segunda-feira, 30 de julho de 2012

E ele desconhece o seu poder

  E, é exatamente isso que o torna mais poderoso. Ele não tem 5 anos, mas manda na rua inteira, é o maior, talvez o único, dono dela. O menininho seria um garoto como outro qualquer da sua idade, se não fosse pelo poder que ele, sem saber, ostenta. Cabelos castanhos, corte "joãzinho", uma pele branquinha, acho que os olhos são claros, como os da irmã mais velha, a quem já vi mais de perto. 

  Eu ouço sua voz quase todos os dias, quando me aproximo da rua. Escuto os cumprimentos calorosos personalisadíssimos, seus comandos no trânsito, suas risadinhas constantes, suas poucas manhas (ele é mesmo um menino daqueles "bonzinhos"), muitas comemorações, ele comemora quase tudo, o que ao olhar adulto pareceria uma tolice. Mas, aqui, não há quem o julgue, o condene, não há quem se chateie com a sua alegria infantil, que chega a ser contagiante. O menino de apartamento, não é um típico menino de apartamento, pelo menos, não ainda. A ruazinha curta é o seu quintal; o cachorro da casa do vizinho é seu e obedece mais as suas instruções do que a do próprio dono; todos os carros (que ele adora) são um pouco seus também. Somos todos seus parentes;  para o menininho, metade da rua são seus tios e tias, outra metade, quando ele descobre um número mais visível de cabelos grisalhos, são seus avós. Não há jovem senhora que se ofenda com o "título", aparentemente, menos lisonjeiro que o meninho possa conferir.

  Ontem ele era um pirata, bandana vermelha, calção preto, blusinha branca e o típico tapa-olhos, que insistia em cair. Quando apareci na janela, ele estava lá: mais brilhante do que nunca, inocente, sonhador e com uma carinha que ensaiava a face de um pirata provocador. Com uma das mãozinhas segurava sua poderosa espada, com a outra o tapa-olhos e, ainda, se equilibrava na provável cadeira (ou cama, ou banqueta) que o deixa na altura da janela. Ele ainda não tinha me visto, ele  sequer suspeitava da minha admiração pela sua figurinha peculiar de pirata. Mas, seduzida pelas suas risadas e pela estorinha de aventura, que ele inventava para si mesmo, não consegui sair da janela. Era domingo, fim do dia e ele era a melhor surpresa da minha tarde, até agora tão vazia.

  Enquanto espiava o pequeno inventor de aventuras, pensava que, na verdade, o piratinha é o menininho que existe em todos nós e por isso o respeito de todos, o afeto velado de muitos e as demonstrações de carinho e reciprocidade de alguns. O piratinha é a nossa cor no cotidiano cinza do concreto, é o menininho de fazenda em plena zona urbana, é a inocência ainda não corrompida, é a coragem travestida numa roupinha barata de pirata, mas que dá tanto poder, tanta alegria, é a sinceridade direta, mas tão delicada, que nunca magoa, é a valorização do que realmente importa: as pessoas todas, os bichos de estimação alheios, meio esquecidos, os objetos inanimados, aparentemente destituídos de valor, o pau, a pedra, a lata de tinta vazia, a garrafa de refrigerante amassada, o carrinho sem rodas.

  Há muito eu invejava a mãe do piratinha, confesso. Ter esses olhos tão atentos aos valores mais profundos, essa sensibilidade aflorada, esse bom humor rotineiro perto de si. E mais, que orgulho seria o de conceber criaturinha tão abençoada, tão epecial. Fosse eu a feliz mãe do piratinha, sentiria que ao dar a luz, no lugar de só um menininho, teria nascido uma bela poesia. Outras vezes, como neste domingo, eu invejei foi o  menininho, queria ser a própria poesia e não a mãe dela.

  A mãe "de verdade" do piratinha apareceu na janela, para levá-lo ao banho, ele ainda resistiu um pouquinho, mas obediente deixou a janela. Antes de descer, me viu do outro lado da rua, fez o cumprimento mais primitivo das crianças, ofereceu-me seu polegar em riste e sorriu. Devolvi prontamente um longo sorriso e estiquei meu polegar, como não fazia há anos. E, solitária, na janela do meu apartamento, eu dirigi uma sincera oração para todos os piratinhas do mundo, para que eles sempre guardem consigo o verdadeiro tesouro: o de ser para sempre menininhos...que eles não cresçam nunca, pelo menos, não para sempre.


6 comentários:

Ana disse...

Acho que há muitas coisas da infância, e que se perdem com a idade, que se deviam manter. Eu tento manter algumas, em muita coisa ainda sou uma pirata:), ainda vejo a vida como uma criança e espero nunca perder essa capacidade, por mais que a vida nos queira tirar a ilusão acho que na dose certa é fundamental para uma existência feliz:)
beijos

Amanda M. disse...

Pirata com a espada em riste...este deve ser o segredo!;)

Loh LS disse...

Lembrei da minha infância!!!
Bjusss
avidamudaeutambem.blogspot.com.br

Carla Machado disse...

Lembreique eu e o Du, um dia, ao brincarmos de pirata, escondemos a coleção de moedas antigas do papito... um dia, muito tempo depois, elas apareceram numas escavações, quando já não erámos mais piratas, já tínhamos nos travestido de Indiana jones: encontramos nosso tesouro, escondido pelos piratas que fomos! Beijo, obrigada por me fazer lembrar disso!

Amanda M. disse...

;) é bom ter uma infância de piratinha para chamar de sua, né?

Amanda M. disse...

Meus piratinhas favoritos!!! Amo vocês!