Hoje ninguém chama no portão, não tenta vender seguros ou, numa ligação, um novo pacote de dados para o celular. Porque é domingo, ninguém chama de meu bem, enquanto explica algo já compreendido, mas simplesmente não admitido. O alarme não toca, mas cinco minutos antes dele as pálpebras se abrem completamente despertas.
Porque é domingo, não escreve no quadro, não explica números mistos e advérbios, não se assusta com o sino do final de um tempo e se segura para não falar palavrão. Não assina relatório, não elabora tabela que ninguém mais lê, não escuta os passos do chefe no corredor e, de novo, pensa em demissão ou análise.
Porque é domingo, ninguém se lembra do porteiro e da seleção brasileira, porque também não tem copa nem partida. Não compra paçocas no semáforo, não desvia, com pressa, da pressa do outro que parece ter mais pressa.
Porque ainda é de manhã não precisa lavar o arroz, pendurar os tênis no varal ou pedir para o vizinho abaixar o som, porque as crianças já não dormem. Não precisa se organizar para acabar tudo mais cedo e separar a roupa do trabalho na segunda; porque ainda é manhã. Ainda não passou muito tempo, pode deixar para ligar para a mãe mais tarde e os antúrios ainda estão molhados da chuva da noite de sexta-feira.
Porque ainda é manhã, pode ter esperanças de um domingo surpreendente, feliz e duradouro. Não precisar reclamar da progressão do tempo, quando um corpo repousa; a física não é para agora. A resposta que precisa enviar ainda pode ser adiada por horas; porque é manhã e domingo, resolver não é agora.
Porque chove, não precisa ir correr na rua; comprar rabanetes e inhame na volta e, depois do banho, descer para buscar o jornal de domingo e a pastilha para a garganta na farmácia e se pesar na balança do lado direito dos caixas. Não precisa se lamentar por estar em casa em pleno domingo, assistir a um filme, ler um livro, ficar ensimesmada um dia inteiro não parece ruim em dia de chuva.
Porque está chovendo pode desmarcar o encontro, que já a torturava pelo peso do compromisso. E pode voltar a ter, de novo, agenda livre no dia de domingo, pela manhã, com chuva.
Porque não teve nenhum diagnóstico de morte para daqui a um mês pode adiar o cumprimento da promessa feita na virada do ano; de ser feliz a todo custo, de ir ao sul da França, Leste Europeu e Havana. Não precisa ainda planejar a viagem com a sobrinha pelo Atacama nem escrever para ela uma carta com conselhos que gostaria de receber de uma tia como você. Não precisa definir a relação, o seu desejo, a sintonia com um outro desejo nem se levantar da mesa, porque não servem amor. Pode ser que ainda chegue, antes de recolherem os pratos.
Porque a morte não avisou que chega logo, pode esperar pela vida longa, que acha que tem, e ser mais fragmentada e paciente do que esse bloco de decisões urgentes, furando o teto. É domingo de uma manhã chuvosa com a vida inteira pela frente; não precisa ter pressa em acertar agora.
Porque não teve nunca um acidente que deixasse cicatrizes, pode sustentar dores invisíveis e qualquer passado mais feliz do que aquele. Pode resistir à dor, às marcas da dor, à narrativa da dor, mas não as suas memórias; só que estas podem ser ocultadas .
Porque não teve um acidente que deixasse cicatrizes, pode exibir uma pele sem marcas, nenhuma fatalidade definitiva e aparente. Porque não tem cicatrizes, não precisa explicar aquilo que prefere não se lembrar. Porque é manhã, domingo, chove, a vida é longa e tem a pele intacta não precisa chorar em público ou superar nada agora.
Porque não morreu de amor, acha que Rosalina teve mais sorte do que Romeu e Julieta. Porque não é Montéquio ou Capuleto não se apaixona perdidamente em um baile nem faz promessas de eternidade aos treze ou aos dezessete - pelo menos não se lembra.
Porque não morreu de amor, separa os livros que esqueceu de devolver e deixa numa caixa na portaria de um apartamento do Centro, sem sonetos, sem longas despedidas, sem venenos. Porque é manhã de um domingo de chuva, com muito tempo de vida pela frente, sem nenhuma explicação para a cicatriz que não tem e porque não morreu de amor, pode ler as notícias sobre política, as tragédias sociais e se indignar porque matam e morrem sem nada que se assemelhe a um amor.
Porque domingo passado se repete neste, ninguém bate à porta, não fazem uma serenata sob a minha janela nem da casa vizinha ou de qualquer outra da rua. Porque é domingo não acho estranho não ter nada para fazer além de esperar que passe.
Porque é manhã de domingo ainda não há a melancolia da quase segunda-feira. Porque chove, a extroversão é menos imperativa; porque não não há acidentes graves na biografia, a vida parece ser menos arriscada e a morte muito longe. Porque ainda há promessas de muitos domingos, não parece ser um desperdício não fazer nada com este. Só pensar uma manhã inteira: o que será que foi feito de Rosalina, que não morreu de amor como a prima?
Nenhum comentário:
Postar um comentário