-se ao lado, despede-se e vai embora, prometendo sempre voltar. 

  O abacateiro que nos abriga não é do nosso quintal, mas acho que fingimos ser, por isso nos instalamos ali desde o começo. Pergunto se a blusa é nova, digo que o cabelo está bonito, se a tratam bem - e disto sempre me arrependo, porque ela balança a cabeça em um sim, mas os olhos negam e eu sepulto sua distração neste segundo mal calculado. Somos distantes, distintas, mas não consigo escapar ao compromisso da tentativa. Talvez numa dessas visitas eu a compreenda, ela me receba com menos limitações e eu a ouça com mais cuidado, talvez num minuto calado desses ela me revele algo que preencha minha busca e traga mais consolo aos seus dias cercados de paredes brancas e pinheiros altos. Há dias em que me pergunto o porquê da minha insistência, deixo de ir até lá, desisto de qualquer aproximação e pareço não ser atravessada por sentimento nenhum: nem culpa, saudade, preocupação. Mas depois, o abacateiro aparece nos meus sonhos e eu sinto um chamado que eu não sou capaz de traduzir, mas obedeço do jeito que sei. Não compreendo do que somos feitas, se temos algo que nos conecte, verdadeiramente, se venho por ela ou pela árvore que ocupa meus sonhos.  

  Depois do silêncio insistente, da tarde que se esconde no escuro, me despeço sem emoções aparentes. Ela me leva até a porta, da qual jamais esqueço e voltamos cada uma ao que temos de mais íntimo, sem necessidade de esforço. No caminho da volta, reconheço meu medo e, no momento seguinte, tento negá-lo, todas as vezes que eu tive medo de ser algo, acabei sendo. Como um aprendizado: - Tá vendo? Não é tão terrível assim! Você é capaz de suportar.

  Talvez minhas visitas me façam perder o medo desse destino, desmistifique um sofrimento que não é só dela  e leve meus passos e memória noutras direções  ou esteja me preparando mesmo para este. É como se a negação aproximasse mais o medo. Não corra. Não adianta ignorar a sua voz que ele se faz ouvir a quilômetros de distância.

  Diminuo a pressa, jogo um beijo do outro lado do portão e ela sorri. Não tenho para onde correr, senão para o destino que se constrói a cada escolha, se vim parar aqui não foi pelo abacateiro, mas pelas raízes que ambas compartilhamos noutros quintais. Não importa se não sabíamos uma da outra, durante tanto tempo, o fato, agora, é que nossos caminhos se cruzaram e eu saberei dela para sempre, mais do que dos corredores e das alamedas de pinheiros; minhas pernas descobriram as curvas depois do meu coração saber da sua vida e do meu compromisso com ela. Distantes, distintas, mas carregando alguma seiva em comum. Do que tenho mais medo, me aproximo. Do que me aproximo, passo a temer cada vez menos. Na próxima visita roubarei um abacate e darei para ela, como um sinal da minha reconciliação com meu medo e uma promessa de que dela jamais me desprenderei, mesmo que as respostas nunca cheguem.



2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Fico meio que constrangido de ficar aqui escrevendo sobre suas postagens. Tem um jeito de invasão de privacidade, sei lá, apesar do blog ser de acesso público.
Li este texto com muita dificuldade. Li de novo e de novo - ele machuca a gente. Dói lá no fundo da alma. Aperta o coração. A protagonista vive uma angústia profunda, um conflito de gerações e de vida, com todas as coisas que envolvem viver - riscos, ônus, bônus, trapaças da sorte e expectativas.
Na segunda vez que li, minhas memórias levaram-me a um poema da Cecília Meireles, que achei serem identificadas ao conteúdo, e posto abaixo. Chama-se "Como se morre de velhice"

Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

Amanda M. disse...

Caro Paulo, por favor, jamais se sinta minimamente constrangido em escrever nas postagens do blog. Nunca me parece uma invasão, mas sim uma partilha generosíssima, que não fazes conta. Tomo cada comentário seu como uma possibilidade de revisita a algo que já estava "acabado", para mim (que é o texto), e no papel de leitora tenho outra experiência, muito diversa e enriquecedora, especialmente quando é possibilitada pelos caminhos que você me empresta.
Sua presença, aqui, é como de uma visita para alguém que gosta muito de receber, mas mora longe, insiste sempre para o hóspede ficar mais e lamenta muito quando ele precisa partir ou se despede quando pensa ser um incômodo. Por isso, volte, volte sempre!

O poema de Cecília iluminou meu dia e certamente o levarei para sempre! Grata também por ele.