segunda-feira, 16 de julho de 2012

Assim...como uma poodle...

  Manhã fria, cinzenta, o vento é constante, o frio é cortante, saio sem casaco. Porque sei que durante a caminhada, depois dos primeiros cinco minutos, sempre o tiro mesmo. Mas hoje, especialmente com o frio de hoje: - Eu não tiraria! Lamento, já nos dez minutos de intenso exercício. - Não faz mal, o corpo acostuma. Me consolo. 

  A avenida sempre tão movimentada, hoje está quase vazia, só uns poucos carros; até os pontos de ônibus estão desertos, os "colegas" de caminhada também não apareceram. E sozinha, sem blusa, corajosa percebo o quanto as poucas pessoas de dentro de seus carros aquecidos são solidárias, generosas, não preciso esperar nenhum sinal fechar, eu simplesmente passo...todos me deixam passar. Os olhares são de surpresa e, talvez, de estímulo, as pessoas sabem ser solidárias com quem está visivelmente "tentando" algo. Se fosse uma maratona certamente eu receberia água das mãos de alguém, é uma sensação de companhia, mesmo em uma empreitada solitária. É o silencioso, mas presente grito de "vai". 

  Penso na minha disponibilidade para o "feito". Nenhum outro desempregado, nem aposentado, nenhuma pessoa que gozasse de férias acordou cedo e se pôs a caminhar. Só eu; aqui só eu. Culpada, envergonhada, quero voltar para casa, não quero ser vista, não quero solidariedade, estímulo, quero fazer o que os outros fazem agora. Indo para algum lugar, voltando de algum lugar, pensando em ir ou voltar e não simplesmente caminhar, entende? Quero ser todo mundo. 

  Volto mais rápido, pelo frio, pelo exercício, pela culpa de ser diferente hoje. Não deixo de olhar ao meu redor, nunca deixo. Olho para um carro, parado no sinal, a janela do carona está muito aberta e lá dentro duas poodles, acho que são fêmeas, porque a raça me parece sempre tão feminina, sei lá. O carro sai e as duas poodles tem suas carinhas tomadas pelo vento e elas gostam, chegam com seus rostinhos finos mais para fora da janela, competem por mais vento, seus focinhos furam o frio, desafiam a temperatura. As poodles me parecem felizes em serem quem são.

  Para onde iam a dupla de poodles, iriam tomar uma vacina? Passariam por uma esterilização, cirurgia? Alguma delas tinha sua morte decretada? Ou só fariam um passeio de férias? Iriam ao parque. Eu não sabia, elas também não. Mas, nada preocupava as duas doces poodles. Seja o lugar para o qual fossem, elas desfrutavam do vento no rosto. Vi alegria no carro, vi duas poodles contentes com o que eram. Não era uma felicidade enlouquecida ou euforia desmedida, era um contentamento despretencioso, sem razão. Eram poodles sendo poodles. E elas não tinham planos, elas não faziam, não traziam, não acumulavam, não analisavam, não invejavam, não mentiam, não traíam, nem mesmo a si mesmas. Só aceitavam, confiavam e se entregavam. O que faz um poodle além de ser um poodle? 

  Quando voltei para casa eu não trazia culpa, vergonha, remorso, nem ao menos, frio. Eu era assim, como uma poodle, bastava ser eu, eu só, vento no rosto, contentamento por nada, desconhecimento do futuro, do logo mais, do porvir. E eu que não gostava de poodles, desejei ser uma, esta manhã...


2 comentários:

Loh LS disse...

Adoreiii o texto!!
Bjus
avidamudaeutambem@blogspot.com.br

Amanda M. disse...

;) Muito obrigada!!!