domingo, 24 de abril de 2022

O outro mundo que cuide das suas rachaduras, neste é só um fio por enquanto

  Ainda na cama, assistindo à luz ocupar o quarto, lânguida, paciente e silenciosa sem nenhum outro pensamento para além da mesinha de cabeceira. Não precisa ter urgência para se levantar hoje, se detém a olhar profundamente este mundo de dez metros quadrados e repara, mais uma vez, no que parece um fio de cabelo grudado na parede.    
  Olhou-o nas últimas semanas, mas não se levantou para conferir o que era e quando esteve de pé, no quarto, não se lembrou do fio. Não causa asco como  se estivesse no prato. É, possivelmente, seu mesmo. Já que foi ela quem pintou o apartamento. Fio fino, fio longo, preso à parede. Atado à casa, à este mundo que antes das sete, só é invadido por luz e calma.
 
  Um fio de cabelo na parede que é diariamente perscrutado por ela, deste lado da cama, sob essa luz, nesse dia sem pressa. Um fio descoberto há semanas, talvez num dia parecido com este, mas ainda não conferido de perto. Se arrancá-lo, vai deixar um pequeno sulco na parede lilás. 
  – Talvez ainda tenha um resto de tinta no armário do banheiro.
  Mas cobrir a fissura depois do fio arrancado, deixará a cor da tinta num tom diferente do restante da parede. E se não cobrir? E se deixar o sulco aparente? Melhor deixar o fio intocável.

   Mas talvez não seja cabelo. E se for o começo de uma fissura? É um fio ou uma ruptura? Um vestígio aprisionado ou uma rachadura deste mundo? Deve ser assim o início de um desmoronamento: uma fresta minúscula que aumenta gradativamente, até irromper numa queda bruta. 
  Há semanas vê a linha exata na parede, mas ainda não analisou sua espessura de perto. É normal que as paredes tenham essas aberturas mínimas, a física explica a dilatação das construções. Mas deve haver uma medida máxima, um número de segurança, um critério que garanta a permanência da estrutura. Talvez ligue para o primo engenheiro, talvez pesquise na internet, talvez seja só cabelo.
  Deitada na cama, se lembra da casa de uma tia — a mãe do engenheiro — cujas rachaduras nas paredes e chão permitiam ver o solo logo abaixo, porque a casa era suspensa, e o que acontecia fora. Andar pela sala, com o chão um pouco torto, de tábuas levantadas e com frestas por todos os lados, era um pouco fantasia e também risco. Às vezes ainda sonha com essa casa de paredes e chão instáveis e fendidos; bonita, quando entravam os raios de sol e precária quando fazia frio e chegava a noite muito escura. Talvez os primos sonhem mais com a casa do que ela; nunca perguntou. 

  Pode ser só um fio do seu cabelo ou o destino do seu mundo de dez metros quadrados, o de cindir até ficar completamente vulnerável ou integrado ao outro mundo. Deve ser assim, com todas as casas ao redor de um vulcão em atividade, uma rachadura perfeitamente confundida com um fio, até passar uma agulha, depois um estilete, uma caneta, um prendedor de cabelo, até, um dia, uma perna atravessar a trinca. Rachaduras pequenas, talvez a acomodação. Um risco na parede identificado há semanas, talvez um fio, talvez o início de uma queda. Uma estrutura abalada, uma impossibilidade de partir de onde parou. Não tem continuidade, se as paredes já anunciam degradação.

  Esperar ou se levantar imediatamente e pegar o que pode? Fugir ou esperar? Esperar ou se antencipar à tragédia?
 Resolve esperar para analisar o fio mais detidamente. Ela que sempre espera. Espera a tinta secar, a música, o filme e o livro terminarem ou por alguém que não vai chegar; só depois de muito tempo, desiste. Depois de cada ônibus vazio, um pouco da esperança se apaga, mas precisa de um dezena deles para saber que não vai chegar. 
  A fissura ameaça destruir tudo o que é conhecido, familiar e seguro. A rachadura na parede é só o início de um mundo que virá abaixo. Está de camisola e precisa reagir. Está em jejum e a fuga talvez seja urgente. É domingo e talvez poucos vizinhos possam ouvir o seu grito.

   Se levanta delicadamente, não quer forçar o piso, não quer abalar ainda mais a estrutura do prédio. Tenta ser mais leve e gerar o mínimo de impacto. Se aproxima da linha, mais iluminada agora pelo sol das sete e meia e tenta analisá-la sem tocar. 
  Olha sob todos os ângulos possíveis, faz a perícia da própria pintura, percebe que passou o pincel em duas direções diferentes, rompendo com a regra básica da pintura de paredes. Fará melhor da próxima vez; pensa.
  Só o olhar não garante a primeira desconfiança e a impressão recente, por isso passa o dedo indicador sobre a linha. O dedo não perpassa, não afunda ou sente, minimamente, um declive, mas uma pequena elevação.

  Não é dilatação das paredes, não é terremoto, não é uma acomodação de magma, não é o prenúncio do fim, mas um fio. Longo, fino e dela. Um fóssil, sem nenhum valor arqueológico, encrustado na parede do único mundo possível nas manhã de domingo. 
  Cleópatra, Nefertite, Euridíce e Merneite deixaram legados arqueológicos menos ordinários. O fio fica. Talvez não o retire nem na próxima pintura. O fio será, um dia, o único vestígio dessa existência, desse domingo, desse medo de que a rachadura destruísse seu mundo. Por enquanto é só um fio, agora só as rachaduras de fora é que ameaçam nas manhãs e aos domingos.



2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Minas Geraes, 27 abril 2022

Querida Amanda

Ainda sigo acamado, mas em recuperação. Hoje vim passear neste campo florido, que é seu lar. Que bom que vim.

Como sempre faço, me pergunto - o que Amanda quis dizer com isto? Veio à borda da memória um aforismo - "O medo de cada dia nos dia hoje."

Tive que consultar Merneite, confesso que desconhecia a moça egípcia.

O medo ... este incrível sentimento que não existe no plano presente. Só existe no futuro. No presente há somente a sensação de perigo de algo que não existe. Mas o alimentamos tão bem, que ele, o Medo, é capaz de destruir nossos sonhos, nosso amor próprio, nossos sonhos e nossas esperanças.

Por hoje foi excelente o café, o bate papo e a sua elegante companhia.

Um abraço!!!

Amanda Machado disse...

Minas Gerais, 27 de abril do ano de 2022

Caro Paulo,
É sempre muito bom tê-lo aqui e ainda com boas notícias; está bem e isto é o que importa. Logo sairá da cama e poderá ganhar espaços para além do reino das pitangueiras, ainda que aprazível e encantador não alcança a vastidão do mundo de fora.

Sobre o medo,me lembrei da letra dessa canção:
(...)
El miedo es una raya que separa el mundo
El miedo es una casa donde nadie va
El miedo es como un lazo que se apierta en nudo
El miedo es una fuerza que me impide andar
(...)

Com ou sem medo, seguimos! Melhoras, meu amigo!

Abraços