quarta-feira, 27 de junho de 2012

Não é exatamente o que parece...

  Vestida de cinza, cinza e preto, é inverno, faz  frio; a moça gosta de roupas pretas e brancas e agora o recém descoberto cinza. Ela gosta de cores (gosta do colorido), mas sempre pensou que o preto lhe caísse bem, coisa dela. É domingo, ela esta só, ela escolheu estar sozinha, a moça valoriza muito seus aparentes silêncios. Dentro dela, carrega uma multidão e por isso sua necessidade de um sossego externo. Hoje é dia de descanso. Levantar tarde, comer qualquer coisa e não fazer nada...esse era o combinado. Mas, de repente, sente vontade de se exercitar, pula da cama quentinha, toma um café forte e sai para caminhar. A avenida lotada nos outros dias, hoje é vazia. A tranquilidade do domingo, as músicas favoritas, os poucos carros, ela anda, anda, vai além do seu circuito habitual, a vontade de andar cresce, começa a correr, esta frio e ela está suada, "é bom ir contra o natural, às vezes", reflete.

  Na volta para casa, toma uma ducha morna, lava os cabelos e deseja uma comida caseira, com salada até. O almoço farto é para uma pessoa só, cozinha a cenoura, a beterraba, a ervilha, como se preparasse um almoço para Luis XIV, ela merece todo o cuidado, ela merece tamanha dedicação. Sente o prazer de ser sozinha, de ninguém interferir no seu dia, até a sua multidão interna a deixa desfrutar do silêncio. Ajeita as coisas na casa, sem as observações alheias, enquanto organiza a casa, a bagunça interna é também desfeita: - Tudo no seu devido lugar! 

  Hoje não há medo, insegurança, expectativas ou angústias, a tarde chega tranquila, ela não desperdiça o seu tempo só; não dorme, só pensa o quanto é feliz por não ter nada, nem ninguém, não aqui e agora. Ninguém requisita, ninguém solicita, nem critica, ela não espera, não sofre, não é infeliz. Hoje o domingo é seu, o mundo é seu e a sua pequena, e agora dócil, multidão descansa, enquanto ela a observa como uma mãe zelosa.

  Acha que o seu dia merece algo especial: uma ida ao cinema. O filme escolhido tem nome sombrio, mas ela sabe que quer diversão, ela só quer sorrir e sorrirá. A roupa é cinza, as botas marrons e o batom é vermelho. Sozinha na fila do cinema, lotada de grupos de amigos e casais apaixonados, ela pensa na ironia de ser o improvável. - Moça, uma inteira!. Sobe as escadas, rumo a sala escura e pensa que ninguém ali é mais feliz do que ela e ela veste cinza, cinza e preto, é inverno, faz frio e ninguém em qualquer lugar no mundo sorri mais do que ela, ninguém...e é domingo, é inverno e ela não tem nada, nem ninguém e veste cinza e preto, mas o batom é vermelho.


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