quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Uma vela para a santa e o dedo médio para os fascistas

 A distância entre uma promessa e a sua realização é um cálculo imprevisível. Pode ser curta, logo ali, ou mais longa do que o desejado; pode ainda, não chegar nunca a se cumprir. Uma promessa perdida do seu caminho e jamais reencontrada, sem cartazes, sem anúncios, sem um corpo a ser velado; uma promessa volátil, tão logo feita, dissolvida no ar; uma promessa esquecida do seu destino, souvenir perdido na viagem de volta.
  Às vezes uma promessa só é concebida para adiar um fim, para salvar alguém da morte ou do tédio que frequenta a vida; uma promessa inventada para ganhar mais tempo, entre o seu lançamento e a sua chegada ao chão; cacos varridos e dispensados em sacos pretos de plástico.

 Uma promessa-mentira, cuja verdade está na vontade de criar um mundo diferente deste, um lugar onde qualquer promessa pudesse chegar a se cumprir.
  Uma promessa-cenário, que ludibria os olhos de alguns espectadores, mas não esconde do cenógrafo as partes remendadas nos bastidores.
  Uma promessa-esperança, vontade de acreditar na possibilidade do seu cumprimento; promessa-bandeira, hasteada na proa do barco para ter mais vontade de remar.

  Duas da tarde, passamos pela avenida e vem ela, que nos atinge como um pássaro perdido, uma flecha, um raio de luz;  vem trêmula, com passinhos tortos, mas muito determinados. É uma senhora que usa boina e ósculos escuros, tem o cabelo grisalho bem curto, veste um casaco xadrez, mesmo que faça sol e nos olha com uma esperança exaltada. Vem pelos adesivos que trazemos nas camisetas.
- Ele não, né?
- Não! Ele jamais!
   Ela segura o meu braço e a sua tremedeira parece se assentar; como uma criança perdida dos pais na praia e, de repente, os tem de novo. A respiração é ofegante, as suas narinas dilatadas, que parecem com as minhas, mas começam a tomar formas mais delicadas e ela conta, sem que pedíssemos, ela desabafa porque se vê entre iguais:
- E eles querem que os militares voltem, de novo! O que essa gente tem na cabeça, minhas filhas? Morei em Brasília durante quarenta anos, vivi toda a ditadura lá. Trabalhei para eles, eu sei o que eles são capazes de fazer. A tortura...
  Ela engole o resto da frase e nós duas não sorrimos mais como antes, eu e minha irmã, com adesivos no peito e a nossas esperanças mais latentes do que o sol de sábado. A mulher, cujas narinas são quase iguais as minhas, continua:
- Só não fui torturada porque eu tive que andar na linha, né? Que tristeza tudo isso!

  Então porque, de repente, tenho um amor pela história dela, porque ela segura o meu braço e parece precisar de mim, eu prometo:
- Nos vamos virar!
- Você acha?
- É claro, eu tenho certeza!
Minha irmã faz coro:
- Vamos sim! Nós vamos ganhar.
  Eu prometi porque a amei, prometi porque acreditava ou queria, prometi porque ela tão vulnerável, pequena, trêmula, idosa não merecia o país sombrio que ela conheceu, prometi porque não sei viver sem prometer nada.
 Somos três mulheres, às duas da tarde numa avenida da cidade e sorrimos tão cheias de fé, que entre a promessa e a sua realização, parecia ser só atravessar a rua.
 Eu prometi um lugar afetuoso e iluminado para a sua velhice. Eu prometi sensatez e liberdade; sororidade e direitos humanos. Eu prometi a ela um país, entende?

  Ela, agora, parece mais esperançosa e ainda mais próxima:
- Eu coloquei o treze aos pés de Nossa Senhora, eu acendi uma vela para ela iluminar a democracia.
- Sim. Nossa Senhora vai iluminar a todas nós.
  Eu pareço mais crente agora. Ela solta o meu braço e se despede:
- Vão com Deus! Nossa Senhora abençõe.
Minha promessa é mais forte do que eu e grita:
- Vá com Deus e fique tranquila! Nós viramos amanhã.
  Talvez ela tenha tido o último sono de esperança; talvez a minha promessa tenha sido seu melhor travesseiro.

  No domingo à noite eu chorava muito, chorava porque os cacos de uma promessa ainda feriam os meus pés, porque eu me lembrava das narinas dilatadas, desesperadas por um futuro que não repetisse um passado no escuro, chorava me lembrando das mãos dela no meu braço, do seu desassossego na sua chegada e da sua alegria na partida.
  Chorei porque eu só me lembrava da promessa não cumprida.
- Eu não dei um país a ela.
  Chorei porque a imaginava apagando a chama da sua vela com uma lágrima de desesperança, uma promessa arruinada. Chorei porque eu me vi na senhora exaltada, partilhando do seu desamparo com duas desconhecidas e sendo acalentada pela mais mentirosa delas.
- Quero dormir e esquecer esse dia. Quero dormir e esquecer a mão dela no meu antebraço.

  Antes de dormir, numa imagem do jornal, uma menina preta pequena e corajosa, erguendo o dedo do meio para uma mulher quase branca que parecia gritar com ela, vestida numa camiseta com a imagem de um mitomaníaco,  enrolada na bandeira de um país que era outro e mesmo nosso. A menina sem medo, impassível, não-subjugada com o dedo médio, única arma, contra os fascistas. Eu queria ter mostrado a foto para a mulher de sábado.
  Nem todas as promessas se cumprem no tempo em que gostaríamos, nem todas as promessas irão se cumprir um dia, mas quem tem coragem promete; quem tem promessas se levanta no dia seguinte. Eu devo a elas, não sucumbir, serei a menina, desafiando os gritos e a velha senhora, acreditando nas promessas de desconhecidos.
  Eu, a minha irmã, a menina preta, a mulher de narinas dilatadas, não somos derrotas, somos promessas.




2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Minas Gerais, dois de novembro de 2018

Amanda,

Sinto a compulsão de citar Fausto e sua vitória como uma doação (dentre tantas) de Mefistófeles para que cumprisse a sua promessa de ser fiel ao demônio. Só no fim do primeiro ato, o povo na pessoa de Gretchen reconhece nele o mal. Gretchen é perdoada e Fausto segue seu destino abraçado ao seu mentor.

Um abraço

Paulo

Amanda Machado disse...

Minas Gerais, 03 de novembro de 2018 (como explicaremos esse ano nos livros?)

Querido Paulo,
suas contribuições são, mesmo, sempre surpreendentes e incrivelmente oportunas... acho que Gretchen já começou a se dar conta da sua ingenuidade. Sim, há de ser perdoada! Mas os custos, me parece, serão demasiado altos. Avante!
Abraços com muita gratidão,
Amanda