domingo, 12 de março de 2017

Do oitavo andar é que não virá

  São só oito andares. São oito camadas, de apartamentos e gente, que o separam da superfície. Acho que sobe de elevador, na maioria das vezes, embora as escadas pareçam para ele mais estáveis, mais seguras. Só o concreto é confiável na vida dele, fundada em cimento, tijolo e vigas de aço. Mas tem estado mais cansado, com menos fôlego a cada vez que aperta o oito, que depois de iluminado, sobe obediente, abre a porta subserviente, sem nenhuma pergunta, e ele chega, sem o esforço de escalada. Chegou ao alto e nem sabe se era isso que queria. Quase se esquece do caminho que fez até lá. Do oitavo andar, ele não pode ouvir os motoristas buzinando, a propaganda dos ambulantes, a chuva cair no asfalto, os pneus derrapando na tinta grossa das faixas de pedestres, os cães farejando possibilidades de amor.  Do oitavo andar você não pode me ver.

  O oitavo andar é alto, é distante, é um outro continente, tem clima ambiente, é higienizado, decorado e mantém sempre a melhor educação. O oitavo andar é o último refúgio da sua classe, que não se curva, não se mistura, tampouco se suja com óleo das engrenagens que erguem os elevadores aos seus andares.  Eu não falo a sua língua, não frequento sua tribo. Seus parentes, eu nunca vi. Não sei a sua idade, nem se vacinou contra febre amarela. Eu não estava lá quando você doou sangue, quando quebrou o copo, enquanto lavava louça. Não sei se as suas mãos têm calos, se são lisas, se os dedos são compridos ou tortos. Mas eu nunca me esqueço de olhar para o oitavo andar.

  Oito distâncias da minha vida, sete possibilidades de descer em um andar que não é o seu, seis horas e você vai até a janela, cinco minutos depois já está sentado de novo, quatro toques no telefone até você atender, três minutos para chegar ao elevador, duas voltas de chave na porta,  um só instante que eu o vejo hoje. Subiu os oito andares e eu não estava lá.  Eu não sei se é estrangeiro. E se for, eu não conheço o seu país. Não compartilho da sua mesa, nunca conversei com os seus amigos, não subi no elevador com você, eu sempre estive na escada esperando-o. Oito andares e eu não sei fazer você descer ainda.

  Oito andares de gente que talvez já tenha ouvido a sua voz, tenha discutido com você, reclamado do seu jeito de estacionar o carro ou do barulho e poeira da última reforma que você fez em janeiro. Sua gente não se acostuma com barulho que não é o dela mesma, sua gente não suporta poeira em cima do mobiliário caro e do cabelo com spray.
 Oito andares de gente que talvez tenha visto os seu sorriso gentil e tenha achado-o incrivelmente simpático, bem humorado e disposto às oito da manhã. Oito andares de admiradores com o homem que estaciona o carro na pior vaga, no fundo e que pediu licença antes de começar as obras de reforma e desculpas depois que acabaram. Sua gente não resiste às gentilezas.

  Oito andares que eu não posso subir, oito geografias que eu não aprendi no mapa com o professor que gritava meu nome de um jeito engraçado e paternal. Oito dezenas de vidas que você verá todos os dias e não vai conhecer a minha, porque eu não estou no seu clube dos oito. Oito andares de paredes de todas as cores, mas de tijolo laranja por baixo da delicadeza e do bom gosto - os quais vocês nem sabem o quanto custaram -  iguais aos outros quinhentos da cidade. Oito andares de apartamentos e gentes para eu não me lembrar de você e por que não o esqueço, então? Porque não passo ao sexto, ao sétimo ou ao primeiro, o andar mais acessível de todos.

   Oito andares e eu ainda estou sentada no primeiro degrau do primeiro andar, ninguém passa, ninguém me pergunta o que faço na escada do prédio ao qual não pertenço. Escuto os carros lá fora, eu não saberia viver para sempre no oitavo andar. Na portaria toca uma música antiga, eu canto baixinho, porque me lembro ainda da letra - quantas músicas cabem na memória de um adulto médio, em média? -  parece a trilha da minha história de espionagem, escadas e andares.
- Meu filme é ruim.
Eu disse.
Vou embora e não subo nenhum degrau, nem um.
 
  Meus oito andares de desistência. Há quinze meses que eu só penso em você. Há quinze meses o oitavo andar tem ficado cada vez mais alto. Não tenho garantias, segurança também não tenho, falho mais que os elevadores, não sou concreto, nem aço,  mas tenho olhos fixos para o oitavo andar e nada mais. Do oitavo andar ele não virá. Ele nunca desce, ele só aprendeu a subir. Do encastelado do oitavo andar eu não escuto nem os gritos, porque ele ainda não sabe que está preso. Vou pela rua e farejo possibilidades de afeto com os cães. Na superfície é que eu transito bem.



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