terça-feira, 14 de agosto de 2012

É como parar o tempo

  E uma vez mais eu convido-o para compartilharmos um dos momentos que mais gosto do dia. Chamo-o para caminhar comigo. Porque ambos, além de um mesmo sorriso, mesmo jeito de andar - sempre apressado, com a cabeça elevada (contemplamos outros mundos, mas somos incapazes de enxergarmos quem anda ao nosso lado), temos esse gosto em comum. E, eu adoro caminhar sozinha, mas gosto da companhia dele, mantemos o mesmo ritmo forte, falamos muito pouco, concentramo-nos no exercício e por isso eu sempre faço o convite, sempre em tom de desafio, porque ambos somos impulsionados pelos "desaforos" um do outro...

- Vai chover, ele diz. - Imagina, se chover vai ser só mais tarde, dá tempo de uma caminhada e uma corridinha, encorajo eu. Insisto e ele vem; quase sempre ele vem. Ele acompanha meu trajeto, metodicamente planejado e sistematicamente repetido, eu sou sua guia. Seríamos uma dupla imbatível, se treinássemos juntos com maior frequência. Inventamos cada um a sua estória: eu sou competidora na prova de marcha atlética (aquela modalidade em que os atletas parecem rebolar) e ele é maratonista daquela prova anual no Rio de Janeiro. 

  Logo desfazemos a dupla e passamos a ser adversários. Ele consegue correr por mais tempo do que eu; e eu dou passos mais rápidos e longos, nos mantemos empatados durante quase todo o percurso. Já venta forte, seguramos nossos bonés e o caminho da ida é completado. - Agora é voltar antes da chuva, ele torce. Rápidos, compenetrados, receiosos do céu negro que se aproxima, mas orgulhosos um do outro. Nós corremos, caminhamos e desfilamos pela avenida. Eu e ele.

  Enquanto a chuva cai, corremos, ele mais do que eu. Não tenho medo da chuva, receio bem mais uma provável queda. A água chega com mais força, encharcados procuramos abrigo. Paramos na garagem de um prédio. Ele é meu pai e está molhado, antes de suor e agora de chuva, cabelos mais ralos do que na semana passada, mais grisalhos e já conta com mais de sessenta anos. Em pensar que eu o imaginava velhinho e cheio de limitações antes mesmo dos cinquenta. Meu pai; meu companheiro de caminhada, meu parceiro de piadas, meu jovem pai, que já tem mais de sessenta anos. Concordamos em enfrentar o temporal, a casa não está longe.

  Pela avenida, sorrimos, gargalhamos, os carros buzinam para o únicos dois loucos a correr debaixo de chuva. Para eles, uma mulher e um velho. Para nós, um jovem pai e sua filhinha orgulhosa. E vivem sempre dizendo que nós nos eternizamos nos filhos, discordo que seja só nos filhos. Nós nos eternizamos é na memória. Eu estarei com ele para sempre e ele eternamente em mim. Seus olhinhos brilhantes, debaixo das sobrancelhas já desbotadas, bagunçadas e molhadas confirmam minha tese, eu viverei para sempre naqueles olhos verdes. Nada é mais valioso do que esses dias comuns de chuva torrencial. Chegamos em casa, minha mãe esbraveja, mas por uma hora eu e meu pai paramos o tempo. Simples, mas tão sublime...


                     

2 comentários:

Anônimo disse...

lindo texto ein. bel

Amanda M. disse...

;) Obrigada Bel!