segunda-feira, 6 de março de 2017

O tempo de ninguém

   Guarda um tempo, não existe um nome para ele, então escreve "livre", circula-o na agenda, separa-o do ordinário com um asterisco, caneta vermelha ou marca-texto cítrico, destaca-o para si e não conta. É seu o tempo, é um espaço reservado para o que poderá chegar e assumi-lo com o seu consentimento. Se baterem na porta, se gostar da voz, vai dizer que sim e abrir, se não gostar, não vai se calar,  vai gritar que não.
- Não é você!
   Não tem serventia  prévia, senão o da espera por algo que ainda não sabe o que é, até a sua chegada. Ali, dentro do círculo, entranhado na caneta vermelha ou sob o marca-texto onde caberá o improviso, o imprevisto, a surpresa que não pode ficar nas horas preenchidas. O inesperado, aguardado numa linha da página.

  Embrulha, esconde e se perguntarem vai dizer que não tem. Porque podem querer forçar a entrada, invadi-lo e quem sabe, ocupá-lo definitivamente. Vão querer domar, encarcerar, submeter, forçar a liberdade com um laço apertado, chamando de enfeite. É um tempo que não pode ser gasto com o essencial, está ali para o extraordinário, só ele cabe. No cronograma, a professora chama de "janela", mas não olha para fora, a mantém fechada, guardada para a grande hora, evento, pessoa,  assunto ou aula que não cabe na rotina.

  Acorda mais cedo, não toma café, vai comer qualquer coisa no intervalo, corre atrás do ônibus que já saía, acena, grita, entra e agradece ao motorista. Enquanto olha a rua, se segura nas curvas e subidas, repassa mentalmente o dia. "Vai dar tempo". Chegou, desceu, correu. Entra na fila do elevador. "Cabe mais um?". Cumprimenta os colegas, não gasta o tempo na sala do cafezinho, busca o copo e toma o café, na sua mesa mesmo, sem biscoito, sem assunto, em três grandes goles, entrega o relatório, faz as ligações e responde às mensagens. Olha para o relógio do computador, do celular, da parede. Desvia de novos compromissos, adia, desmarca, cancela, não vai, o tempo do inesperado precisa ser mantido, protegido do mundo das coisas perecíveis.

  Esconde um tempo na bolsa de lona, no bolso da frente da calça jeans, na gaveta da mesa de casa, no vaso de flor, onde também esconde a chave eventualmente, debaixo do tapete da sala, no pote em forma de vaca, que fica em cima da geladeira. Atravessa o corredor em doze passos largos, grita para segurarem o elevador, acelera numa corrida sem preparo, abre passagem nas ruas, corta transeuntes, desafia os carros nos sinais que pararam de funcionar,  tudo para esperar o que virá ocupar o tempo guardado. Não pode se atrasar para o compromisso da liberdade.

  Chega em casa, toma um banho, faz o chá, coloca uma música e espera a visita que nunca falou que viria.
- Mas vai vir a qualquer hora dessas, guardada para ela.
 Escuta outra música, se emociona com a letra, o chá acabou, vai fazer mais. Volta, senta-se na poltrona, duas horas passadas e nenhum sinal. Talvez venha pela janela, abre a persiana, olha para os fundos do apartamento vizinho.
- Olhar dessa janela nunca foi bonito.
  Fecha metade da persiana e se senta, olha para o telefone e pode vir sim de lá. Porta, janela, telefone. Janela, telefone e porta. Telefone, porta e janela. Janela, janela e janela. Telefone, telefone e telefone. Alguém parte à porta.
- Só para entregar sua correspondência, já é a segunda que colocam na minha caixa essa semana. A outra eu entreguei na portaria, essa eu resolvi entregar pessoalmente e conhecer a dona.
- Ah. Obrigada, obrigada. Dá aqui, desculpa o trabalho.
- É...
- Com licença, mas eu estou esperando...telefone, alguém...
- Claro. Foi um prazer.
- Obrigada.

  Três xícaras de chá, dois envelopes abertos, janela semi-aberta, telefone nas mãos, porta marrom, com manchas mais claras e puxador acobreado. Nenhum capítulo do livro, nenhum episódio da série, nenhuma confidência para amiga que vive agora noutro continente. Sono no sofá. As horas guardadas, que ninguém chegou para usar, nenhum acontecimento não-marcado apareceu.
  Escoam pelo ralo, os minutos amarradinhos num laço de cetim, descem lisos, lentos, mas muito fluidos, fogem das mãos, escapam por entre os dedos e nunca mais poderão ser recuperados. Pior que as horas fugitivas, dói mesmo o que não chegou a ser. Esse tempo, sufocado no esconderijo, que não teve dono; tempo de ninguém que ficou no mundo, mudo de significado, invisível na história.

  Pode chegar a qualquer momento. Pode não vir agora nem mais tarde. Não virá, quem sabe outro dia. E o tempo não usado, mofou no armário; detergente e pano úmido para limpá-lo. Porta, janela e telefone. O tempo que guardou e nunca usou é uma fotografia que nunca chegaram a revelar. Segura um papel em branco, ergue com orgulho e diz:
- Que dia maravilhoso este, que nunca aconteceu.



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