Grisalho, muitos amigos, fotos em mesas de bar, em casamentos, formaturas, tinha uma na mesa amarela do bar do Abud, talvez tenha pedido uma porção de quibe antes da foto, engraçado e engajado também. Estava há cinco meses em confinamento, saiu apenas para um procedimento médico de emergência no coração, vi o seu rosto aliviado na sala de pós-operatório, uma foto na verdade.Trabalhou com moda, educação e arte. Seus amigos, alguns também são meus, são das mais diversas áreas. Desinibido, debochado, inteligente.
Morava em um apartamento no mesmo bairro que o meu, não sei onde; nunca nos encontramos. O salário era no mesmo dia incerto que o meu, ele reclamava sempre e eu fazia coro daqui do outro lado; de um lado que possivelmente ele conheceu muito menos do que eu o dele. Artista e professor. Estudou na mesma Universidade na qual eu também me formei alguns anos depois. Há três dias um post com a frase: mundo besta. Concordei de novo. É besta sim, alguns dias mais do que em outros.
Há três dias ele escrevia, sem desconfiar, o próprio epitáfio da rede social e era: mundo besta. O coração. Leio nas postagens de amigos em comum que o coração dele falhou de novo e dessa vez sem tempo para reabilitá-lo, sem tempo para uma selfie para despreocupar os amores, sem tempo para uma piada sobre a sua escapada da quarentena.
Há cinco meses eu acompanhava os dilemas do meu amigo não declarado e partilhava, sem que ele soubesse, da maioria das suas questões: indignação com a política, risadas com a política, paixões políticas. E concordava. Porque sim, somos políticos em escolhas, em afetos, em desilusões.
E eu achava que tinha tanto para dividir com ele, porque tínhamos tempo e ele fazia dezenas de promessas para a centena de amigos com quem ele conversava publicamente por postagens que eu acompanhava.
Litros de cerveja, desejos e certezas de encontros, "quando isso tudo passar", no bar do Abud, no bar do Bigode, no bar do Abílio. Certamente nossos copos se encontrariam num brinde, alguém de nós pediria uma cadeira vazia da mesa do outro ou um esbarrão na fila para o banheiro. Porque tínhamos tempo.
Há três dias ele constatava que o mundo era besta e eu assentia levemente com a cabeça, que devia mesmo ser; possivelmente algumas das nossas razões não se coincidiam. Mas a afirmação sim. Estava completamente em acordo, mas não me manifestei. Talvez porque achei-a tão óbvia, tão universal. Há três dias a última frase dele para mim foi essa. Nenhuma outra eu terei.
Há cinco meses tenho planejado as conversas que não teremos: sobre a comida japonesa que ele voltou a comer porque terminou o namoro e a ex-namorada não comia comida japonesa.
- Mas como você deixou de comer algo só porque ela não comia?
Daí eu me lembraria de um caso meu parecido e seríamos solidários com as nossas falhas. Pediríamos sushi e cerveja, enquanto gargalhávamos. Isso não vai acontecer.
Há cinco meses ele se preocupa com a saúde do país e não sabe que o próprio coração deteriora. Há três dias ele se despede sem saber que vai embora. Este é o mundo besta que ele disse.
Mundo besta que não nos prepara para o deixarmos. Que nos deixa partir com raiva do governo, com boletos abertos e com desejos de abraços e cervejas. Mundo besta que deixa dezenas de amigos com a mais cruel saudade, que é esta, desesperançada do encontro.
Mundo besta que nos mantém ainda mais distantes da vida e dos nossos afetos, por longos cinco meses, e depois nos leva ou leva a quem desejaríamos encontrar.
Foi embora sem receber a segunda parcela do seu salário, caiu na conta ontem; sem pagar a internet que vence dia vinte e cinco, sem ir a um rodízio de comida japonesa e com muita, muita raiva do governo. Mundo besta.
Na lápide virtual na qual eu choro agora, sem explicação lógica aparente, essa frase me atravessa. Esse epitáfio da rede social: mundo besta. Que despropósito essa saudade que agora eu tenho. Com quem mais eu vou dividir a humanidade da minha concessão gastronômica equivocada? Para quem mais eu vou levantar um brinde pela amizade amarela nascida no asfalto cibernético?
Queria ter estado nele como ele está em mim hoje. Queria ter dito que o mundo era besta sim, mas ele fazia o mundo ser menos besta. Queria ter pedido cerveja e sushi e exclamado com ele: mundo besta. Mundo besta, professor. Mundo besta.
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