sábado, 17 de dezembro de 2016

E agora esse amor-remendo, esse fim nas mãos

  Já nem se lembrava que um dia existiu, não que o tivesse esquecido completamente, porque sempre soube que não era possível, mas a materialidade das lembranças, essas ela tinha perdido nas várias mudanças, na bagunça dos armários e gavetas. Há tanto esquecido pelo quarto, que às vezes suspeita de uma espécie de tesouro por detrás da pilha de camisetas que nem usa mais, mas nunca se levanta para conferir, teria que desfazer a montanha e dobrar tudo de novo. Então adia e esquece de todas as suas possibilidades de riquezas a mão. Um dia puxa uma calça jeans e com ela vem uma pessoa, um estado, uma música e a felicidade enrolada numa das pernas; a calça não serve, mas teve mais, teve o que não sabia que faltava. Encontrou a saudade.

  Na quarta, olhou para a mão da sobrinha e teve um encontro, não estava preparada para ele. Um boneco, um chaveiro, um bibelô meio alienígena. Boneco azul de linha, de cabeça grande, olhos em coração e um alfinete cravado no corpo. Nunca mais tinha o visto, pediu de volta o que era seu e não queria que fosse. A criança ainda tentou recusa, mas obediente, entregou o resto de alguma coisa, cujo valor, para um adulto, parecia estranho. Jogou a memória no fundo da bolsa e achou que escondida a lembrança, ela morria sufocada no escuro. Mas não.

  Lembrança tem vestígio que se arrasta longe, as pernas parecem curtas, mas se alongam muito no percurso, se olharmos para trás não vemos nada, porque ela anda ao lado. Por isso o susto, o desconcerto de encará-la nos olhos, quando achava que se perdia no caminho. Foi só pegar o bicho-boneco e as incertezas todas, as feridas não saradas voltaram a sangrar um pouco. No meio da tarde, passou a mão no fundo da bolsa, puxou o boneco e todos os sentimentos se agarraram nele. Tentou analisá-lo com distanciamento, são anos de caminhos tomados, mas o bicho fitou a moça, arrancou a tampa que escondia lágrimas, decepções, sorrisos e felicidades de todos os tamanhos; o bicho abriu as comportas de uma represa lotada até a borda e houve quem não se salvasse na correria. Ela mesma quase não voltou.

  Quando os primeiros sentimentos molharam seus pés, ela quis chorar, um pouco de saudade, de desilusão ou da sensação de que poderia ser de outro jeito. Parada, recolhida no susto do encontro, os sentimentos subiram até os joelhos, as coxas, o ventre e nada ela fazia. Tomou o umbigo, cintura, seios, começava a alcançar a boca, até que a primeira lágrima caiu, encontrou o sentimento e o nível do alagamento começou a decrescer. Chorar foi a sua salvação. Desaguou anos de sentimento guardado no armário, escondido atrás da pilha de camisetas. Chorar fez as feridas pararem de sangrar, o coração desacelerar e o rosto inchado no espelho provocou riso. Tinha um boneco de passado nas mãos e não sabia o que fazer com ele. 
   
  Queime-o, afogue-o no copo de cerveja, abandone-o em água corrente, esqueça-o no carro de um desconhecido, no táxi, no ônibus, num vaso de plantas de um prédio qualquer, assegure distância ou destruição irremediável desse vudu do amor, com agulha cravada no peito. Esse objeto enfeitiçado que só em tê-lo nas mãos, é capaz de abrir uma barragem, de causar um estrago e deixar um povoado confuso entre lágrimas e riso.

Esse amor-remendo, que deixou  um souvenir-símbolo do amor acabado. Coração flechado, encerrado em metal. Deixou que ela carregasse o boneco azul com corações nos olhos e alfinete enterrado no peito. Deixou a miséria de um boneco azul de linha, um resto de história que nunca aconteceu e a impossibilidade de uma amnésia. Deixou-a atada a essa pequena monstruosidade sem saber como se desprender dela. Fogo na cozinha ou água corrente de rio? Onde achar um rio uma hora dessas?

  Quis que a outra parte estivesse aqui, na sua frente, o encararia como o bicho, que andou na sua bolsa, fez com ela e diria:
- Leve seu amor-fantasia e todos os traumas escondidos na  manga do seu terno colorido, mas o boneco é meu e arrancado o coração, de alguma lembrança ele me salvará. Leve o seu amor e toda nossa incompreensão que coube dentro dele. Agora estamos sós, nós. Você para lá e eu vou aonde eu quiser. Seu amor-remendo agora é só meu, sem amarras, sem limitações ou castigos. O feitiço é só esse: liberdade e desejo sincero de outros horizontes para mim e para você. Fomos o que pudemos, terminamos sendo o casal desfeito clichê dos filmes: um pouco de raiva, de culpa e arrependimento de começo e depois de fim. Mas o boneco ficará no fundo da bolsa, onde sempre esteve e eu não soube matar. O amor queimou inteiro, as cinzas nós jogamos num rio largo de correnteza forte, mas o boneco eu salvei e as boas lembranças eu escondi do fogo.  Eu me liberto, me salvo.

  Guardou-o no fundo da bolsa, o amuleto é seu, sua derrota, sua vitória, sua história. Antes, arrancou os corações dos olhos e o alfinete cravado no boneco. Agora, era um farrapo de linha azul, cego e de peito completamente aliviado, o seu amor-remendo que não doeria nunca mais.



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