Choveu
cem dias e cem noites. E embora digam que não passou de uma semana, acho que é assim que nos lembraremos desse tempo quando já estivermos distantes.
Nada permaneceu seco, o que não foi levado pela força da água, ficou por secar. Seu nome perdido no meio da lama, meus ossos gelados pela água até os joelhos, as
pupilas da nossa vizinha dilatadas de medo. Ficaram a TV, os móveis da
sala, do quarto e as fotos da lua de mel dos meus pais em Petrópolis em
1977, nem o tapete molhou, mas a água lamacenta submergiu a nossa
segurança.
Resgatamos o gato, as violetas na sacada, os ímãs da geladeira, taças,
garrafas de vinho, almofadas do sofá, chinelos de borracha e o livro da minha cabeceira, da
Silvina Ocampo, que abri na página cujo trecho está sublinhado com
lápis: "Não amamos as pessoas pelo que são, e sim pelo que nos
obrigam a ser”, enquanto você desmontava as prateleiras encharcadas do
armário da pia da cozinha.
Estamos a salvos com as lembranças materiais das duas famílias, ainda
temos tudo o que parcelamos na casa, mas choveu por cem dias
ininterruptos. Ouço alguém no telejornal agradecer pela vida, pelo único
bem preservado. Também somos gratos, mas antes e depois choramos.
Tudo que ardeu, está afogado agora lá
fora. Aqui dentro, só pedaços da vida que precisará ser reconstruída sem
intervenção externa. Não há outra casa, senão esta. Ainda que nos mudemos um dia, ela não sairá de nós. Para nós, também não existe isenção de impostos, novos cartões de vacinas e segunda via de documentos, mas também teremos que nos reconstruir.
Difícil nem é nascer; duro, me parece agora, é continuar sem tantas coisas que tivemos. O sobressalto da noite mais angustiante, ainda nos perturba. O agudo das sirenes, os rasantes de helicópteros, os gritos apavorados de humanos como nós. Como apagar a noite de cem dias e cem noites, como apagar o medo de não acordar no outro dia?
Março
está quase no final e ainda estamos úmidos no começo do outono, nenhuma
tragédia no jornal é maior do que aquela que não apareceu em lugar
nenhum. Faz parte do drama chorar sem ter o porquê. Tudo sobrou. Se olharmos, detidamente, cada ponto da casa, o resultado é o mesmo: tudo aqui. Mas também para nós, que testemunhamos o céu escuro, a água infinita, o tremor da terra, entendemos que tudo que é, só é provisoriamente. E choramos por isso.
O
inegociável também está um pouco mais desgastado agora. A perspectiva
das raízes das árvores suspensas, das fendas e voçorocas no solo se estendem
para vida: o que fazer sem estabilidade? Como ter coragem sem nada que garanta o nossos pés fincados ao chão? Retirar os pés do solo e acreditar em uma aterrissagem que não nos escape. Mas tudo nos escapa, porque não somos infalíveis como a água, arrastamos muito pouco.
Na rua de cima, nos dias seguintes às chuvas, eu vi sofás, colchões, bichos de pelúcia e varais com roupas secando. Era triste, mas também bonito assistir a tantas vidas de volta ao solo, ao menos ao desejo de um solo.
Houve um tempo, antes de você chegar à ele, que eu subia aquela rua para visitar uma tia. Nos sentávamos embaixo de um abacateiro e assistíamos a vida passar, porque é o que tínhamos. Ela anotava em um bloco de papel as frases que não conseguia dar voz e eu vocalizava as frases de nós duas. Era um diálogo que sempre me deixava extenuada; falar por nós duas.
Mas teve uma vez que ela fez uma lista da ordem dos funerais futuros, onde meu pai era o primeiro e ele está aqui ainda, ela não mais; foi bem antes da chuva. Hoje eu me lembrei disso, quando tentava tirar a lama dos meus tênis de caminhada. Nunca sabemos de nada; nem antes nem depois da água.
Então me lembrei do nome do livro da Ocampo: Fúria. Primeiro a da chuva, depois, a da nossa vontade de viver. Olho para a clareira no morro tão antigo e antes tão estático, de improvável queda. Queria eu ter a dulcíssima visão do abacateiro, mas agora tudo está com as raízes um pouco expostas. Sobreviveremos ao que não temos controle? Algum dia ouviremos novamente o barulho da chuva sem tremer?

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