Da janela, vejo os dois pares de pés que disputam uma bola. São dois adolescentes já crescidos que despertaram mais cedo no domingo para rememorar o que faziam diariamente há poucos anos. Um racha no asfalto, duas traves imaginárias, delimitadas por dois pares de chinelos — um par de cada lado — o barulho da bola se chocando com os muros das casas vizinhas e os meninos donos da rua inteira. Os meninos que cresceram e têm cada vez mais compromissos, mas hoje voltam a ser dois meninos barulhentos. Não passa carro, não vejo mais ninguém além deles, ocupando as calçadas ou caminhando a esmo. Somente os dois. Os meninos com a bola e as traves imaginárias e eu, com o café de verdade e o fim suspeitado que não aconteceu. Mas a imagem é menos reconfortante que o som. Por isso, abandono a janela, me sento na sala, com xícara e pão.
quinta-feira, 27 de outubro de 2022
Essa calma nos pés que eu não conheço
O despertador não tocou hoje e nem vai tocar. Mas acordo todos os dias no mesmo horário, independente do dia da semana e da hora em que adormeço, ao final de um dia. O corpo se acostuma; é programado à revelia.
Sem mensagens, e-mails ou tarefas urgentes no bloco de notas, hoje eu não abro a agenda. Com o tempo inteiro meu, tudo parece mais longe, mais largo, mais lento. Até acordar é mais longínquo, aos domingos. Difícil atravessar o continente que é a cama.
Despertar e olhar o teto, acordar e entreabrir a cortina com a ponta dos pés para saber se é ensolarado ou cinza. Acordar e querer voltar ao sonho, cujo final é passível de invenção, se eu precisar de um. Acordar e não ser urgência. Um dia inteiro que cabe no colchão.
Respirar mais profundamente, me lembrar de uma música, beber o resto de água da garrafa na mesa de cabeceira. Despertar e não ter que ser outra coisa que não uma pessoa que nasce, de novo, para o mundo.
Acordar e pensar que não tem que pensar em nada. Despertar e não ter que escolher palavras, gestos, vestido, sapato ou futuro. Abrir os olhos e ter a escolha de não decidir sobre nada hoje. Não que a vida esteja resolvida, ela só está do lado de fora da porta agora.
Cinco minutos depois de despertar e já são dez dias de um corpo à deriva sobre o colchão. A cama é larga, os braços perdem as bainhas do lençol, que não tem fim.
Acordar num domingo é estar solitária no Atlântico, sem precisar de ajuda. Nem telégrafo nem bússola; nem rota nem mapa; nem fuga nem permanência. O domingo é abstrato e sem resposta. Ele não pede nada.
Antes de me levantar, pensar em como é se levantar: torcer o corpo na cama, jogar as pernas para fora, sentar-se na beirada do colchão, inspirar e impulsionar o corpo numa expiração. Passar os pés debaixo da cama para buscar o par de chinelos de borracha, encontrar o chinelo e, junto, a tampa de uma pomada, perdida ontem. Depois, arrumar a cama ou ir direto para a cozinha, preparar o café e deixar a cama desfeita ainda para, quem sabe, voltar para um cochilo matinal.
Pensar e ainda não me levantar. Pensar se já trouxeram o café alguma vez à cama; pensar se alguma vez o levei para alguém, pensar se já o trouxe para mim e se sim, o que fiz com os farelos de pão e as migalhas doces, conclamando a visitação das formigas ao colchão.
Pensar, antes de me levantar, se melhor não fosse se eu deixasse de escrever um roteiro sobre como me levanto. E só então, torço o quadril no colchão, enrugo os lençóis e dobro os joelhos, para que alcancem o limite da cama. Haverá café na cozinha, seu fizer, e um par de chinelos debaixo da cama, se eu os deixei ontem.
O apartamento inteiro é a solidão de uma praia no inverno, de madrugada, mas sem mar e com esperança. Nenhum barulho; nem de mar nem de calçada. Nenhum vestígio de outra pessoa que se adiantasse no preparo do café, nenhuma voz que saída do final do corredor desejasse um bom dia ou uma boa vida. É tudo calado e vazio na manhã do domingo.
A leiteira de alumínio ainda está na segunda porta, o filtro de água já passou por manutenção nos últimos três meses e o pó de café não acabará antes do mês.
Enquanto a água ferve, fico de costas para o fogão e olho pela fresta do basculante a área de ventilação do prédio, onde tem sempre uma peça de roupa que alguém deixou cair do varal. A administradora do condomínio já destinou uma série de comunicados sobre incidentes com peças de roupas agarradas em canos, entupindo e queimando motores de ar ou aquecimento ou simplesmente acumulando poeira e poluindo visualmente os fundos de um prédio que não é chique. Mas as roupas caem, os pregadores se quebram, as mãos falham em recolher ou as tempestades chegam antes do final do expediente. Nesta manhã há, o que parece, um moletom amarelo, uma peça preta rendada e dois pés de meias de pares diferentes. Esta semana, quando eu chegar em casa, depois do trabalho, terá um comunicado, debaixo da minha porta, da administradora do condomínio sobre roupas que voam e provocam desastres domésticos, vou me abaixar, pegar o comunicado e não o lerei, porque saberei sobre o que se trata.
A água ferveu e eu cogitei quatro ou cinco moradores que podem ser donos das vestimentas ao relento. Enquanto rego o filtro de café, penso nesse prédio de apartamentos silenciosos aos domingos pela manhã, parecem vazios, até abandonados. Nenhuma conversa, música ou TV ligada, ninguém mais acordou antes das sete e veio ver as roupas na área de ventilação.
Com o café coado, esquento o pão com manteiga na frigideira, mas com o cuidado de não raspar o fundo para não fazer barulho. Não quero que os outros despertem tão cedo no domingo, embora esse silêncio tenha o mesmo som do abandono.
Quero tomar café, ouvir qualquer sinal de que o mundo de ontem ainda existe e que se parece o mesmo há décadas. Não acabou ainda.
Escovo os dentes, antes de ir para a mesa, e escuto qualquer coisa. Parece vir da rua, alguém, um som, alguma vida para além da minha. Abaixo a escova e tento ouvir de novo, porque demora, quase desisto, coloco mais pasta nas cerdas, me preparo para levá-las até os molares e o barulho aparece de novo e, agora, de novo e mais uma vez.
O deserto é habitável, o silêncio não me soterrará em medo ou completa solidão. São pequenas explosões, com vozes que reclamam ao fundo. Termino de escovar os dentes e antes de lavar o rosto, vou me certificar do som ao redor. Abro a persiana da sala, não completamente, e nem me aproximo com o corpo de uma só vez. Chego lentamente, parte por parte — como uma coreografia — vasculho à procura de uma prova de que o mundo não acabou ontem, porque eu chorei ou porque nunca mais algo vai ser.
O barulho do outro lado da parede anuncia que continua, as peças de roupa na área de ventilação confirmam que as perdas e os incidentes não param; o estado das coisas nunca esteve suspenso. O barulho da bola não tem treinos, chuteiras, técnico, não tem torcida;
são só os dois meninos, que crescem, numa manhã de domingo na rua vazia e isso basta. Volto ao
café, abro a página de um livro que recomecei ontem.
O domingo tem treze Saaras de solidão, mas um pouco menos longe, enquanto os pés deles
tocam a bola. Viro a página e tomo mais um gole de café. Que a disputa dure até eu estar ocupada de novo ou saber aceitar as minhas amplitudes sem gaiolas.
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