domingo, 13 de setembro de 2015

Sob a ditadura da impossibilidade

  Não permito que depois de cada livro meu que você encostou, tenha deixado o seu cheiro, as marcas invisíveis do seu dedo e que eu  as recolha de cada palavra, como se houvesse faxina possível para limpar seus longínquos rastros. Não permito que todas as vezes, para sempre, em que eu fechar o olhos em meditação a sua imagem seja sempre a primeira a me visitar, minha lembrança mais antiga, mesmo que nem seja tão remota.

  Não permito que os lugares, as pessoas, as histórias dos desconhecidos, os gostos novos e redescobertos, os cheiros frescos ou cristalizados, os sons, da rua, da natureza, do meu corpo requisitem a sua memória; - Será que sentiria o mesmo que eu, se ouvisse, sentisse, saboreasse, ouvisse ou olhasse?

  Não permito a amplitude dos gestos, o riso livre, a piada estúpida, os ponteiros do relógio ignorantes da  dor que não reconhece,  nem a falta de luto, depois da constatação de que passou. Era vendaval que se dissipou, depois de cair a tempestade. Não permito que tenha pena, desgosto ou  culpa quando a decisão de partir começar a sondar seus planos. Não permito nenhum abandono sentido, heroico.

  Não permito rogar teu nome quando, num ato falho, chamar por alguém que em nada se parece com você e me envergonhar pelo engano, pedir desculpas e fingir que da minha boca saiu um nome qualquer sem significado algum. Não permito desconcertos, arroubos e confusões públicas sob o pretexto de fragilidade ou perda afetiva. Não permito que conheçam as águas que me arrastam, nem a larva quente que me soterra no irreversível.

  Não permito que o céu estrelado e a lua cheia invadam minhas noites de verão e se instalem como um teto de afrescos que recontem a história que eu não quero rememorar. Não permito que eu ande, mesmo que pelo menor dos tempos, arrastada, desabitada de um lado, uma face, outra perspectiva. Só permito parecer inteira, mesmo que me custe muito as várias emendas e reparos.

  Eu não permito que faça poesia ecoar dentro de mim e depois fugir com cada verso, deixando meu coração estilhaçado em mim. Não permito que as suas canções continuem me perseguindo mesmo quando, há muito, sua voz se calou por aqui. Não permito o esquecimento, a superação mágica, nem a tragédia da conformidade depois da partida. Mas elogio o drama, o rancor, o desespero de quem um dia viveu e agora suspira pelo irremediável, pelo que tem fim, pelo que talvez nunca tenha sido o que se pensou ser. Pela construção solitária de um sonho que só pode vingar se for partilhado.

  Não permito  que as festas que eu dediquei a você, ainda circule como notícia de quem julga que os fogos eram demasiado bonitos para uma passagem perecível demais. Não permito que comparem, opinem e despejem suas conjecturas disfarçadas de consolo, amizade ou empatia com aquilo que ninguém assistiu com as lentes que só eu tive.

  E por não permitir é que faço de mim o único lugar que nunca pode abandonar de fato. Escuta, você nunca foi embora. Você continua a permanecer por aqui. De certo é que meu coração nunca se enganou; deu amor, tantas vezes, a quem não pode retribuir com a mesma dignidade ou devoção, mas sempre escolheu a quem muito dele precisava. Portanto, continua seu esse mesmo amor, eu não permito que me devolva o que ficou para sempre inutilizado. Aos outros darei outros, mas este é seu. Somente seu. E eu permito que leve-o com você e que continue morando ainda em mim. 

  E fica estabelecido isto: de que nas minhas leis ninguém é obrigado a ser infeliz ou submeter-se a elas se não quiser, nem mesmo eu. 



2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Elucida assim um quantum do encantamento feminino. São olhares determinados e ternos a detalhar o passado e condenar o futuro do ex-amor. Não sei ver por esta lente, mas leminsko:

Amor, então (Paulo Leminski)
Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

Amanda M. disse...

Oi Paulo.
Mais um presente para a semana: Leminski!
Grata, como sempre! No mais, nós e nossas lentes...
abraços