quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Com os pés para fora de um país

    Há três semanas eu vejo o mesmo par de pés. Aos poucos vou reconhecendo, entre os objetos que decoram o descanso semidescoberto desses mesmos pés, as especificidades de uma vida devassada e invisível. Não há nada entre os elementos que margeiam este corpo, que possam definir idade, cor ou gênero. Por semanas, apenas o par de pés de um corpo desconhecido.
  Estão sempre inertes, quando passo. Não se elevam, não se entortam, não se coçam ou se entrecruzam. Um par de pés que descansa na calçada de uma das ruas cujo trânsito é dos mais intensos da cidade. Penso nos pés quando chove à noite, penso enquanto assisto ao noticiário da TV às sete e preveem mais chuvas, penso quando saio do trabalho e eles não estão mais lá. - Qual a  parte da cidade esses pés tocam agora?

   Durante semanas, somente os pés e o acervo diversificado que o circunda: uma sombrinha estampada com flores, um carrinho de supermercado, um balde vermelho com rachaduras nas bordas, algumas peças de roupa penduradas, garrafas pet, uma bolsa de viagem azul-marinho sem uma das alças e uma outra amarela bastante desbotada, uma garrafa de água com motivos infantis, sacolas plásticas cheias de algumas utilidades, meio vidro de mel com própolis, o colchão e a barraca que cobre cabeça, ombros, joelhos, mas os pés não. 
 
   Atrás da catedral de Santo Antônio, uma vida de fragmentos sobrepostos; sombrinha quebrada, balde rachado, pés descalços, sonhos - ou será só sono? - e   a insegurança dos pés descobertos. 
  Há semanas eu passo e me perco um pouco a cada dia, entre as roupas penduradas, os objetos infantis, reconstituindo a função que era só fantasia. Um par de pés que não cabe na barraca da Dora Aventureira; mãos grossas que seguram uma garrafa com carrinhos coloridos para matar a sede adulta; uma sombrinha florida, que ajuda a proteger alguma intimidade: um ronco, um riso, um choro com soluço no meio da noite. Uma sombrinha que não serve para as chuvas dos últimos dias, tampouco para o sol de dezembro.

   Nada dura, nada nos pertence infinitamente; coisas e pessoas têm seus sentidos instáveis, variam como moeda. A barraca rosa e lilás da filha que cresceu serve, agora, ao corpo adulto que destoa de uma engrenagem comum. A Dora Aventureira não é capaz de proteger um corpo inteiro, se real. Mas está lá, instalada todas as noites numa rua do centro de uma cidade que também não é grande o bastante para proteger os nossos pés. 
  Mas a cidade é muito mais dele do que dos padres, que eu nunca vi fora dos templos; do que dos professores que reclamam do café fraco, do que das médicas que cobram quase um terço do salário de um trabalhador para emitir o atestado de três dias na falta ao trabalho. A rua é mais do par de pés, do que dos automóveis que sobem e descem incontáveis vezes pela rua, mas não sabem nada da rua.

   Na segunda-feira, ainda de longe reconheci Dora Aventureira, a sombrinha de flores e o balde vermelho, na manhã seguinte a uma tempestade gigantesca. Dora não sucumbiu - pensei aliviada. Cheguei mais perto e os pés não estavam. Procurei um par de pés de um corpo enigmático, porque é tudo que eu tenho pensado nos últimos dias. Olho um pouco mais a frente e um homem com um copo descartável cheio de café me olha, ainda sentado no colchão, sorri e me deseja um bom-dia sonoro e vísivel. 
  Depois de semanas, eu não vi só os pés. Eu vi um corpo, um homem, um sorriso e um café, com a naturalidade de um afeto antigo que adormece no meio de uma conversa e acorda no dia seguinte mais cedo para passar o café e desejar um dia bom. E eu tive.

  Essa rua, essas pessoas, esse bairro, lugar nenhum e ninguém aqui merece, mas ele nos dá. Os pés que conhecem mais essa cidade do que os meus, que estão mais vulneráveis e, mesmo assim, são mais corajosos e ousados do que maioria dos pares de pés do mundo serão a vida inteira tem um dono cujo sorriso matinal desperta minha esperança sonolenta.
  Possivelmente eu também não os mereça, mas o sorriso e o cumprimento acertaram  um lugar em mim que eu não esperava essa manhã. Nem Santo Antônio nem Catedral; nem trabalho nem os livros; nada me afetou mais do que o proprietário da casa rosa e lilás, cujo telhado tem uma menina de franja e mochila. No país dos pés para fora, às vezes a vergonha é brevemente substituída por algum tipo de esperança, ainda que rota, debotada, rachada, suja e sem uma das alças.

  Queria merecer o que ele me deu ou acreditar que mereço. Queria que a existência dele coubesse nesse país. Queria que pudéssemos nos cumprimentar numa situação menos desigual. Mas ainda não há nem para ele nem para mim, um país em que os nossos pés estejam cobertos. Nascer nesse lugar é não caber. Nascer aqui é ter sempre os pés para fora e, depois da chuva, andar. Mas nascer aqui também é esperar que os pés se mostrem, ser acalentada pelo sorriso de um desconhecido que me dá o que ninguém mais pode. Mesmo com os pés para fora de um país, ele sorri e me oferece o bom dia que eu não sabia que podia ter.


3 comentários:

Outsider disse...

Desobedeci. Li. E mais uma vez encontrei um belíssimo texto.

Outsider disse...

E a música...

Amanda Machado disse...

Está perdoado. Ao menos dessa vez! ;)
Gracias pela leitura e gentileza.