quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Que santo vai brigar por você?

  A resposta, pela qual aguardava não foi das melhores, por um lado, já a esperava mesmo, por outro, ainda nutria alguma esperança, enquanto não te dizem um "não", o "sim" ainda é possível. Ainda mesmo quando a espera era angustiante veio a pausa consoladora das pequenas alegrias. Em busca dos grandes milagres a gente perde a beleza dos pequeninos e sutis acontecimentos diários. Porque alegria mesmo, a pura, genuína e completa vem do esquecimento, só aparece quando não a buscamos, não a esperamos. Felicidade é visita não agendada, tampouco anunciada.

  Olho para minha pequena coleção de santos na prateleira, são todos franciscos, ficam perto do gato vermelho que adoro, acho que dão-se muito bem; o santo mais recente foi-me presenteado por uma amiga que nem ao menos sabia que eu gostava de algum santo, quanto mais que eu adorava S. Francisco ou que eu os colecionava. Escolheu o regalo ao acaso, em busca de um souvenir de viagem, disse-me que lembrou-se de mim quando viu a imagem, na verdade escreveu-me, que o santo fazia-a lembrar-se de mim, entre tantas outras delicadezas escritas. A tarde que já parecera-me muito boa, iluminou-se ainda mais. Alegria é estar à vontade com pessoas que deixam-nos à vontade, acho que este é um dos princípios da amizade.

  Feliz com meu São Francisco na bolsa, sou forte, estou segura. Chego em casa, coloco-o junto aos outros três (disse que era "coleção"? Para mim, um trio já é uma coleção... Desde pequena tenho dificuldades em acumular objetos, por isso minhas coleções são tão concisas). Acho que ele é bem recebido pelos seus iguais. Iguais e ao mesmo tempo tão diferentes. O veterano foi um "presente-pedido", o vi pequenino na vitrine e o pedi como presente, chegou aqui delicado com duas pombinhas e um veado, uma das pombinhas (a que ele segurava nas mãos) teve sua cabeça decepada em um acidente doméstico, nunca encontramos sua cabeça para recolocarmos no lugar, acho que S. Francisco preferia assim: uma imagem desprovida de artificialismos, ainda que imperfeita. O segundo, é um pequenino retrato, em moldura delicada, adquirido em uma cidade histórica, o terceiro é o maior deles, em madeira, parece-me sério, constante e muito sensato. Pela dureza das cores e do material, julgo-o o mais experiente de todos. Já este mais recente é frágil, magrinho de olhos tristes, suas pombinhas, trazidas nas mangas do hábito se movem, em um criativo e simples mecanismo que permitem rodá-las, modificar a direção do olhar dos animais presos a escultura. O movimento das pombas me faz sorrir, a escolha um tanto aleatória do presente e, mais tarde, as palavras da amiga me permitem algumas horas de alegria pura, de felicidade simples, sem avisos.

  No dia seguinte, um outro presente. Um livro, de um autor já tão conhecido por mim, mas desta obra só conhecia fragmentos, sigo em uma redescoberta, do autor, de sua escrita e de mim. Ser presenteada sem datas é uma alegria simplória e tão imensa. A capa é vermelha, o título é amarelo, as cores tão vivas de fora, guardam estórias tristes e só quem as lê é quem sabe.

  Depois de uma rápida saída, volto para casa sob sol escaldante, desejo reclamar do calor , mas estou sozinha, enquanto resmungo baixinho, desço a rua e a imagem do céu é linda: nuvens brancas, muitas, fofas, baixas, parecem encostar no solo; em cima, um céu azul, de um azul até então desconhecido fazem fundo ao prédio espelhado, antes feio, frio e comum, a imagem é perfeita e ela está na minha rua. Encantada, o calor não incomoda, a espera não preocupa-me, caminho sem pressa, presa somente à contemplação. O celular interrompe o momento sublime, más notícias, vindas de um interlocutor desavisado do meu estado. O choro dura segundos, desconto pelo sofrimento antecipado. De dor já chega. Despeço-me da paisagem, que ficará em mim ainda por muito tempo, volto para meus santos, para meu livro. Segura nas minhas pequenas alegrias, refresco-me com um prato gelado de pedaços de melão e abacaxi, sorrio para os franciscos, giro a ave do meu santo mais novo e agradeço pela proteção que eles têm me dado; salvam-me das dores maiores, aliviam as más notícias e até da cegueira cotidiana têm me protegido, são eles que abrem os meu olhos para as alegrias mais sutis. O irmão sol é quem briga por mim, não há maior consolo do que este, alegre admito a descoberta.


2 comentários:

Ana disse...

Porra, tu escreves mesmo bem... até fiquei a babar para cima do teclado... eu faço colecção de colheres de pau, mas cozinho com elas na mesma:)
beijo

Amanda M. disse...

E eu acostumo-me muito mal e rapidamente...Pronto. Esta feito. Acostumei-me com seus comenmtários, Ana!;)
Beijo e obrigada