segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Ninguém enxerga o topo da própria cabeça

  Quando meu irmão mais velho saiu de casa, minha mãe disse que não duraria uma semana, que ele não saberia viver sozinho, que ele não estava preparado para as dificuldades da vida. Depois, começou achar que no final do mês ele voltaria, ela prolongava os prazos e ele não pensava em regresso. Minha mãe não conhecia meu irmão como ela achava. Depois de anos, ela ainda apostava em uma volta. Minha mãe não só desconhecia o filho, como também ignorava a distância entre meu irmão e o portão da nossa casa.

  Quando meu irmão mais velho morreu, eu estava na escola, fazia uma prova de química e a diretora apareceu na porta, me chamou e me levou até a sala dela, onde minha tia chorava desesperada. Ela tinha os olhos inchados, as mãos tremiam e o seu rosto era quase uma massa disforme, de rímel escorrido, de óleo, lágrimas. Enquanto soluçava, ela tentava retomar o fôlego para me dar a notícia. E eu preocupada com duas questões que faltava serem feitas na prova. A tia levantou, veio na minha direção e só conseguiu sussurrar: - Um acidente. Um acidente com seu irmão.
Eu não esperei uma próxima frase, não quis olhar mais para minha tia. Pedi a diretora para voltar à sala, para terminar a prova. Ela franziu a testa, tentou um abraço, meio frio, meio desconcertado e disse que eu não precisava voltar para a prova.
- Mas faltam duas questões, eu só quero terminar.

  Minha tia continuou na sala, parada, em pé, perto da mesa da diretora, soluçando e eu voltei para a prova. Fiz as ligações de carbono e classifiquei-as. Meu irmão morto e eu paciente com os carbonos. Foi a única prova de química que eu fechei na vida. Nunca saberei se foi por merecimento ou indulgência da professora. Mas desconfio mais da segunda possibilidade, não estudei o resto do ano, embora nunca tenha faltado a nenhuma aula, e passei em todas as disciplinas.  A cada ligação de carbono eu pensava que não tinha mais irmão, que teria velório, que iria num enterro de alguém jovem, de que teriam pena de mim, de que a minha mãe nunca conheceu meu irmão de verdade, mas continuei com as cadeias de carbono, minha lapiseira correu tão rápido quanto cada pensamento meu. Nunca gostei de química, passava mal antes de todas as provas, mas pensar na morte de um irmão me anestesiava. Acho que numa dor muito intensa somos capazes de enfrentar medos menores. Foi assim a vida toda. Tinha medo de algo até me deparar com um desespero maior, então, voltava atrás, resolvia minha paúra anterior e tentava chegar mais perto da outra dor.

  Minha tia não me levou para casa, fomos direto para a capela funerária, quando vi minha mãe, entendi que jamais veria dor maior, ela não conheceria meu irmão. Minha mãe me abraçou disse que iria morrer, que não suportaria. Ela ainda não conhecia a sua própria capacidade de recuperação. Ela resistiu, mesmo que não quisesse, minha mãe não conseguiu nunca se entregar a essa perda. Acho que esse foi sempre seu desconhecimento maior; sua capacidade de ir além do padecer. Nenhum sofrimento nos mataria. Ficamos as duas e meu irmão nunca mais voltou.

 - Mãe, fiz a prova toda.
 Foi a única coisa que eu consegui dizer a ela por muitos dias.

  Dos rituais nunca esqueci, o caixão fechado, as orações, rostos que nunca tinha visto e que pareciam mais necessitados de consolo do que eu. Minha jaqueta de nylon que fazia um barulho insuportável a cada abraço, eram apertões de todos os tipos, com tapinhas nas costas que eu nunca entendi, me sentia um embrulho, um bombom enrolado no papel celofane, que ninguém deixava em paz. Minha mãe intercalava momentos entre choro e olhar parado numa parede de azulejos brancos, eu tentava circular, mas era impedida a todo instante por alguém que sempre chorava quando me via. Lembravam-se dele de uma forma muito diversa da minha - parecia menos humano, menos falível e por isso menos meu  - contavam histórias sobre alguém que eu não conhecia.

  Meu irmão nunca voltou, mas todos os dias falavam dele em casa, minha mãe se dedicava em cuidar da sua memória, tentava se lembrar dos gostos, criava novos, dizia:  - Seu irmão é que ia gostar desse filme, dessa música, desse prato. Seu irmão se casaria, teria três meninos. Ah...seu irmão formado.
No começo, me incomodava, mas depois passei a compreender que assim ela conseguia viver, assim ela permanecia num laço que só ela podia entender. Nunca interferi na sua relação com aquela ausência que era nossa.

  Quando falam da minha mãe sempre se lembram dela sensível, vulnerável e presa à figura do filho perdido, acho que ela mesma ajudava a desenhar essa imagem de si. Mas minha mãe foi, na verdade, fortaleza incansável. Mesmo que não admitisse, ela soube sim continuar.

  Guardei a prova de química por anos e sempre que algum sofrimento me ameaçava eu buscava a prova, olhava para os carbonos e sabia que continuaria. Todas as vezes em que meu peito se abriu, quando senti-me em carne viva exposta ao sol, quanto mais ardeu, eu soube que sempre haveria continuidade; não acabaria ali. A fragilidade diante de uma dor nos permite conhecer o ilimitado da força. É como tomar um café muito amargo e sentir o prazer do gosto, o que falta em açúcar, farta-se em essência; é o café percebe?

  Quando dizem - e falam muito em palestras, livros e toda a sorte de mercadorias de autoajuda -   que ninguém conhece a sua força até ser testado, eu me lembro da minha mãe e da prova de química que eu fui até o final. A verdade é que nunca conhecemos o outro mesmo, como minha mãe ao filho, como minhas tias a minha mãe, mas também nos desconhecemos muito até o momento do salto no penhasco. Ninguém enxerga o topo da própria cabeça e os outros também se contentam muito com o que os seus olhos dizem, como se só eles pudessem nos explicar. Os carbonos foram o desconhecimento menor da minha vida, o que nunca pude compreender foi a morte dele e a nossa vida que permaneceu, mesmo que o portão nunca voltasse a bater.


4 comentários:

Paulo Abreu disse...

Querida Amanda, emociona sempre. As lembranças, as marcas da vida, as cicatrizes. Está tudo aí. Quando minha filha foi embora, abracei-a e entreguei-lhe um envelope para ler quando chegasse ao seu destino universitário.
No dia seguinte ligou-me aos soluços - pai, eu te amo!
No envelope havia apenas uma folha onde estava impresso este poema do Fernando Pessoa, onde com licença de pai, acrescentei o nome dela na primeira frase:

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Amanda M. disse...

Ah Paulo, que lindo! Feliz ela de ter recebido despedida mais afetuosa e bonita e feliz eu, também, por você ter compartilhado comigo, muito obrigada! "Os deuses são deuses Porque não se pensam". PS: estava fazendo falta aqui. ;)

Paulo Abreu disse...

Ah! Manda ver! Ver Amanda e estar aqui é de um conforto de esplendor.

Amanda M. disse...

:)