terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O professor de filosofia

   Quando ele passa pelo corredor, carregando a mochila nas costas, a pilha de livros no braço esquerdo e as chaves na mão direita é como uma lufada de paz, vestindo jeans e camiseta. Abre a porta suave, convida a entrar, desliza os livros sobre a mesa, retira da mochila a garrafa de água e a cuia para o seu mate de todos os dias. O professor de filosofia traz nos olhos um negror tão bonito, tão brilhante, poço sem fundo, de um tipo de abismo afável que levaria qualquer um a se entregar as suas profundezas e perder a vida, sem medo, sem arrependimento.

  Ele vira as páginas do livro com suas mãos pequenas, os dedos curtos e grossos passam sobre cada palavra marcada, quando para numa frase, repete a leitura num sussurro interior, saca a lapiseira da mochila e anota algum pensamento na margem do próprio texto.  E eu, sedenta do pensamento dele, curiosa pela anotação recém feita; é um segredo dele que nunca saberei. O professor de filosofia e o seu cinema neorrealista, as folhas balançando, a chuva caindo lá fora, a tecnologia falhando e o livro dele cheio de marcações. Ele falando e eu entendendo a vida - o professor de filosofia me confunde e por isso me explica.

  Ele tem nos olhos a terra estrangeira na qual nasceu e diz que não gosta quando se aproximam dele e se relacionam, desde a primeira mirada, com a sua nacionalidade. "Sou eu um homem para além do meu país". Do sotaque eu sempre me esqueço; a linguagem é  mais que do que podemos ouvir. O professor de filosofia traz um jogo de futebol nos olhos, uma partida que jogou aos 7 anos e que brilha entre a pupila e a íris. Talvez seja torcedor do Boca, imagino-o pequeno de chuteiras e meião, fantasiando ser Dieguito; Maradona seu deus.

  Parece jovem ao entrar na sala, mas amadurece muito rápido em cada reflexão, logo tem sessenta, mais um pouco, oitenta e até a chamada terá duzentos anos. Sua experiência passa por entre as teorias, dribla a fenomenologia, chuta para o pragmatismo e espera que o existencialismo faça o gol. O professor de filosofia traz nos olhos uma calma ancestral, herança portenha, europeia, indígena talvez. É de baixa estatura, tem voz suave, paciência com cada palavra, mas se agiganta muito quando fala. Tem os olhos dos humildes, dos homens que estão sempre a aprender e quando ensinam parecem receber uma entidade; a qual serão gratos no fim.

  O professor de filosofia compreende o grego, lê o alemão, toma mais um pouco do seu chimarrão e fala sobre o "devir", a transitoriedade daquilo que somos, da nossa provisoriedade e eu acho tudo pura poesia. Ele traz nos olhos outras vidas,  talvez pai, mãe, irmãos, mulher, filho, alunos e toda a sorte de gente que ele enxerga. É um homem comum que quando ultrapassa a porta, carrega sozinho as muitas vidas de que é feito.  O professor de filosofia que atravessou a minha alma e  uma vez por semana me faz existencialista noutra dimensão: nem absurdo, nem abandono ou solidão, só a liberdade de nunca ser completa; foi ele quem me fez livre.

  É um lago de poucas ondulações, mas cada uma delas movimenta um universo de coisas imateriais. Ele é um pacifista que não prega, só vive a ideologia. Os cabelos pretos, a barba mal aparada, os meios sorrisos, os passos ritmados e leves do menino torcedor do Boca. Da última fileira eu ofereço a ele meu silêncio repleto de vozes e o rubor quando me sinto convocada a falar; não na frente dele, por favor, não para ele.  O professor de filosofia passa e eu suspiro, não é paixão, se fosse era platônica, mas uma vontade de viver de, de repente, acordar como o professor de filosofia. Nas suas aulas eu aprendo que no caos também existe a calmaria. Eu passaria a vida assistindo ao professor de filosofia.



2 comentários:

Anônimo disse...

Seus escritos trazem esta calmaria profunda da beleza.

Amanda M. disse...

Que bom... :)