domingo, 13 de fevereiro de 2022

Dois meses de vinte e dois

   E ainda parece que não passou dezenove. Dois quilos a mais, quase meio grau de miopia, menos expectativas para o carnaval e alguém que não acordou - passaram batom, disseram; pelo menos isso. Mas não parece vinte e dois.
  Dois meses de vinte e dois e ainda lamento por dezenove; suas ruas cheias, seus cafés com pedidos trocados, o meu pão de queijo frio e o café com creme que eu não pedi. Uma conta equivocada - esse croissant  eu não comi -  um e-mail não enviado, porque o wi-fi falhou  e queria que falhasse a memória também, quando vejo alguém a quem eu reconheço na outra mesa, mas não parece que cheguei mesmo a conhecer.
  Dois meses de vinte e dois e não mais abraços e dois beijinhos no corredor, nenhuma pasta de dentes na pia do banheiro do escritório, que alguém esqueceu - e  eu vou usar, depois devolvo.
 
  Dois meses de vinte dois e voltei a colocar brincos há apenas seis meses. A orelha não inflamava, mas a prática de atarraxar pedras brilhantes  parece dar mais sentido ao ritual que antecede a qualquer saída. De dezenove ainda tenho uma viagem sonhada, uma festa de casamento a qual eu não fui, os passeios de barco em janeiro que outros fizeram, as salas de cinema nos finais das tardes dos domingos e o filtro solar que só gastei um tubo de lá até aqui. 
  Dois meses de vinte e dois e as pessoas das fotos já parecem mais familiares que as pessoas que eu via em dezenove. As legendas das imagens são biografias que leio sem me interessar tanto, mas continuo lendo.

  Dois meses de vinte dois e  parece que acabo de sair de dezenove, quando fecharam as escolas, os bares, os museus e os shoppings, quando fiquei um mês e meio arrumando os armários e fazendo ioga, quando ir ao supermercado e ao banco parecia tão arriscado quanto atravessar um campo minado. Em dois mil e dezenove chorávamos por uma vida perdida, só hoje foram sete e as lágrimas caíram longe daqui. 
  Vinte e dois e conheci menos pessoas do que as que me afastei ou se afastaram. Dois meses de vinte e dois e a matemática não joga no meu time. 

  Dois meses de vinte e dois e só os cães parecem seguir leves. Os campos minados já têm indicações mais seguras, caminho doze quilômetros por dia e ainda chego salva.  As luzes azuis da TV na casa dos outros voltaram a me consolar, as canções infantis no recreio da escola infantil ainda são as mesmas de dezenove, mas essas crianças não conheceram dezenove.
  Dois meses de vinte e dois e ainda esperamos pela cura, agora menos esperançosos e mais realistas. Criaram a vacina, mas ainda nenhuma  máquina de colar os pedaços partidos, nada que devolva o que perdemos desde dezenove. 

  Dois meses de vinte e dois e eu também fui feliz; mesmo quando não sabia. Depois de dezenove os pequenos dramas humanos persistem: uma pessoa que não queira substituir outra, ser outra, aprisionar outra. Uma pessoa que contemple a outra sem roubar. Uma pessoa que saiba oferecer sem cobrar. Uma pessoa só; uma pessoa não tão só às vezes. Um idiota com microfone e uma pessoa sensata pensando solitária, enquanto toma banho.
 
  Dois meses de vinte e dois e as cartas não deixaram de chegar, o preço do gás continua subindo e os vírus são menos mortais que os homens. Dois meses de vinte e dois e ainda nos preocupamos em pagar as contas, ligar para mãe aos domingos e perguntar aos irmãos se no feriado nos encontramos. Dois meses de vinte e dois e dezenove parece um ontem distante. Uma imagem da liberdade que nunca tivemos. Dois meses de vinte e dois e eu não me acostumei ainda com a notícia de que você não virá para a festa junina; nunca mais.



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