quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Não passa, mas aprende-se a conviver

  O garotinho já cansado, parado em frente ao edifício parecia não querer mais ouvir as repetidas recomendações da mãe e até eu, que estava ali a menos de 2 minutos - quando cheguei ambos já estavam lá -  não aguentava tanta repetição. Entre uma recomendação e outra, ela aproveitava para relembrar um ou outro "passo em falso" do menino. - Depois da consulta, saia daqui e vá direto para casa. Não vá fazer como daquela vez e parar na lan house sem me avisar. Nem parar com ninguém na rua e ir se enfiar na casa de colega nenhum. Você tem lição de casa, tem que terminar aquela resenha e amanhã ninguém te tira da cama. Suas notas estão baixas e eu pagando colégio caro... - Tá mãe, tá. Eu saio e vou para casa. Mas, dura, inflexível, ela insistia, enquanto ele bufafa discretamente. 

  Coisa de mãe. Pensei. Mas que é chato é. Até eu confiava no menino (mais do que a sua própria mãe), acreditava mesmo que ele sairia dali direto para casa, ao menos que tivesse uma razão muito forte (amigos, videogame, futebol), então, se atrasaria um pouco, não avisaria, mas nunca por maldade, só por distração mesmo. Cansado, chateado, cabisbaixo, humilhado (talvez pelo detalhe das notas revelado em público) ele entra no elevador. Nós dois dividimos o mesmo ambiente, ele olha para os pés, tentando não levantar a cabeça, não trocar olhares com ninguém, fecha-se dentro de si; ele, a sua vergonha e cansaço. Eu queria lhe dizer algo, qualquer coisa que o consolasse: que aquilo passaria, que as mães também erravam, que o excesso de rigidez era um aspecto do amor maternal, que suas notas melhorariam e que se não melhorassem ele não seria "menor" por isto, que um dia ele seria dono das suas próprias ações, não precisaria da confiança alheia, das cobranças e que o descrédito de ninguém o abalaria. Calada, impassível, também abaixo meu olhar e o limito para as minhas sapatilhas. Não vai passar, assim, assim. Quase duas décadas me afastam do menino, mas eu sei bem o que ele sente. Não ter a confiança de quem se ama, sentir-se pouco conhecido por quem temos tanto afeto, nada ser o bastante, suficientemente bom ou, no mínimo, satisfatório. Talvez não passe nunca.

  Recolho-me a minha impossibilidade de aconselhamento otimista, penso quantas vezes, mesmo depois de adulta, as cobranças magoaram e, o pior, a falta de confiança e aparente desconhecimento de quem se ama feriram-me profundamente. Descemos no mesmo andar, ele segue para a psicóloga e eu para o dentista, penso na sorte que tenho, já que meu tratamento terá anestesia. Lamento um pouco por não ter me manifestado para o menino, oferecido uma bala, sorriso ou piada. Sigo o corredor e lembro que duas décadas deixam, pelo menos, um coração mais treinado: não passa para sempre não! Mas passa...pelo menos durante o efeito das "anestesias" que a vida sempre envia para a gente. Saio do dentista, procuro pelo garoto, ele não está. E eu não sigo direto para casa e torço para que ele também não. Afinal, testar o amor do outro também faz parte do que chamam de vida e esse descompromisso da infância é o legado que a criança que fomos, deixa para o adulto que nos transformamos. Eu não rejeito o regalo, sucumbo aos descaminhos, aos atrasos sem aviso e a brincadeira ilimitada das ruas, amanhã é outro dia, amanhã eu penso na resenha, porque a minha lição de hoje, já foi aprendida...


2 comentários:

Anônimo disse...

A lição já foi aprendida e ensinada!!!

Amanda M. disse...

;)