quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Poemas para declamar depois da noite

  Quando a guerra se aproxima, há civis desavisados ou descrentes que continuam a passear com os seus cães. Sobem e descem ruas, sem nem imaginar que os tanques se aproximam e ocuparão toda a cartografia a qual conhecem. Saem para comprar ovos e tinta de cabelos. 
  Quando nas cidades o cheiro do medo sai pelos bueiros, os despreocupados andam desarmados e cantarolam Elvis, enquanto olham as vitrines. Lavam roupas, calçadas e se dedicam a tirar os limos da escadaria. É urgente o trabalho doméstico.
 
  Quando a guerra ameaça a lançar suas bombas nos sonhos dos ingênuos, eles dão de ombros às cartas, telegramas e telefonemas e continuam a arear panelas e a planejar as aulas da semana seguinte. Vão ensinar a tabuada e ler um livro de aventuras para a turma do terceiro ano. 
  Alguém se casa, se matricula na autoescola  ou escolhe o nome do filho. Alguém faz planos para os próximos trinta anos e compra um apartamento financiado em vinte.
 
  Quando uma guerra começa, há quem já estivesse com uma década de planejamento.
 — E eu não disse? Balançam a cabeça resignados e um pouco satisfeitos com a aposta que parecia pouco crível. 
  Compram suprimentos, dirigem para o interior, choram no banho, depois de acalentarem o filho e fingirem que tudo vai bem.
  Quando o estouro de uma guerra se aproxima, têm pertences bem embalados e plano de fuga ou luta, os conscientes da guerra. Fazem cartas de despedidas, reatam relações, perdoam e saem em busca das desculpas que pensam não terem mais tempo para protelar.
 
   Quando sentem o prenúncio do conflito, falsificam passaportes, fazem contato com os amigos estrangeiros, pedem proteção divina nos templos e permissão diplomática nas instituições. Aprendem a atirar e combinam códigos com alguém muito próximo com o qual não imaginam não poderem falar mais.
  Se inspiram em alguma imagem heroica, se lembram que ainda têm medo de morrer e que talvez sejam jovens demais para assistir ao colapso de tudo aquilo que conhecem. 
  Ouvem os sussurros do conflito insistentemente em todos os cômodos da casa, por isso passam a andar armados e precavidos de ódio ao inimigo.
 
  Quando anunciam a guerra, o alto funcionário burocrático do Estado, assina papéis e diz para mulher que teve um dia normal. Chega em casa, lava as mãos, janta com os filhos e a esposa e fuma um charuto, enquanto bebe uísque. No dia seguinte, prepara a logística, endereça as correspondências, envia a lista de mortos para as homenagens em um funeral coletivo. Mais tarde, chega em casa, lava as mãos, janta com a família e beija os filhos.
  — Um dia comum.
  Responde lacônico quando a mulher pergunta sobre o trabalho. O fogo queima longe de sua janela, os corpos não têm rostos, os sobrenomes não são como os dele.
 
  Quando a guerra se aproxima, a escritora narra os estrondos internos que afligem antes das granadas dos exércitos, ela detalha os dias que antecedem à convocação de um almirante e de um soldado raso, as perdas que ambos colecionam antes mesmo de conhecerem a trincheira. Subtraídos de esperanças, repletos de arsenal bélico e do natural instinto de sobrevivência; vão matar para não morrer. A poeta descreve o último suspiro de um pai e a agonia recorrente dos filhos que não conhecerão a voz do genitor.
  A escritora chora mesmo sem ter ido à guerra, porque escreve sobre as memórias de alguém que esteve lá. A escritora lava o cabelo, troca a fralda do filho e não apaga o que precisa ser descrito. A escritora também combate; desvia das bombas e é alvejada duas vezes ao dia, quando começa a escrever e quando termina.
 
  Quando a guerra acaba, ninguém volta, o mesmo, para a mesma casa. Algumas foram completamente queimadas, outras seguirão abandonadas porque os seus donos desapareceram; foram fatalmente alvejados, torturados ou tiveram suas memórias irreversivelmente afetadas. 
  Quando o acordo de paz é assinado, ninguém comemora, exceto o alto funcionário do Estado, que poderá tirar férias. Todos são derrotados; os precavidos, os incautos e a escritora.  Ninguém sabe parar as balas, suas vozes são silenciadas pelas bombas e do mundo que conheciam quase nada restará.
 
  Quando a guerra acaba, outros facínoras se preparam, alguns heróis serão presos ou mortos antes do próximo conflito. O que permanece é o trabalho da escritora, que fará um poema sobre os seus papéis incendiados e os mortos, sem nome, empilhados.
  A guerra acaba como começa: ganhando as ruas lentamente ou como a luz de uma lâmpada subitamente apagada. Mas a escritora sabe que é preciso fazer poemas para serem declamados depois da noite, porque são eles que poderão iluminar o escuro do mundo, durante e depois da guerra.

 

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