domingo, 15 de março de 2026

Morria de medo de ser braçuda

  Tinha medo de ter braços musculosos, braços que não parecessem femininos. Medo de veias saltadas e muques sobressalentes nas camisetas floridas. 
  Tive medo de ser grande e ocupar muito espaço. Medo de não encontrar vestidos em que coubessem os meus braços,  se não fossem braços de mulher.
 
  Tinha medo de parecer mais viril do que doce. Tinha medo de ter braços másculos e incontroláveis; que é como eu pensava que os braços fortes eram. Involuntária violência.
 
  Tinha medo de abandonar heranças de delicadeza por causa dos músculos superiores. Tive medo de que qualquer sinal de força me afastasse do destino de mulher que todas deveriam encontrar.
  Braçuda, adjetivo coloquial para mulher com braços fortes.
  Sou uma mulher braçuda agora.
 
  Não das que colocam o braço para fora do carro, enquanto dirigem ou aguardam impacientes o tráfego lento,  mas das que carregam as próprias compras, com sacos de arroz, feijão, fubá e açúcar. E as da vizinha também, quando preciso, com sabão em pó, água sanitária e amaciante.
  Sou a mulher braçuda que eu tive medo de ser .
  Não das que ameaçam o inimigo, mas daquelas que mudam os móveis de lugar da casa sem pedir ajuda, que sobem cadeiras para limpar debaixo da mesa ou enrolam tapetes pesados para pintar a sala.
 
  Sou uma mulher com braços fortes, depois do medo. Não das que caçam o jantar, mas que carregam as sacolas do açougue e do mercadinho de verduras e legumes para preparar a própria comida.  
 Tenho braços musculosos de mulher e não exibo meus atributos no parque depois da corrida, tampouco tento destacá-los nas camisetas ou admirá-los no espelho da academia. Sou só uma mulher braçuda das que carregam a autonomia e a desafiadora liberdade que as outras mulheres da família não descobriram que podiam fazer.
 
  Sou uma mulher braçuda para carregar sacolas para o meu pai. E para minha mãe não receber uma ligação no meio da noite, comigo chorando e pedindo ajuda. Meus braços não garantem nada. Mas sou uma mulher braçuda que tenta ter menos medo.  
  Morria de medo de ser braçuda e não caber nos espaços que eram destinados a mim. Morria de medo que os meus braços fortes me desviassem do destino, porque não sabia que os caminhos eram plurais.
  Sou uma mulher braçuda que ninará a própria mãe, quando chegar a hora e acolherá, no colo, o pai que a segurou por anos, com os seus braços fortes. 
   Minha mãe tinha braços franzinos e medo da noite. Eu não quero ter os mesmos medos da minha mãe. Sou uma mulher braçuda que anda no escuro.




 

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